Pacto de mediocridade na dança do ventre

Você também assina?

Na formação em dinâmica dos grupos que fiz, uma das coisas mais interessantes que estudei foram os acordos implícitos feitos pelos grupos de uma maneira geral.

Um desses acordos é o que a gente chama de “pacto de mediocridade” que seria se manter em silêncio diante das questões delicadas, fingindo que elas não existem e criando um ambiente falso de que está tudo muito bem e que todo mundo se ama.

Esse tipo de pacto é um dos grandes causadores da estagnação de um grupo e da impossibilidade de fazer seus componentes crescerem, na medida em que os assuntos mais delicados são evitados, atrasando, assim o amadurecimento do grupo como um todo e de seus componentes.

Na nossa dança do ventre existem diversos tipos de pactos de mediocridade. Poderia fazer uma listagem com exemplos de várias situações, mas hoje, especificamente, queria falar desse pacto subentendido de que não podemos fazer críticas ao outro.

Se você vai numa festa e lá é mal recebida, não acha onde sentar e ainda assiste várias apresentações de qualidade artística duvidosa, não é permitido a você – pagante – fazer nenhum tipo de crítica. Você tem que sair de lá com um risinho na cara dizendo que foi tudo lindo, mesmo tendo gastado uma pequena fortuna com o ingresso. Se você sonhar em dizer um “aí, não gostei muito”, passa a ser vista por toda a comunidade bellydance como encrenqueira e problemática. Não importa se o show foi mesmo ruim. O que importa é que você tem que dizer “amém” a tudo que aparece pra continuar sendo aceita no grupo, ou seja, você tem que assinar o tal pacto de mediocridade.

Infelizmente, ainda não temos a prática de pedir feedback dos nossos eventos e aulas e, quando o recebemos mas ele não é exatamente aquilo que a gente queria ouvir, ao invés de refletir sobre o fato e avaliá-lo, a gente prefere taxar o outro de problemático, transformando-o num bode expiatório.

Percebam: não estou dizendo que toda crítica tem que ser considerada. Tem muita gente por aí que vive de espalhar discórdia e desvalorizar o trabalho alheio. Mas, putz, se uma crítica é feita, antes de taxar a criatura que a fez de “problemática” ou coisas do gênero, que tal respirar fundo, olhar pra o próprio umbigo e perguntar: até onde isso me toca? Até onde isso é responsabilidade minha? Qual minha parte nesse latifúndio?

Nesse curso que fiz, tinha uma professora que sempre dizia “Ouviu? Doeu? Leva pra casa que é seu”. Trocando em miúdos: se o que você ouviu, mexeu com você, aproveite a oportunidade para rever sua postura. E se não for seu, deixa a mala lá que o dono carrega de volta.

Acredito que a gente perde muito quando escolhe ouvir apenas os elogios porque eles são bons apenas para o ego, mas o que faz mesmo a gente crescer são as críticas construtivas que, mesmo dolorosas, nos tiram daquele lugar confortável e nos obriga a refletir e mudar.

Não neguemos: mudar é doloroso, mas extremamente fundamental pra nosso crescimento, enquanto indivíduos isolados, mas também enquanto  grupo. E não seria diferente em se tratando de um grupo de pessoas reunidas em prol de uma causa – a valorização da dança do ventre enquanto manifestação artística.

Não aderir ao pacto de mediocridade não é sair por aí falando mal de tudo que a gente acha “ruim” no mundo bellydance. Ruim e bom são juízos de valores e, justamente por isso, extremamente subjetivos. Na minha opinião, não aderir a esse pacto é estar ciente  de quem nem tudo são flores. Que muita coisa precisa ser melhorada, que temos um longo caminho pela frente e que ainda precisamos amadurecer. E, como pessoas, precisamos de outras pessoas para crescer – mas não são apenas aquelas pessoas queridas e amigas que só nos dizem que somos lindas que nos tornam alguém melhor. São também aquelas que nos apontam nossas fragilidades e necessidades de melhoria.

Que tal começar se permitindo ouvir antes de julgar?

Recomendo a todo mundo assistir esse filmezinho abaixo porque, mesmo aquelas pessoas bem trabalhadas, com anos de análise e consideradas maduras, estremecem quando são cutucadas. E eu me incluo totalmente nisso. Sou de carne e osso e sei exatamente onde a crítica nos fere – na nossa auto-estima. Já tomei (e ainda tomo e espero continuar tomando) muitos baques que me rasgaram o coração, mas que me fizeram ser uma pessoa muito melhor.

Quem mexeu no meu queijo – Parte I

Quem mexeu no meu queijo – Parte II

Anúncios

Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado . Guardar link permanente.

3 respostas para Pacto de mediocridade na dança do ventre

  1. Emeline disse:

    Gostei muito do que escreveste e também do filmezinho que postaste! Ótimo tema para reflexão.

  2. Samara disse:

    Eu não assino não, Lory, mas estou ficando velha e impaciente para certas discussões. Então, em muitas situações eu optei pelo boicote velado e pelo silêncio.
    Tipo, o mundo bellydance aqui é um ovo. Então, se não gosto do trabalho de alguém, eu não vou ver, eu não pago por, eu não faço aula com, eu não escrevo sobre. Não faço falso elogio. Só escrevo e faço crítica de trabalhos que acho que valem a pena. Mas uma vez que eu diga, NADA me faz voltar atrás.
    Para mim é uma questão de paciência. Até porque já falei muita coisa para muita gente, você sabe. Mas superapoio quem mete a boca no trombone, como você, com classe, elegância e texto bem escrito.
    Beijocas

    • lorymoreira disse:

      Então, Samy – como você eu também só escrevo críticas sobre trabalhos que valem a pena. Aqui tb é um ovo e tb tem gente que não admiro como bailarina e, sobre essas pessoas, nunca me manifestei.
      Confesso a vc que não tenho mais é estômago para algumas discussões. Uma pequena crítica gera uma polêmica desnecessária e acaba tomando uma dimensão totalmente desproporcional ao fato inicial.
      Mas, pra uma coisa, tudo isso vem servindo – me tirar da ilusão de que aqui vivemos num mar de rosas…
      [Pensando, pensando, pensando…]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s