Relação professora-aluna

É comum a gente se deparar com alunas de dança do ventre que consideram as suas professoras as mais-mais de todas as bellydancers, o que, ao meu ver, é um comportamento natural do ponto de vista psicanalítico (explico isso já-já).

Linda. Mas de carne e osso.

O que não me parece saudável é a tendência dessas mesmas alunas a agirem como se apenas aquela professora pudesse ser o único e exclusivo caminho rumo a uma dança de qualidade. E se a gente for prestar bastante atenção, a professora de dança do ventre às vezes, deixa de ser apenas uma professora legal, para se tornar “a maior referência”, a “segunda mãe”, a “deusa” e por aí vai (eu mesma me pego fazendo isso…). Mas, o que realmente me surpreende nisso tudo não são esses grandes títulos dados pelas alunas, mas ver diversas professoras estimulando esse tipo de comportamento e aceitando sentar nesse grande trono construído por suas pupilas.

Pra tentar entender melhor esse fenômeno, proponho uma visita a um antigo conhecido: Sigmund Freud. A minha idéia não é que rotulemos esse comportamento única e exclusivamente pelo viés psicanalítico, mas que, a partir dele, possamos gerar uma pequena reflexão que nos sirva de base para umas conversas no divã, no travesseiro ou até mesmo com uma colega próxima e mais experiente.

A partir das teorias do pai da psicanálise, podemos compreender o comportamento das alunas-tietes-de-carteirinha a partir de alguns conceitos básicos. Talvez o que mais explique esse tipo de fenômeno seja o conceito que Freud denominou como “transferência”.

Segundo Freud, a transferência é o fenômeno através do qual emoções relacionadas a experiências do passado são revividas no presente como uma novidade. Um exemplo concreto diz respeito aos modelos de relação experimentados com as figuras do pai e da mãe, que são a base para a constituição de um campo no qual novas relações se estabelecem e desenvolvem a partir deste referencial. É importante explicar que a tendência de repetir padrões de relacionamentos passados é comum, inconsciente e ocorre em qualquer relacionamento importante.

Estudiosos da área da educação consideram que no âmbito de qualquer espécie de aprendizagem mediada por um professor há relação transferencial. Sendo assim, o professor passa a ser visto como fonte de conhecimento, e, portanto, como objeto de amor e/ou inveja por parte do aluno.

Tendemos mais a discutir a respeito desse segundo sentimento – a inveja. Primeiro porque ele nos parece muito comum no nosso meio e segundo, porque ele incomoda mais (afinal, quem tem problemas em ser amado?). Mas em poucos espaços vemos discussões à respeito da relação de “amor” entre alunas e professoras de dança do ventre.

A minha idéia é que a gente possa tratar um pouquinho disso aqui.

Para os entendedores da psicanálise, a relação transferencial ocorre quando o desejo de saber do aluno se liga a um elemento particular – a pessoa do professor. Dessa forma, “o conteúdo a ser ensinado deixa de ser o centro do processo pedagógico e a figura do professor e sua significação para o aluno é que passam a ser a chave para o aprendizado” (Lepre, 2003).

A professora e sua mini-cópia

Esse fenômeno transferencial no processo de aprendizagem tem duas vias. A primeira via revela, como de importância fundamental, a ocorrência do fenômeno transferencial na medida em que, sem ela, não há aprendizagem significativa. Trocando em miúdos – se a gente não deposita no professor essa confiança e importância, a gente dificilmente aprende. O problema é quando este caminho segue pela segunda via – a relação com a professora tornar-se mais importante que o próprio aprendizado técnico da dança. Nesta perspectiva, a professora adquire um poder, que tanto pode ser usado para ensinar e preparar a aluna quanto para influenciá-la com o fim de doutriná-la segundo suas próprias crenças (não parece que você já viu isso?).

Vale ressaltar que aqui cabe toda a responsabilidade e maturidade de quem resolve seguir o caminho do ensino técnico, seja em dança, seja em qualquer outra arte ou ciência. Esse “ser supremo”, “dotado da mais alta capacidade técnica” e no auge de sua “excelência didática”, nada mais é do que uma pessoa de carne e osso que, assim como suas alunas, também tem seu inconsciente implicado nessa relação e, portanto, também pode transferir em resposta aceitando este lugar que lhe foi oferecido. É o que, em psicanálise, a gente chama de contratransferência.

Quando o professor tem uma orientação, supervisão ou passou pro um bom processo terapêutico, é provável que este saiba lidar mais facilmente com os “desejos” de seus alunos sem tentar doutriná-los e torná-los veículos de suas crenças, entendendo esse lugar que lhe foi oferecido como de importância fundamental para o futuro desenvolvimento deles.

O problema é que muita gente no nosso meio sequer tem idéia de que isso ocorre e aí as alunas ficam à mercê do ego de suas professoras. Mesmo sem grandes conhecimentos de causa, muita gente consegue lidar bem com a situação. Mas, ao mesmo tempo que uma parcela significativa se saí bem, há a turma que embarca nessa onda. E o exemplo está por aí, espalhado nos quatro cantos do planeta – alunas seguidoras que crêem piamente que tudo que sua professora diz que é bom, de fato é maravilhoso e tudo que sua professora rejeita, merece ser execrado. Tudo que elas desejam é o reconhecimento de sua “mestre suprema” de que sua dança está linda e que ela é uma das melhores alunas do mundo. Nessa relação, ninguém ganha porque ninguém cresce.

Quanto a nós, jovens mulheres, estudiosas da arte da dança do ventre, nos cabe um pouco de cautela e muita, mas muita atenção com nossos sentimentos e expectativas em relação a nossas humanas professoras.

É impossível ter controle sobre sentimentos (pelo menos pra mim, geminiana com ascendente e lua em Áries), mas podemos ficar atentas à forma como temos nos comportado diante da professora e ao lugar que temos reservado para ela nas nossas vidas – ela é importante pro nosso aprendizado, mas será mesmo que merece o papel de “uma das pessoas mais importantes da minha vida”? Não que ela desmereça as honras, mas será que às vezes a gente não exagera?

Estabelecer um vínculo com nossos professores é essencial para nossa aprendizagem.

Vale sempre lembrar que a nossa querida professora é humana e, assim como consegue dar uma aula espetacular e nos animar, também é cheia de chatices e pequenezas tão evidentemente naturais de qualquer ser humano e que, por isso, mesmo que a gente queira fingir que não, não cabe no vestido de deusa que a gente queria tanto que ela usasse.

Isso vale pra mim, pra você e pra qualquer pessoa que esteja em processo de aprendizado. Seja do lado de aluna, seja do lado de professora. A gente ganha mais quando vai pra aula, aprende, se diverte, gosta e confia na “profi” e da turma, mas tem nossas próprias opiniões – preservadas, respeitadas e singularmente nossas. Quando a gente consegue pôr na balança as recomendações da pró (“será mesmo que vale a pena?” ou “é isso mesmo que eu quero?”), decidir por nós mesmas e seguir com nossas vidas – do nosso jeito, com a nossa cara.

Mas, se nada disso adiantar e você perceber que não consegue mais viver sem aquela pessoa e que a relação com ela se tornou mais importante que tudo nesse mundo, uma chegadinha no divã pode fazer um bem danado, visse?

Fonte:

LEPRE, R. M., (2003). Relações de afeto entre professor e aluno no ensino superior. Psicopedagogia online (www.psicopedagogia.com.br).

SILVA, Roza Maria Santos. A Transferência e o desejo na sala de aula. http://www.cedu.ufal.br/Revista/Revista09/rosa.html

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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13 respostas para Relação professora-aluna

  1. Rubi disse:

    Parabéns pelo texto Lory, verbalizou coisas que eu vinha pensando há tempos. Leio seu blog há um tempinho, mas se não me engano nunca comentei. Enfim, este pensamento de que uma professora é a suprema, a única só tende a limitar o aprendizado! E viva a humanidade de nossas professoras!
    Beijo

    • lorymoreira disse:

      Oi Rubi! Que bom que comentou! É sempre gratificante saber que tem gente que leio o que escrevo. Rs! Beijos, flor. Obrigada pela participação.

  2. Rhazi disse:

    Oi Lory, tudo bem? Puxa vida, que maravilha este post! Em meio a tanta lantejolite e dicas de make por aí, estava sentindo falta de um papo cabeça, só pra variar…. estou justamente lendo muito sobre isso, pois na verdade, sempre achei que toda professora deveria ter noção de tudo isso, pois, muitas vezes, a profi também se sente refém destas relações não-saudáveis. Eu mesma, já perdi aluna pois não aceitei o papel de “mãe” que a aluna queria me dar, isso era claro para mim. Continuei sendo a prof chata, que corrige e que não dá o número do celular e a aula realmente acaba quando termina. Aí claro que a aluna achou uma mãezona de dança que deu o colo que ela queria/precisava. Eu não fiquei mal não! Fiquei tranquila comigo, por ser honesta com as situações que aparecem bem à nossa frente. Temos que saber os significados de amizade – vínculo – aliança e afinidade, coisas totalmente diferentes, que, no caso das aulas de dança, podem se misturar muito e, infelizmente, trazer problemas lá na frente.
    É muito complicado isso, pois vemos muita professora querendo ser a mãe, a que manda, a que tem poder e muita aluna vindo fazer aula de dança pq quer colo. E claro, muitas vezes também, as relações se invertem com professoras altamente carentes e alunas achando o máximo a intimidade com a prof.
    Infelizmente, acho que tudo isso tende a piorar, pois as relações de fato “reais” , olho no olho, estão se perdendo, sinto muitas pessoas perdidas, querendo um olhar, um abraço, uma atenção. Poxa Lory, eu sou canceriana com ascendente em câncer, então já viu né? Já sofri muito com tudo isso, continuo aprendendo e cada vez mais convencida que o amor aliado ao conhecimento e pé no chão pode ser um ótimo caminho… mas, tudo isso é conversa “pra mais de metro…” Beijos, parabéns pelo post…

    • lorymoreira disse:

      Entrar nessa relação de transferência e ser a “mãezinha da dança”, ao contrário do que parece, não é ruim, não, Rhazi. Pelo menos é isso que dizem os grandes estudiosos da psicanálise. A questão é se perder nesse papel – é ao invés de ser a mão que conduz rumo ao aprendizado, ser a mão que sustenta e indica o caminho, sem saber a hora de deixar a cria voar por conta própria. Percebo que o nível de carência do ser humano é estrondoso. E esse vazio ou essa falta são motivos para nos conduzir aos mais bizarros tipos de relação. É aquela aluna que continua com a professora que a grita, é aquela professora que não dá limite àquela aluna que a paparica demais… É uma complexidade de relações e formas de estar no mundo que não se esgontam com a discussão do conceito de transferência, ou mesmo do que foi possível ser visto no viés da psicanálise. Muita água por baixo dessa ponte… mas vamos que vamos! Quem sabe desse post não surgem outras propostas? Obrigada por comentar!

  3. samara72 disse:

    Menina, você é muito foda. Muito perfeita essa colocação.
    Confesso que demorei algum tempo para trabalhar a relação professor/aluna como adulta. Mas tem valido a pena.
    Isso ainda pode me gerar situações complicadas, porque sou um bicho crítico e exigente: eu procuro sempre a professora que considero a melhor disponível. Se acho alguém em outra coisa que penso ser melhor do que a atual, vou lá. O bravo é que ultimamente tenho dado de ser amiga e companheira de copo dos/das profes e fico me pelando de medo do dia do “rompimento” ser traumático.
    Porque depois que eu comecei a fazer terapia comecei a entender e trabalhar legal minhas transferências, mas confesso que não imagino como a coisa se passa na cabeça deles. Além do que, aluno a menos é dinheiro a menos, né? Complexo.
    Mas as opiniões, você sabe, vaca de presépio nunca foi minha vocação, como boa geminiana…

  4. maíra magno disse:

    maravilhoso post lory, vc chegou a maturidade blogueira, meus parabens

  5. Elaine disse:

    Oi Lory, muito interessante e esclarecedor o seu texto, de fato vivenciamos situações como as relatadas e sequer percebemos o que acontece.
    Eu mudei muito o meu pensamento como aluna quando me tornei professora, acho que nada melhor do que mudar os papéis para abrir a mente.
    A relação aluna-professora não é simples, independente do papel que você está desempenhando nela, exige muito cuidado e atenção para as “armadilhas”.

  6. Shaide Halim disse:

    é real.. açgumas alunas são casos para estudo detalhado de psicologia.

    E ai de quem for contra a opinião de que sua MESTRA é a toda-poderosa, detentora de toda a sabedoria e qualidade na dança do ventre!!!!

    O que me deixa encucada é: pq isso SÓ acontece na dança do ventre? Pq eu nunca vi isso rolar em nenhuma outra dança, não. Será que Freud explica, Lory???

    • lorymoreira disse:

      Shai, será mesmo que isso só rola na sala de dança do ventre?
      Eu não sei… não tenho tanta experiência assim para compartilhar.
      Taí um bom caso para investigação!

  7. Vivi disse:

    Interesante o que vc coloca, flor… Relação aluno-pofessor é uma coisinha delicada mesmo.

    Existe uma frase em filosofia que diz que mestre é aquele que faz o discipulo amar o que aprende. Entretanto, para se chegar à essa instância, seria necessário antes, amar o mestre.

    Me simpatizo com essa afirmação. Sou uma professora envolvida com cada aluno meu, seja como pedagoga, dentro da escola, com as crianças, seja numa sala de dança. E vejo que cativar o aluno abre o caminho para que ele posa aprender. Não é o determinante,claro (a aprendizagem é um processo multifatorial), mas é fundamental.

    É só lembrar… Na escola, as aulas que mais gostamos eram dadas pelos professores que mais admirávamos, não é?

    Quanto à segunda via, quando essa admiração cega o aluno, bem.. Se não se tratar de uma pessoa comprometida piscologicamente, normalmente essa fase tende a passar com o tempo. Até ela passar vai ser um saco pra quem convive com o ‘fanático’. Mas a medida em que o aluno vive outras (e novas) experiências, tem contato com outras fontes de estudo, o fanatismo esmorece.

    Ah…. Isso não acontece só na DV não. Isso acontece em qualquer instância, qualquer processo ensino-aprendizagem onde existir uma figura de professor admirada e um aluno que deseje aprender.

    Besitos, flor. Sodade.

    Vivi

  8. Márcia Mignac disse:

    Oi lory! Que maravilha! Olha muita coisa para falar… mas por enquanto pego essa deixa da Shaide. A minha hipótese para que a IDOLATRIA e a adoção de que a MESTRA particular é a super poderosa encontre mais possibiilidade de permanência na dança do ventre, é justamente por essa dança ser construída por processos pessoais de criação. Que é um grande equívoco na forma de encarar esse processo de personificação da dança. Olha só… como a dança do ventre não surge com o próposito de escolarização e todo processo de aprendizado se dá por cópias, reivenções, re-atualizações dos movimentos quase que autorais das dançarinas “antigas”, o que aprendemos, aprendemos assim: o Shimie da “Fifi”, por exemplo, o “quebradinho” da Souher, tornou-se difícil uma sistematização dos movimentos fora dessa etiquetagem pessoal. Nós nem tínhamos e nem temos uma nomeclatura Universal. O que é muito comum nas danças populares , como no frevo. O que acho maravilhoso, porque permite uma gama de improvisações sem a rigidez de uma padronização, a técnica pela técnica. Só que o que aconteceu foi… uma inversão. A autoria, a personificação, ao invés de dar continuidade a natureza singular da dança do ventre tornou-se uma nomeação do tipo camisa de força. E o que vemos hoje é: a dança de… o passo de… a escola de… que num contexto de mercado e não de arte, vira referência nominal e não obra artística. A dança vem abaixo do nome. A dançarina vem primeiro que a obra. E com isso abre-se para todas as nossas tendências de posse, minha dança, minha mestra… assim como olhar hierárquico, “a melhor’, a “poderosa”. Um desvio, né? Será que essa hipótese que apresentei tem algum fundamento? Aqui me veio uma comparação das arábias… kkkk… eu adoro Marisa Monte, principalmente pela forma como ela se conduz na mídia. Num espaço que poderia dizer – num entre. Está na mídia, no mercado, com seu público fiel sem aderir a IDOLATRIA CONSUMISTA. Ao nos referirmos a Marisa Monte e suas composições, o que vem primeiro? A obra é claro. Se pesarmos na obra em si, na dança, na contribuição de cada um… a personificação não tem muita brecha. Acho que tudo depende da forma como cada um quer construir sua caminhada: pela obra artística ou pela pessoalidade. O que acham?

  9. Quebrou tudo, Lory. Procuro afastar prontamente qualquer indício de endeusamento e, na minha escola, tenho batalhado pelo desapego por parte das profes. Cara, já vi algumas coisas de arrepiar os cabelos. O bom é que agora as estudantes tem bastante mais acesso à informação – como seu blog -, comparadamente à época em que comecei a dançar. Tive um endeusamento pela minha segunda professora que me custou bastante tempo extra de estudo para buscar estilo próprio. Ou seja, além de ser chato, ficar colada da profe preferida custa sua identidade como bailarina.

  10. Larissa Navarro disse:

    Oi, Lory,
    Parabéns pelo texto profundo e de excelente reflexão! Muito bom mesmo!
    Eu penso que quando realmente colocamos alguém na posição de professor, fica mesmo impossível (para mim, pelo menos! rs) não nos pegar de vez em quando com esses sentimentos de idealização.
    Entendo que faz parte do processo de aprendizado e ter consciência disso já é um grande passo para evitar os desequilíbrios…
    E quando gostamos, admiramos e somos alunos-corujas dos nossos professores, sem excessos e maluquices, é bom demais! 🙂

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