Voltando ao assunto

Em um post anterior eu falava sobre a possibilidade de criarmos um conceito para a dança do ventre e pontuava a dificuldade de entendermos o que de fato é a dança oriental – que está distante demais de nós em termos culturais.

Depois do workshop da Roxy aqui em Salvador, que ajudou a desconstruir vários conceitos que tínhamos de melea-laff, fiquei pensando ainda mais sobre isso: já que tudo que sabemos a respeito da dança nos é passado por terceiros e essas informações são freqüentemente controversas, porque ao invés de ficar tentando recriar uma cultura que não conhecemos e não vivemos, não criamos nossa própria história a partir daquilo que nossa imaginação é capaz de inventar e assumimos que isso é apenas uma recriação artística ao invés de manter o discurso de que no Egito se dança assim ou assado?

Não seria mais honesto conosco e com o público adotarmos essa postura? Porque aí, ao meu ver, teríamos mais possibilidades de estabelecer uma comunicação real com o público ao invés de ficar tentando, ou pior, achando que o público está entendendo o que fazemos porque simplesmente lemos um texto antes explicando o que é aquilo que vamos apresentar.

Criando novos caminhos

Criando novos caminhos

Uma das experiências legais que tive nesse sentido foi quando eu e as meninas do Grupo Kairós apresentamos uma coreografia com peneiras de palha dançando ao som de um falahin. Naquela coreografia, não tentamos recriar uma cena egípcia porque simplesmente não fazíamos idéia de se no Egito usa-se ou não essas peneiras (imagine dançar com elas! Rs!), mas, para nós, as peneiras são a representação da lavoura brasileira e isso tinha um link direto com aquilo que acreditávamos que era a essência do falahin (e não necessariamente aquilo que era de fato).

Enfim… o mais importante não foi apenas esse conceito que criamos, mas o retorno das pessoas que se identificaram com a coreografia. Diziam que haviam se lembrado de sua terra natal, ou de uma cena que viram numa viagem, ou simplesmente reconheceram o elemento por pertencer a nossa cultura. A comunicação se estabeleceu!

Quando se trata de elementos que não nos são comuns, o desafio deve ser bem maior. Como incorporar a dança com a bengala num contexto que nos aproxime do público leigo? Talvez começar pensando o que o signo “bengala” diz para a nossa cultura e investir aí.

E quando escrevo isso aqui, prezadas, não estou com foco no público de dança que assiste dança, mas no público leigo que assiste dança do ventre, afinal, não temos feitos shows para eles pois nos mantemos distantes demais em termos de comunicação – há muita técnica a ser vista, mas o público leigo geralmente saí com a sensação de ter boiado…

O que o signo “bengala“ fala sobre a nossa cultura?

O que o signo “bengala“ fala sobre a nossa cultura?

Retomando Mundim, “é preciso construir um conceito e se utilizar de ferramentas para representação que permitam à platéia compartilhar da situação proposta e desfrutar dessa discussão, participando sensivelmente”.

Quando o público leigo saí de um evento de dança do ventre sem entender o que fizemos, temos responsabilidade sobre isso. Estamos ignorando aquilo que há de mais importante na arte – tocar o outro.

O que estou querendo pensar com todo esse blá, blá, blá é em como incorporar técnica, emoção e uma comunicação – tudo de forma equilibrada – com o público para o qual dançamos, sem necessariamente ter que ficar explicando cada número ou, como disse a Márcia Mignac, fazendo dancinhas com legendas.

Talvez seja muito mais fácil começar a pensar nisso para danças não folclóricas, já que o folclore traz uma carga cultural muito mais forte e difícil de tratar. Ou talvez, por ser mais forte, seja justamente mais possível de criar…

Não tenho absolutamente nenhuma resposta. Apenas perguntas e mais perguntas… quem se habilita a palpitar?

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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Uma resposta para Voltando ao assunto

  1. Samara disse:

    Poxa vida, dona Lorena, como a gente pode morar tão longe e pensar tão igual!!! Eu tenho dito isso repetidamente a toda gente (ops, rimou), que já que é quase impossível obter uma fonte “pura” ou “única”, a recriação é a solução, a partir da nossa impressão emocional do que cremos ser original!!!
    Obrigada por mais esse post genial! Beijos.

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