Metamorfose ambulante

Já comentei várias vezes que eu tinha preconceito de homem dançando dança do ventre, embora nunca tenha escrito um texto sobre isso. Mas num recente sábado estive em um evento daqui de Salvador e, de novo, fiquei diante de um moço que muitos de vocês conhecem e que dançou tão bonito, ao som de uma linda clássica, que acabei com vontade de escrever um pouquinho a respeito desse tema.

 

De uma forma ou de outra, os homens sempre estiveram presentes nos eventos que eu ia de dança do ventre, seja dando apoio à logística, seja apenas assistindo.

 

A primeira vez que vi um tentando dançar foi há uns aninhos atrás, no dia em que fui fazer a minha primeira aulinha. O meu colega de turma era um rapaz (o mesmo que citei lá em cima. Só que na época ele não era conhecido e nem eu sabia o nome dele). Quando vi aquilo, tomei um susto – eu esperava uma sala cheia de moças e, de repente estou ali, dividindo minhas dificuldades iniciais com alguém do sexo masculino e que, diga-se de passagem, não tinha dificuldades iniciais.

 

Saí de lá achando um absurdo ele estar naquela turma e querer aprender dança do ventre! Lembro de me sentir completamente constrangida porque enquanto ainda entendia que meu quadril não estava colado na minha coluna, ele já queria saber como fazia com a perna depois de uma ondulação do camelo.

 

Minha professora na época me disse que não me preocupasse porque, se ele tivesse que continuar fazendo aulas com ela, deveria ser numa turma mais avançada e não naquela iniciante. Depois disso, não soube desse moço durante um tempão, mas fiquei com aquele sentimento extremamente preconceituoso que a dança do ventre não era para ser executada por homens.

 

Pra piorar a situação, esse meu pensamento encontrou eco em diversos fóruns de discussão e sites que diziam que essa era uma dança exclusivamente feminina. Se eu já era ignorante, agora era ainda mais: uma ignorante respaldada em diversos conteúdos disseminados na internet e até em livros específicos sobre o tema.

 

Não sei quanto tempo se passou, mas um dia foi inevitável: fui para um evento de dança do ventre (naquela época não tinha tantos como hoje) e, de fato, vi um homem dançar pela primeira vez. Não era aquele meu colega de primeira aulinha. Era outro.

 

A minha primeira reação foi de extrema repulsa, mas não contive a curiosidade e olhei de novo (tudo, minha gente, é uma questão de olhar várias vezes para uma mesma questão): achei que tinha visto uma pessoa que não era nem homem, nem mulher. Deduzi que era uma alma dançando. E naquele momento, aquele ser que, para mim, não tinha um sexo definido, me pareceu tão perfeito, tão singelo e tão puro que ele até poderia ter dito que era um anjo que eu acreditaria.

 

Na sua dança não havia vulgaridade, não havia “boiolices”, nem nada feio ou impuro. Pela primeira vez, percebi que a dança do ventre era mais do que o sexo que a gente carrega.

 

Minhas colegas que estavam me acompanhando não tiveram a mesma opinião. Certamente ainda não haviam conseguido olhar de novo. Não as julguei e até fiquei com vergonha de dizer o que eu havia achado. Me calei.

 

Esse anjo eu vi dançar outras vezes, e mais outras e outras. Ele é o responsável por me fazer descobrir a dança de um jeito novo e desconhecido e, de quebra, por me ajudar a começar a me livrar do preconceito em que me mantive.

 

Mas não foi assim tão fácil. Após vê-lo algumas vezes, decidi que apenas ele tinha liberação para dançar a dança do ventre, afinal de contas, ele não era nem homem, nem mulher – ele era um anjo.

 

Na verdade, eu carregava aqui o mesmo preconceito de antes. A diferença é que porque achei sua dança bonita, neguei a mim mesma o fato inegável: ele era um homem, sim. Ainda que me parecesse andrógino, ele nasceu homem. E como homem, podia dançar lindamente. Mas eu ainda não tinha coragem de admitir isso.

 

Tudo teria permanecido nessa mesma caixinha se aquele rapaz, com quem dividi a minha primeira aula, não estivesse se apresentando em outro evento que fui. Dançando.

 

Não vou negar: odiei tudo! Ele não tinha nada de anjo. Era até masculino demais! Achei tudo bizarro e um verdadeiro desaforo. E isso se repetiu durante um bom tempo porque meu preconceito tinha me cegado. Na verdade, já nem era preconceito. Preconceito é quando a gente ainda não tem um conceito definido. Mas eu já tinha, só que ele estava prestes a cair.

 

Certo dia, ouvi alguém elogiando esse último rapaz. A pessoa dizia que ele tinha moldado a sua dança às características masculinas. E ouvi mais outro e outro e outro elogio. Achei aquilo tão estranho: porque todo mundo achava tão bonito e só eu e um grupo pequeno de pessoas achava feio?

 

Bom, podia ser questão de gosto. Só que sempre fui muito auto-investigativa (coisa de geminianos, sabe?) e não me convenci com minha primeira resposta. Admiti pra mim mesma que eu podia estar redondamente enganada: cega pelos meus conceitos formados ainda numa fase muito precoce minha na dança do ventre. Começava a dar meus primeiros passos de forma menos desastrada. Anda era um bebê tentando engatinhar, como poderia fechar tanto minha opinião acerca daquele tema? E, com essa conclusão, esperei a próxima vez de ver o moço dançar para abrir meu olhar.

 

Não foi tão fácil como com o primeiro bailarino, mas, aos poucos, fui entendendo o sentido da sua dança, a sua forma de se expressar, aprendendo a reconhecer a força de seus movimentos, a beleza de seus giros e, surpreendentemente, percebi que ele se dedicava aos estudos muito mais do que as bailarinas mulheres que eu conhecia. Lógico! Ele precisava provar ao mundo que podia!

 

E foi assim, devagarzinho, apresentação após apresentação, que fui descobrindo a beleza da sua arte.

 

Enquanto ainda me desfazia desse conceito estranho de que homem nenhum podia dançar, descobri o Tito. Gente, que delícia? Olha, se eu tinha ainda algum argumento que detonasse a possibilidade de um homem dançar, todos foram pro ralo diante do Tito. E sabe o que mais gosto nele? Aquela sua expressão maravilhosa! Pronto, gamei!

 

Daí em diante aprendi a aprender que sempre é preciso olhar de novo. Que quando se olha várias vezes, você pode descobri beleza onde antes só via a estampa de seus precoces conceitos. E num desses sábados da vida, vi a perfeição daquele segundo bailarino, com toda sua técnica, arte e, sobretudo, seu amor – que é o que de mais profundo me toca quando ele dança.

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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8 respostas para Metamorfose ambulante

  1. Elaine disse:

    oi Lory, de casinha nova né flor!
    tbém já fui cercada de preconceitos nesse aspecto e hoje estou mudando meu posicionamento, abrindo a mente para a dança do ventre masculina. Ainda prefiro o bailarino folclórico mas já me permito “olhar de novo” como vc disse, e isso faz toda a diferença.

  2. samara72 disse:

    Bem vinda ao WordPress, Lory!
    Minha trajetória quanto a isso é parecida, embora não tão “pessoal”.
    Tudo na vida é uma questão de olhar uma segunda vez, tens razão.
    Beijos e saudade

  3. Natalia Salvo disse:

    Oba! Gostei daqui, voltarei mais vezes. Beijos!

  4. vivi amaral disse:

    Eu sei quem é o segundo bailarino… É quem eu estou pensando, certo? Ghazalla!
    Bem, ele, Tito… não precisam dar explicações, nem satisfações. Basta vê-los dançar. É o suficiente.

    Lindo texto. Identifiquei-me total!

    Beijo, Vivi

    • lorymoreira disse:

      Bom lhe “ver” aqui chiquita!
      Sim… o segundo bailarino é esse maravilhoso Ghazalla!
      Ando mais apaixonada pela dança dele nos últimos tempos…

  5. Martinha disse:

    Lory, quando o texto acabou fiquei procurando a continuação, rs tá tão bom de ler!
    Deixa eu falar, a primeira vez que fui ver minha prof Janah dançar foi a primeira vez q vi um homem dançando, e foi Ghazalla, nunca tinha visto e nem sabia que homem dançava, mas fiquei tão maravilhada com a sua elegancia, sua classe, técnica, tudo, eram seis mulheres e ele, dançando ao mesmo tempo, quem disse que eu consegui olhar pra elas, meus olhares foram todos pra ele, fantástico!
    De lá pra cá, nem sei quantas vezes o vi dançar, até tango já vi, sempre impecável!
    Sou fã desse moço!
    Beijo flor

  6. Flavia disse:

    Nossa, a um tempo atras nem podia imaginar homem dançando a dv. Mas hoje em dia após ver o Ghazalla em cena. Simplesmente amo ver. E sem nenhum pudor, assumo que ainda não superei meu preconceito. Mas quando se trata do Ghazalla, fico tomada por sua dança e sempre emocionada. Amo ve-lo dançar. Ele nem parece ser daqui. Parece aqueles artistas que vem de fora fazendo grandes shows, sempre com um visual impecável. Sem falar na forma física né. rs (abafa o caso!)

    Parabens pela casa nova Lorena. Adorei seu blog!

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