Diga sim ao ATS!!

Eu não gosto muito da Rachel Brice. Tá! Concordo: a mulher é uma fera na dança, mas ela simplesmente não me emociona! Aliás, de uma maneira geral, o tribal fusion não me diz absolutamente nada. Acho todas elas quase iguais, mesmo com suas singularidades evidentes.

Pra quem não faz idéia do que estou falando, o estilo tribal é uma derivação surgida, nos Estados Unidos, da nossa dança do ventre. Tem como principal característica o fato de mesclar outras modalidades de dança – como o flamenco (muito presente nos braços e giros), a dança indiana, entre outras.

rachelbrice

Rachel Brice - o ícone do Tribal Fusion

O estilo tribal tem basicamente duas derivações: o American Tribal Style, ou simplesmente ATS, e o Tribal Fusion. A diferença entre os dois, na minha compreensão até aqui, consiste de danças solos e do emprego de movimentos mais “quebrados” derivados do break e do street dance americanos, no caso do Fusion. No caso do ATS, temos como principal marca as apresentações em grupo, que dão uma idéia maior de tribo, de matriarcado e uma dança bem rica em referências folclóricas (ghawazee na veia!). É só assistir um pouquinho o Fat Chance Belly Dance que vocês percebem claramente a diferença.

Essa pra mim é, aliás, a grande maravilha do tribal – a beleza cênica dos grupos e dos figurinos sempre muito criativos e coloridos e o resgate das danças beduínas e ciganas, além da maravilha dos toques de snujs bem coordenados entre as integrantes do grupo.

Fat Chance Belly Dance

Fat Chance Belly Dance

Quando digo que não gosto da Brice e do Tribal Fusion, não estou negando a influência marcante que essa bailarina e toda sua troupe tiveram no contexto da dança mundial. Hoje, mesmo em workshops de dança do ventre com professoras consideradas mais tradicionais, você encontra movimentos derivados desse estilo. Emendas “quebradinhas” que dão um toque muito legal à performance da bailarina de dança do ventre.

Acho que uma outra coisa legal trazida pelo tribal fusion está no estímulo à criatividade, a possibilidade de irmos além dos oitos e shimmies. É uma revolução na dança.

Mas quantas de nós conhecemos os vídeos do Fat Chance Belly Dance, por exemplo? Porque quando falamos de tribal a primeira referência que nos surge é a Rachel, a Sharon Kihara, entre outras?

Talvez pelo fato de consumirmos apenas aquilo que é amplamente vendido. E, cá entre nós, não há fenômeno maior nos últimos anos do que as Belly Dance Superstars (do qual são integrantes a troupe da Rachel Brice).

Sim, somos partes de um sistema maior que massifica a idéia de que as moças americanas são AS bailarinas. Nada contra. Não cabe a mim julgar o gosto alheio. Cada uma busca as referências que estão mais próximas, em termos de consumo mesmo, e aquilo que acredita ser o mais belo. Mas, mesmo assim, gostaria de fazer um convite a vocês: quando estiverem de bobeira e com acesso à internet disponível, procurem no youtube por vídeos do Fat Chance Belly Dance. Tem um em especial que me emociona muito. É esse aqui – não está completo, mas vale conferir.

Qual o motivo desse meu convite? A possibilidade da gente ver a integração de um grupo de mulheres. Isso me emociona muito e acredito que temos muito a aprender com esse exemplo. Muitas de nós ainda dá preferência a viver sua vida de bailarina sozinha, na sua salinha de aula, com aquelas suas alunas (que podem ser muitas ou poucas). Beleza. Mas poucas de nós parecem estar dispostas a conviver verdadeiramente em grupo. Até mesmo algumas daquelas que se dizem verbalmente dispostas a isso, têm dificuldade de deixar o estrelismo ou o poder de lado em prol do crescimento de um grupo.

Eu fiquei pensando muito nisso esses dias e aí fui numa dessas festinhas de dança do ventre e, assistindo uma apresentação de tribal tive um insight: a gente dá preferências ao Tribal Fusion (Rachel Brice) talvez pela nossa dificuldade de fazer dança em grupo. No Fusion só temos solos. Uma apresentação de grupo acontece muito esporadicamente. A grande maravilha do Fusion é a capacidade técnica da bailarina. Quanto mais performática, mais flexível e mais criativa ela for, mais maravilhado a gente fica, certo? Quem não se sentiria o máximo tendo, por um dia, aquele fantástico domínio corporal da Brice?

Mas olhem as moças do FCBD: algumas delas também têm elasticidades fantásticas, outras têm um quadril indescritivelmente fascinante! Mas porque não a pinçamos do vídeo e montamos um altar para elas como fazemos para a Rachel Brice, por exemplo? Porque nem mesmo sabemos seus nomes? Tenho uma hipótese (uma simples suposição, ok??): talvez porque o que esteja em destaque no ATS é o poder de compartilhar poder na dança.

American Tribal Style ou ,simplesmente, ATS

American Tribal Style

Durante uma performance de ATS a liderança é trocada entre as participantes e você não tem destaque para uma ou outra bailarina. Nem mesmo é possível detectar quem é a professora, quem é a iniciante.

Explicando melhor: no ATS existe uma coisa chamada improviso dirigido. Segundo o que aprendi com a Shaide Halim, o improviso dirigido foi criado pela Carolena Nericcio (a idealizadora do FCBD) porque a mesma tinha dificuldades em criar coreografias. Então ela inventou isso: cada movimento de quadril acontece com um movimento específico de braços. Por exemplo, um shimmie em L tem, necessariamente, braços alongados na altura dos ombros. Durante a dança a bailarina que está na frente vai fazendo alguns movimentos e as que estão localizadas um pouco mais atrás o copiam. Só que isso é treinado de forma que o público não se perceba que as outras estão copiando. Em dado momento, aquela bailarina que lidera puxa um giro no grupo e uma segunda bailarina assume aquela posição de líder. E isso pode acontecer durante vários minutos com várias trocas. É natural aparecerem pequenos solos que se intercalam com a dinâmica grupal, mas se vocês se dedicarem a estudar só um tiquinho o FCBD, perceberão que todas as bailarinas têm oportunidades de solar no grupo, assim como de integrarem o todo grupal. É fantástico!

Carolena Nericcio

Carolena Nericcio

Agora pensem comigo: quantas profissionais estão realmente interessadas que suas alunas se destaquem tanto quanto elas?

Entendam: isso não é uma crítica a quem faz dança do ventre ou dá aulas por aí. Temos centenas de profissionais sérias e que desenvolvem seus trabalhos de forma muito ética e dedicada. Isso que eu faço é um convite à reflexão, principalmente para quem resolve adotar o estilo tribal como linha de direção. Acredito que precisamos aprender a investigar o motivo de adotarmos determinadas escolhas.

Não estou dizendo que acho que o Tribal Fusion não presta e que deve ser apagado do mundo. A minha proposta é que possamos questionar porque adotamos determinadas linhas de trabalho – afinal de contas, a Rachel Brice teve como uma de suas professoras a Carolena Nericcio, mas ela foi além, revolucionou e criou um estilo de dança que hoje é amplamente copiado pelo mundo afora. Máximo isso! Mas, afinal de contas, a quem caberá o resgate do poder grupal que o FCBD nos deixou? Precisamos realmente esperar que surja um novo fenômeno de vendas e DVDs e CDs para adotarmos uma nova linha de trabalho?

tribais

Caras bailarinas, esse é um texto que pode parecer louco e provocador, mas é porque eu acredito verdadeiramente que nós temos muito a aprender com o ATS – tanto para a dança, quanto para a vida.

Dançar em grupo é aprender a conviver coletivamente. Essa é uma necessidade minha – bem pessoal – mas, acredito que, também, do coletivo. Quantas barbáries temos visto devido à epidemia de sociopatas pelo mundo? Será que nós realmente não temos nada a fazer? Nada a contribuir? Pois eu creio que se, pelo menos na dança, a gente aprende a importância de um grupo, do revezamento do poder de liderança entre as pessoas, do respeito ao espaço do outro (que incluí sua cultura e tantos vários outros), temos muito mais a ganhar pela vida afora.

Eu enlouqueci ou isso faz sentido?

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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12 respostas para Diga sim ao ATS!!

  1. Isabela disse:

    Oi Lory!
    Penso que sua reflexão faz sentido, sim, mas em parte… Acho tb que o fato das profissionais da dança não quererem dividir o poder com outras pode ser um dos motivos de não vermos um interesse pelo ATS tão forte qt pelo Tribal Fusion. Mas, pra mim, esse seria UM dos motivos e não O motivo.
    Falo aqui por experiência própria. Desde 2007 estudo ATS e, ano passado, me dediquei intensamente em dividir esse estudo com algumas componentes do grupo Kairós, interessadas e com tempo disponível pra seguir essa pesquisa. Foi maravilho! Fizemos pelo menos quatro coreografias, várias aprentações, nos desenvolvemos pacas no toque de snujs, elaboramos figurino e até arriscamos tocar uma percussão em conjunto ao vivo. Enfim, um trabalho gostoso e frutífero!
    Mas, eis que, o ano foi chegando ao fim e a vida de algumas dessas componentes foi modificando. Uma delas, precisou se mudar pro Rio pq passou num concurso, pelo qual ela estava empenhada em passar já fazia algum tempo. Uma outra tb entrou num novo trabalho que exigiu dela uma disponibilidade de tempo integral. E uma terceira, que ainda tenta estar no grupo, raramente consegue chegar pros ensaios pq, mesmo tento horário flexível no trabalho, tem duas filhas, com suas exigências óbvias.
    Ou seja, das cinco compenentes do início de 2007, restaram duas: eu e mais uma. Não existe ATS com duas pessoas, rs!!! Aí é uma dupla, não um grupo.
    Bom, outras duas pessoas entraram no grupo e agora somos quatro. Mas, elas estão começando e estamos todas tendo que começar novamente. Não mais do ponto onde paramos. O que passou, passou. Teremos que começar uma nova história em grupo que não sei se será só pra este ano…
    Falo tudo isso, Lory, pra dizer que se didicar à arte é uma possibilidade rara nesse país. As pessoas tem necissidade de ganhar dinheiro, de investir em seu crescimento profissional. A dança, pra maioria não é profissão, é alegria, divertimento, expressão pessoal. Pra ter a beleza e sincronicidade que tem o Fat Chance Belly Dance é preciso muitas horas de ensaio, dedicação e pesquisa. Elas são uma cia de dança, como o é, por exemplo, o grupo Corpo no Brasil, só pra citar um exemplo. Essas pessoas ensaiam muitas horas por dia. E eu arriscaria dizer que, mesmo que elas ganhem por isso, o fazem provavelmente não pelo salário que recebem.
    Enfim, investir no ATS pra mim está sendo, no momento, algo distante… Me rendi ao Tribal Fusion. Não que eu não goste tb. Gosto muito!!! Mas, de fato, não foi minha primeira opção. Como amo isso que faço e é minha profissão, seguirei tb estudando TF.
    Continuarei sonhando com um grupo…
    bjs
    Bela

  2. Elaine disse:

    oi Lory, amei de paixão seu texto.
    eu penso exatamente isso, nos últimos 2 anos todo essa reflexão sobre grupo povoou meu pensamento e compartilho de suas conclusões.
    recentemente estive no show da Fátima Fontes e o que vi se aproxima muito dessa idéia do ATS que vc colocou, foi muito bacana e me acrescentou muito, mas a Fátima não é tida em alto conceito pq o foco dela é grupo e não técnica avançada e aprimorada de movimentos, coisa que acho tola, ela me deu o que busquei assistir de uma forma linda.
    a dança do ventre é solitária demais, egoísta demais, depois ninguém entende pq existem tantas disputas de ego!
    bjocas

  3. Rayzel disse:

    Olá Lory, acompanho seus posts desde o multiply… Adorei este post!Comentando resumidamente, acredito que a mulher é um ser essencialmente competitivo, é de natureza, portanto ‘dividir’ a atenção e o palco não faz a cabeça de todas….Claro, para toda regra há exceções. Mas está disposta a compartilhar atenção nos seus 15 minutos de fama? Quem quer admitir que pode aprender com uma colega de aula mais velha/nova, ou com menos habilidade que você? Com certeza não são muitas…Esse não é o único motivo, mas acredito que seja um deles.

    Um abraço de Osasco – SP
    Rayzel.

  4. Jana disse:

    “Eu enlouqueci ou isso faz sentido?”

    Não, vc não enlouqueceu, e o que fala tem lógica.

    Vc está antenada no mundo e falando como quem capta também esta necessidade de integração real entre as pessoas.

    Apesar dos inúmeros sites de relacionamentos ( orkut, facebook, etc), a integração humana ainda é um desafio, e digo mais: é um desafio ao mesmo tempo individual e solidário !

    Também concordo com sua opinião em relação ao trabalho de dança em grupo. Eu sempre senti enorme necessidade e enorme prazer em participar de um grupo de dança.

    Um beijo!

    Jana.

  5. Vera disse:

    Lory, descobri o seu blog oelo blog Yallah, e fiquei impressionada com o seu empenho para escrever bastaaante sobre os temas. Os posts são bem aprofundados einteressantes. Queria saber se posso colocar um link no meu blog. O http://pensoenquantodanco.blogspot.com

  6. Yane disse:

    É, no fundo é uma questão de escolha, ambos demandam investimento, sobretudo se o enfoque é profissional. Tanto é que os estilos não se misturam porque são propostas radicalmente (e ideologicamente) diferentes mesmo.
    Na condição de amante da dança, acho o ATS de grande valia para quem assiste e para quem dança: uma grande festa!
    Eu já fiz parte de um grupo coordenado por Bela, anterior mesmo à pesquisa do ATS, de mulheres que dançavam com o que tinham de melhor, cada qual com um brilho próprio. De algum modo fomos todas lapidadas ali. Foi um período riquíssimo para mim e sou profundamente grata a Bela e a cada mulher que conheci naquele contexto e me transformou. Uma dança com sentido, sentida, processual e no grupo. Não sei exatamente por qual caminho, mas eu me tornei um ser humano melhor. Isso é material raro de humanidade e vida, inestimável, e que não se aprende em vídeo.

  7. Ket disse:

    oi Lory^^
    Eu aprendi muito dançando em grupo nestes anos.
    Aprendi sobre mim mesma, sobre meus limites, minhas particularidades, meus momentos… E aprendi muito, mas muito mesmo sobre o outro. Uma noção fantástica de ser humano, de união, de singularidades que precisam coexistir pra que a dança…exista! É trabalhoso, às vezes doloroso, mas acho que recompensa…

    Vc está certa 😉 sem delongas.

    Beijooo grande!

  8. roberta disse:

    Hummm. Não gosto do ATS. A linguagem me entedia um pouco, justamente pela pré-determinação de posturas e desenhos combinados. Já o tribal fusion começou a me cativar, ainda que a Rachel Brice não seja meu referencial de dança fusion interessante. Há brasileiras fazendo um trabalho fino, como a mineira Nanda Najlah.
    De todo modo, faz muito sentido sua reflexão. O trabalho de Carolena Nericcio é, sem dúvida, uma grande revolução no mundo da dança. É inteligente e generoso pensar em “simplificar” a improvisação.

  9. Daiane disse:

    Oi, Lory! Achei esse post em uma pesquisa, pois estou montando um material pra a aula de amanhã que será de ATS! sei que faz tempo este post, mas não posso deixar de comentar. O ATS é uma das linhas que mais aprecio, realmente a maioria das pessoas não curte tanto quanto o estilo fusion, que também trabalho bastante, mas acho o ATS extremamente democrático e possível de ser belo. É a dança da diversidade: todas as idades e tipos físicos se acham no ATS. É um tribal maravilhoso de trabalhar pois tem uma estética fantástica e com movimentos simples, básicos feitos com qualidade a gente faz maravilhas, com todas as alunas do grupo, independente do nível. Concordo muito com teu ponto de vista. A única coisa que tenho a dizer como ponto negativo é que poderia ser mais espontâneo e expressivo, isso só se vê em pouquíssimos grupos, mesmo os mais antigos são meio quadradões, hehehe! Mas estou muito motivada com a aula de amanhã, a coreografia está pronta e super alto astral. Beijão, Lory!

  10. Donita disse:

    Se você tivesse o talento da Rachel Brice….será que pensaria dessa maneira?

    • lorymoreira disse:

      Era pra rir? Pq eu me poquei de rir aqui! Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!
      É cada uma que me aparece… risos!!!!!!!!!!!!!!!!!!
      Façamos assim: e você? Se tivesse um bocadinho de talento para argumentar? Será que conseguiria fazer um comentário mais inteligente a respeito desse post?

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