Pra quê sutileza?

A notícia mais quente das últimas semanas aqui em Salvador girou em torno da história de uma professora primária que subiu no palco durante um show de pagode e dançou ao som da música Toda Enfiada (é isso mesmo, pasmem…) com a calcinha dela devidamente colocada pelo cantor da banda conforme o título da música.

Bem, a cena foi filmada, o vídeo parou no youtube e a moça foi demitida da escola na qual trabalhava. Aqui dá para ler a reportagem na íntegra com direito a fotografia e tudo mais.

Agora me perguntem porque estou trazendo isso pra cá?

Em um sábado desses de aula eu conversava com minha professora sobre a desvalorização geral da dança do ventre em terras baianas. Toda menina que já rebolou num pagode acha que não precisa fazer aulas regulares de dança oriental porque, no final das contas, tudo é uma questão de rebolado – compreendido como uma característica praticamente genética das baianas. Bom, se dança do ventre é igual a pagode, pensem aí no que temos evitado ver por aqui. Evitado, sim, porque na realidade ninguém quer olhar para essa questão de cara com medo do que vai encontrar.

O negócio está bem escandaloso. Para vocês terem uma idéia, a música de pagode mais tocada no verão passado aqui tinha o refrão bem sutil de “rala a xana no asfalto”. A coreografia vocês imaginam então como não era… Foi-se o tempo que pagode tinha duplo sentido. Agora o sentido é único e literal.

É visível a onda crescente de desvalorização e vulgarização do sexo e do corpo feminino – um movimento social que ganha ainda mais força nas coreografias de pagode daqui de Salvador.

Em meio a tanta vulgarização da sexualidade, tenho a leve impressão, por vezes, de não haver espaço para a discreta sensualidade e feminilidade características da dança do ventre. Quando esse espaço aparece, muitas vezes, tende a ser confundido com o resto da cultura baiana do rebolado e aí dança do ventre vira dança de agarrar homem.

Eu não sei como é isso no resto do Brasil, mas aqui, vai de mal a pior. Temos profissionais sérias e extremamente competentes, pessoas que merecem e se dão ao respeito. No entanto, delimitar esse espaço e mostrar que a dança do ventre não pode ser confundida com qualquer rebolado tem tornado nossas profissionais e alunas adeptas de um movimento de resistência bem semelhante àqueles movimentos sociais que lutam por equidade e criação de políticas sociais específicas. Talvez a gente precise mesmo é começar a freqüentar fóruns de discussão sobre a questão de gênero. Quem sabe assim, a gente não passe a ter subsídios teóricos para entender toda essa loucura e, que sabe, sobreviver.

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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7 respostas para Pra quê sutileza?

  1. Nat disse:

    Oie,
    Amei, amei, amei seu texto. Como é bom ouvir alguém falando de dança do ventre sem aquela ladainha que é sensualíssima, resgata sua deusa interior, ajuda a conquistar homens, cura insônia e dor de cabeça… Parabéns. Beijoca.

  2. Samara disse:

    Amiga, difícil essa tua questão.
    Aqui no Sul a coisa é um pouco mais sutil, mas bagaceirice não falta em todo canto. (Bagaceirice é nosso termo local para o vulgar e o desrespeitoso).
    O gaúcho é um bicho metido a conservador, mas na DV não falta uma calcinha aparecendo e cara de puta tem até na dança cigana.Toda dança exclusivamente feminina parece que sempre cai nesse rame-rame.
    Mas eu já vi bastante das danças daí (graças a seu multiply) e acho que vocês tem plena condição de opor resistência, sim. Vocês são porretas.
    Aqui nossa resistência é velada, como a própria vulgaridade. Gaúcho é nas entrelinhas.

  3. Vivi Amaral disse:

    Quando eu vejo esse tipo de conduta eu lembro da luta das feministas… dos sutiãs queimados…
    Ah Lory… até que essa sociedade deixe de ter conduta e discurso machista (a começar pelas próprias mulheres, no meu entender), ainda veremos muito esse tipo de exploração do corpo feminino, infelizmente.
    Acho que a dança do ventre, tanto aí quanto em qualquer lugar desse país e independente do motivo pelo qual uma mulher procura aprender a dança, ajuda na reelaboração de alguns conceitos que uma mulher faz de si mesma. Essa reelaboração reverbera numa conduta onde ela procura se valorizar mais. Então, acho que é possível sim tentar reverter isso. Mas digo, é trabalho de formiguinha, lento, tem toda uma sociedade aí fora dizendo e mostrando o contrário. Precisa ter paciência.

    beijo.

  4. Luana Mello disse:

    Ai querida, aqui em SP a coisa é igual. Concordo que aí na Bahia deveser mais hardcore, pois a sexualidade é mesmo mais latente do que em terras paulistas, mas guardando as devidas proporções, nada muda e cada vez mais nossa dança é desvalorizada e tratada como ‘pega-macho’.

    Mas sinto que a verdadeira desvalorização começa pelas profissionais,começa lá em cima e reflete nas outras partes da sociedade. Já fui apedrejada por dizer isso, mas passa ano e entra ano, essa continua sendo a minha percepção da coisa.

    Ás vezes sinto que essa falta de sensibilidade não tem mais volta e ás vezes sinto que como todos os ciclos, um dia ela acaba.

    Beijos

  5. Rachel disse:

    Vivemos numa época em que a pornografia e objetificação dos corpos femininos é uma regra na mídia: propagandas, novelas, filmes, tudo. A luta por direitos iguais está longe de ser realidade; a mulher é incentivada sempre a ter um papel passivo ou de decoração, onde aparece apenas para agradar o olhar masculino.
    É o que acontece no caso da dança da professora: ela está lá como objeto de apreciação, exercendo um papel passivo já que o cantor da banda que exerce a função de mostrar a calcinha dela. (o homem exerce a função ATIVA). Em nenhum momento ela é vista como ser humano. É uma situação objetificante que degrada a imagem da mulher. Porém, não por ela mostrar-se ou dançar, mas pelo contexto. O contexto imprime essa interpretação. Se ela estivesse simplesmente dançando e pudesse decidir em outro contexto, um contexto ideal imaginário, mostrar sua calcinha, então ela estaria apenas exercendo a liberdade dela de fazer o que bem entende. Acho que o que nos falta é essa liberdade de fazer o que bem entendemos dentro de um contexto que não nos objetifique.
    É o que penso para a dança do ventre também: precisamos de um contexto que não nos veja como decoração de bar ou restaurante onde devemos estar de acordo com as regras ditadas pela indústria da beleza para agradar o olhar do público. Por mim eu poderia dançar nua mas no contexto em que vivemos, eu seria somente mais um objeto. É o maldito contexto.
    Escrevi muita coisa, não sei se faz sentido, mas adoro seu blog Lory, de verdade. E discutir questões de gênero é ESSENCIAL para todas as mulheres, não só bailarinas.

    Gostaria de ter seu msn, e-mail, whatever, se é que você não se incomoda de estabelecer vínculo com seus leitores. hahaha. Abraços.

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