Desenvolvendo um conceito na dança do ventre: viagem ou faz sentido?

Pessoal, no meu último post falei sobre o desenvolvimento de um conceito que trabalharei na minha coreografia do Bahia Orient Fest e deixei a entender meu receio com tal desafio.

 Na dança do ventre, ao que me parece, essa não é uma preocupação das bailarinas. Todo mundo quer saber ler os instrumentos e até saber a tradução da música, mas poucas pessoas parecem trabalhar um conceito que perpasse a exibição de técnica.

 E foi pensando nisso e pesquisando na internet que achei esse texto maravilhoso da Ana Carolina Mundim. O texto é tão bom e me trouxe tão importantes reflexões que estou compartilhando com vocês. Quem sabe a gente não começa a pensar mais nisso neste mundinho de miçangas, hein?

 Um abraço!

CursosMulheres

 Dança: De quem para quem?

Fonte: http://www.wooz.org.br/dancadequem.htm

Ana Carolina da Rocha Mundim

 Uma prática comum que temos observado nos espetáculos atuais de dança contemporânea é a dificuldade de se unir técnica e conceito. É bastante freqüente a predominância de apenas um dos elementos: ou o espetáculo é extremamente técnico, proporcionando ao espectador somente a apreciação da forma, ou é radicalmente conceitual, chegando ao limiar do abandono ao aspecto técnico e veiculando-se de um modo quase performático. Do nosso ponto de vista, a beleza da dança está justamente em conseguir um diálogo no qual a técnica esteja a serviço do conceito, da mensagem, do contexto, sem que haja abandono de nenhuma das partes envolvidas.

 Nossa experiência na área de dança coloca-nos repetidas vezes em contato direto com um público leigo, interessado e atraído pela percepção corporal sensível que este segmento artístico propõe e que, portanto, seria um possível “consumidor” de produtos artísticos. No entanto, o que temos observado é que esta hipótese não se confirma. A dança, muitas vezes, estabelece uma relação com a estética que é admirável, mas que não provoca no receptor nem um sentimento além da admiração inicial, que se esvai até o fim da apresentação. Nesses casos, percebemos um desinteresse quando o espetáculo não propõe nada além da técnica, porque somente a apreciação da forma ocasiona um distanciamento após algumas cenas, em que são detectadas todas as destrezas e virtuoses que cada bailarino é capaz de executar. O mesmo ocorre quando torna-se apenas conceitual, pois a discussão proposta fica em um plano tão individual do intérprete, que não é possível (para o público) penetrar em seu espaço e, novamente, provoca-se o distanciamento. É preciso construir um conceito e se utilizar de ferramentas para representação que permitam à platéia compartilhar da situação proposta e desfrutar dessa discussão, participando sensivelmente. Em outras palavras, parecemos estar entrando na velha discussão entre forma e conteúdo. É necessária uma forma, um código estabelecido, para que o conteúdo se comunique com o receptor, da mesma maneira em que é necessária uma mensagem, um conteúdo, para que a forma faça algum sentido ao receptor.

 Se um brasileiro vai assistir a um filme e não gosta, não há problemas, pois ele voltará ao cinema para assistir outros filmes. Por outro lado, se o mesmo ocorre com um espetáculo de dança, raramente existe um retorno ao teatro. A falta de hábito em assistir espetáculos geralmente causa uma opinião tendenciosa negativa, a qual se resume em uma frase: “Dança é chato” ou “Não entendo nada”. Essas colocações são sintomáticas, pois englobam na mesma prateleira tudo o que se faz em dança, sem considerar aspectos específicos criativos, técnicos e de linguagem. Sabemos da necessidade de formar público para a dança e instigar um olhar contemporâneo nesta área, já que a maioria da população brasileira ainda encara produções artísticas neste contexto como novidade e, portanto, com ressalvas bem características de processos de inovação, transformação e desenvolvimento. Sabemos ainda que o ser humano tem a necessidade veemente de obter explicações racionais, lógicas, determinantes, para tudo que o cerca. Porém, acreditamos também que, quando um espetáculo consegue realizar uma comunicação sensível com a platéia, esses bloqueios são dissolvidos, pois a emoção e a provocação de estímulos e imagens recebida, torna-se mais presente do que qualquer outro elemento. A partir de então comentários como “Gostei” ou “Não gostei”, deixam de existir isoladamente e tomam um caráter insignificante quando passam a se preencher com exposições de sentimentos e reflexões.

 Devemos considerar que a dança (que não está inserida na cultura popular) não é um signo tido como habitual para a população brasileira e que, portanto não é um código comum de comunicação. No entanto, essa colocação nos faz refletir sobre que dança é essa que fazemos e para que público? Será que temos criado códigos tão fechados em si mesmos, que eles já não se comunicam mais com pessoas que não sejam de nossa área ou afins? É possível, mas acreditamos que a dança contemporânea tem caminhado na direção contrária, tentando se aproximar cada vez mais de um diálogo corpóreo-sensorial, que não passa necessariamente pela comunicação intelectual, mas principalmente pelo aspecto sensível e participativo. Não a dança “vale tudo”, mas a dança híbrida provida de sentidos (significados e – por que não? – sinestesia). Sabemos que não é possível que o artista garanta as impressões que o público terá ou de que modo se dará a recepção. E nem é esta a proposta, já que um dos aspectos mais mágicos da arte é quando ela deixa espaço para que o receptor capte a mensagem a partir de suas vivências, de sua formação, a partir da óptica que tem do mundo que o cerca. O que propomos com o nosso trabalho é que o artista-bailarino realize sua obra fazendo com que a estética continue (sim) tendo um papel fundamental na dança, mas que, acima de tudo, ela esteja a serviço de uma necessidade de comunicação com o outro, instigando sensações e pensamentos sobre o tema em questão.

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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7 respostas para Desenvolvendo um conceito na dança do ventre: viagem ou faz sentido?

  1. Naznin disse:

    Oi Lory!

    Meu nome é Naznin e eu já acompanho seu blog há um tempinho. Acho seus posts sempre muito interessantes e informativos.

    Gostei bastante desse texto que vc colocou, sobre um conceito para a dança do ventre. Só não sei direito como algo assim poderia ser feito na prática. Seria como uma história? E mesmo que haja essa intenção, como saber se o público entenderá a mensagem?

    bjs

    • lorymoreira disse:

      Oi Naznin, bem-vinda. Na verdade, essas perguntas que vc me fez eu também não sei responder. Acho que esse é um assunto que precisamos pensar. É fato que a dança do ventre é pouco entendida pelo público geral e, quando caimos na asneira de ficar explicando, pouco nos fazemos entender, afinal de contas, até para nós mesmas é difícil definir o que é a dança com bengala, por exemplo. Então, porque ao invés de ficar tentando explicar teoricamente não tentamos viver uma história que nós mesmas criamos? Pq persistimos na comunicação falha e ineficaz que temos provocado? São muitas perguntas e poucas respostas… quem sabe um dia não possamos ter mais liberdade de criar nossa própria história com a dança do ventre, hein? Quem nos dará essa liberdade? Somentes nós mesmas… prisioneiras de nossas gaiolas…

  2. Márcia Mignac disse:

    Oi lory! Muito bom esse último post. Fiquei pensando e ainda estou refletindo um pouco e vou parar para organizar as ideias (vou escrever também). Talvez pelo fato da dança do ventre ser um bem cultural/histórico que está imbricada com a tradição oral, fica muito delicado para gente dar contornos menos frouxos aos entendimentos e conceitos. Essa seria minha hipótese imediata após a leituira. Pois como você disse: “até para nós mesmas é difícil definir o que é a dança com bengala”. Então nos resta negociar com a nossa necessidade de definir as coisas e buscar informações que se aproximem do contexto “real” da dança e não das reproduções ocidentais, por exemplo. Mas uma coisa também me inquieta: a busca de um conceito para a dança nos espetáculos, na montagem artística mesmo, que liberte a dança da técnica pela técnica e que faça o público acessar a dança de outro jeito. Fora do efeito que ela produz em nós, do tipo: gostei da dançarina, não gosstei da roupa, me emocionei, arrepiou, etc. etc. etc. Mas como fazer isso? Sem cair na nossa tendência explicativa de usar legendas para explicar tal dancinha? Temos muitas coisas para pensar. Que tal?
    – Tema/Conceito/Concepção para montagens coreográficas e espetáculos de dança do ventre… vamos em frente… beijos

    • lorymoreira disse:

      Marcinha, que bom que vc comentou! Acho que vc pode ser uma ótima parceira pra discussão desse tema.
      Sabe, relendo o texto hoje, me dei conta daquela frase final em que a autora fala que a dança deve estar a serviço da comunicação com o outro e, pela minha pouca experiência na dança do ventre, essa ainda é um quesito em que precisamos pensar mais.
      Tem um autor bem legal, o Bourdieu, que traz um conceito de comunicação como algo que está a serviço da manutenção do poder. Quem detém o conhecimento, detém o poder e, consequentemente, mantém o ignorante no mesmo lugar.
      Fico pensando que, de alguma forma, estamos fazendo isso nos nossos espetáculos de dança do ventre que são, cada vez mais, vistos apenas por pessoas da área ou afins. Nossa comunicação com o público é cada vez mais elitista – num sentido oposto a popular.
      Imagina: se a dança contemporânea passa por tal crise, o que será de nós, brasileiras e baianas tentando traduzir um conceito oriental?
      Por conta disso, acho que precisamos investir tempo e neurônios para pensar essa questão tomando o cuidado de não fazer dancinhas com legendas, como vc mencionou. Mas meus miolos ainda não conseguiram chegar a uma conclusão a esse respeito. Apenas perguntas e mais perguntas… bom, mas relembrando Gaarder “as perguntas abrem, as respostas fecham”, então, vamos nos perguntar! Beijocas.

  3. naznin disse:

    ola lory!!!!!!!!!
    chamo-me naznin´.
    desde criança faço dança do ventre muita gente diz k sou muito boa nisto!
    mas e como se eu tivesse um dom pork nunca fui as escolas de dença do ventre e começei a fazer a dança por causa de uma novela k assisti quando tinha uns 3 ou 4 anos de idade nessa altura ja dançava bem mas agora estou muito melhor nessa dança. Agora tenho 11 anos de idade e ainda tenho muita vergonha de danççar so danço se for com um grupo de amigos
    O que faço p nao ficar com vergonha? por favor ajuda-me!!!!
    E ADOREI O BLOOOOG
    BJOS

    • lorymoreira disse:

      Florzinha, não sei se sou a pessoa mais indicada para esse auxílio. Rs! Mas, vou arriscar um palpite: quando vc realmente estiver pronta para dançar para o público, sua vergonha diminuíra ou será apenas uma coisinha que não lhe impedirá de dançar como parece acontecer hoje. Sossegue seu coração. Tudo tem seu tempo e você, bem mais do que eu, tem a vida toda pela frente.

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