Eu, as aulas de ballet e as pobres das crianças

O ballet tem sido um bom exercício e é bem menos difícil do que eu pensava. Percebo que hoje tenho condições de gostar dele porque, sendo adulta, é muito mais fácil lidar com a rigidez exigida por esta modalidade – coisa que simplesmente me parece um tormento para as crianças.

Minhas pernas de alicate não ficam na primeira posição corretamente por um motivo físico. Mas hoje isso não me envergonha e sou plenamente capaz de dizer “não posso fazer isso dessa forma porque tenho um impedimento físico”, sendo assim, a minha primeira posição é extremamente singular, coisa que simplesmente não tinha a menor condição de compreender e dizer aos 5 anos de idade – quando não conhecia minhas limitações corporais e queria ser igual a todas as meninas.

Dia desses, eu esperava minha aula de ballet começar na sala de espera da escola. A minha professora estava dando aula de ballet para uma turminha de crianças de uns 5 ou 6 anos. As mães das meninas estavam na sala de espera aguardando suas filhotas. Quando a aula acabou, uma menininha desceu e disse à mãe que queria muito fazer xixi. Chegava a está se segurando com a mãozinha pro xixi não descer. A mãe perguntou porque ela não pediu pra professora pra sair e fazer xixi. Ela contou à mãe que pediu, mas que a pró não havia deixado. A conversa acabou ali e a mãe levou a fofinha pro banheiro.

No mesmo dia, quando subi, minha professora disse que não estava muito bem porque estava com infecção urinária. Imediatamente me lembrei do que tinha visto na sala de espera e perguntei se ela prendia o xixi. Ela disse que sim e eu pensei “sei… prender xixi fez você ter infecção urinária e agora você está fazendo o mesmo com as alunas-mirins”.

Sendo adulta, esse tipo de repressão não tem espaço na sala. Pelo menos não dou permissão para isso. Se meu celular toca e eu sei que é importante, paro e vou atender. Se tenho muita vontade de beber água, saio e vou satisfazer minha necessidade. E, da mesma maneira, a minha professora age quando está na sala dando aula para a minha turma – atende seu celular quando precisa, desce para ir ao banheiro ou beber água. Lógico, tudo com muito respeito.

O que me intriga é como uma mesma pessoa pode ser uma professora tão diferente com adultos e crianças. Fico pensando que talvez seja algum tipo de exigência da própria escola. Mas o que me alerta mesmo é verificar que as mães conhecem essa conduta e ainda assim não conversam com as professoras ou filhas e aceitam que suas meninas passem 50 minutos de aula apertando a bexiga ou fazendo um movimento que lhe dói alguma partezinha do corpo.

Eu não sou mãe, mas esses dias, observando a aula antes da minha, me peguei me perguntando se teria coragem de deixar uma filha minha passar por isso, ainda mais sendo tão pequena.

Vocês podem dizer que isso se chama disciplina ou derem o nome que vocês quiserem, mas tenho chegado a conclusão que uma dança tão rigorosa, tão pouco criativa e tão cheia de padrões corporais realmente não deve ser direcionada para crianças.

E só agora sou capaz de entender porque não consegui permanecer no ballet quando minha mãe me matriculou nos meus 5 ou 6 anos de idade – porque desde aquela época, sou uma  rebelde por natureza.

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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15 respostas para Eu, as aulas de ballet e as pobres das crianças

  1. Shaide Halim disse:

    Bom, mas aos 5, 6 anos de idade, as aulas de ballet são absolutamente lúdicas. Não há nenhuma exigência de disciplina, ao contrário. Tudo é ensinado por meio de brincadeiras. Uma criança só começa o aprendizado mais formal do ballet clássico aos 8 anos, quando então entra no primeiro ano. Se a escola que vc está ensina diferente, então ela está exigindo das alunas mirins uma condição realmente impossível.

    Acho que mesmo na hora de impor limites e de tentar incutir uma certa disciplina em crianças, vc tem que dosar isso de acordo com a faixa etária. Uma criança de 8, 9 anos já tem condições de compreender os movimentos e mesmo de entender o porquê se exige um comportamento específico dentro de sala de aula. Antes disso, não dá mesmo.

    A criança entra na sala com o intuito de brincar, interagir com as coleguinhas… ela está ali muito mais pela fantasia de ser uma bailarina, vestir a roupa cor de rosa e caminhar na pontinha dos pés do que pela dança, que ela, obviamente, nem compreende bem o que é. E é por meio de jogos e atividades muito simples e divertidas que a professora vai conseguir despertar a coordenação motora das alunas, sua atenção, sua percepção do espaço, a descoberta do seu corpo e dos movimentos que ele é capaz de reproduzir, e aí sim fazer com o interesse pela dança em si seja despertado.

    Uma professora de ballet que é mais rígida com crianças de 5 anos do que com adultos precisa MUITO rever seus conceitos. Isso não é regra do ballet, Lory, tenha certeza disso. Em praticamente 30 anos de ballet (comecei com 4 anos de idade, hoje estou com 34) posso te garantir que essa conduta não faz parte do ballet… talvez seja exigência dessa escola especificamente. E é uma postura absolutamente defasada. Hoje em dia nem existem mais professores de ballet “cruéis” como antigamente. Essa conduta já caiu há muuuuuuuuuitos anos e é insistentemente desestimulada, afinal de contas, é por conta de comportamentos como este que muitas pessoas se afastam da dança.

  2. Vivi disse:

    É por essas e outras razões que sou contra qualquer dança sistematizada para crianças: ballet, jazz, muito menos dança do ventre.
    Com 5, 6 anos é momento de se experimentar livremente o mundo, sem alguém te dizendo de que forma seus braços ou pernas devem ser colocados.
    Se tem uma dança que a criança pode fazer, esta dança é a criativa, onde não se impõe nada ao pequeno, mas aproveita-se todo seu potencial criativo e imaginário, ajudando-o a descobrir seu corpo e a relação deste com o resto do mundo.
    Ah, Lory… Vê direito essa professora aí, flor.

    • lorymoreira disse:

      Então, Vi… fiquei pensando nisso mesmo de se era uma boa professora ou não e tals. Mas percebo que em termos técnicos ela tem me sido muito útil. A relação também é bem tranquila e encorajadora. Considero-na, nesse pouco tempo que estou por lá, como uma boa professora de ballet para adultos. A minha questão com ela reside nas aulas para crianças. Percebe? E isso não inviabiliza de maneira alguma as minhas aulinhas regulares de ballet.

  3. Rachel disse:

    Lory, sei lá, acho que tudo depende da escola e dos pais. Conheço algumas escolas que funcionam de forma mais rígida e exigem uma determinada postura das alunas desde cedo porque o nível técnico que se espera delas no futuro é muito alto.

    Logo se você tem uma turma de 20 alunas e todas resolverem que vão ao banheiro no meio da aula não vai funcionar. Eu acho que essa professora achou um método (duvidoso) de dizer as meninas que se elas não chegarem cedo e irem ao banheiro antes da aula vai acabar atrapalhando o andamento da turma. Eu já vi turmas de meninas de 7-8 anos que quando uma saia pra ir ao banheiro, todas as outras iam juntas, e se olhavam no espelho e se penteavam e faziam bagunça… Virava uma loucura. O resultado foi falar com as mães e estabelecer um intervalo no meio da aula. Mas isso de não poder ir ao banheiro me pareceu extremo.
    Mas, resumindo, achei maluquice da sua professora.
    Atitudes autoritárias são super desencorajadas em qualquer profissional da área de educação.

    …Mas cabe aos pais decidir com base na vontade das pequeninas qual escola oferece a melhor aula de dança para o que eles procuram.
    Acho que não existe necessidade de transformar a sala de aula num quartel se você só quer que a sua filha aprenda passos básicos, se divirta e aprenda coisas legais como direita e esquerda, coordenação motora. Nessa situação que você contou pra mim o mais gritante é a permissão dos pais. Não faço idéia de como seja onde você mora, mas provavelmente devem existir outras escolas de dança mais apropriadas pro objetivo de divertir-se e aprender ao mesmo tempo.

  4. Juli Moreira disse:

    Não é bem por aí. O ballet é rigido? Sim. Bastante. Mas fui uma criança super feliz.
    A professora errou em não deixar a menina ir ao banheiro. Sem dúvida. Minha professoras sempre deixavam porque nós iamos antes da aula e era raro parar para ir ao banheiro.
    Em primeiro lugar, vem a disciplina. Eu aprendi a ir ao banheiro antes das aulas de ballet para não sentir vontade de ir no banheiro durante as aulas. Eu aprendi a manter a postura, da primeira a quinta posição durante 50 minutos sem reclamar, mesmo porque, não havia porque, meu corpinho de riança de 10 anos estava acostumado.
    Depois da disciplina e da postura, vem a parte divertida, que é a emoção da dança. É aprender a fazer a leitura da música com aqueles movimentos e até a adaptar alguns (mesmo que muito pouco) para o nosso corpo é capaz.
    Lembro de ter 12 anos e me achar lida dançando ballet e ouvi vc dizer que eu parecia uma “pata choca”. RS!!!! A questão é gostar e se sentir bem.

  5. Daiane disse:

    Nossa, Lory! Muito legal você ter escrito isso, acho que serve de alerta pra quem idealiza sua filha como uma pequena bailarina. Provavelmente sua professora não faz por mal, mas perdeu a noção dos sinais importantes que nosso corpo dá, pois nada que sentimos é por acaso e nenhuma forma de “disciplina” deveria alimentar o sofrimento que desencadeia uma doença. Isso vale até para outros casos: morrer de fome de propósito para não engordar pode originar uma úlcera, prender o intestino sempre causa problemas seríssimos a longo prazo, pois as toxinas acabam fugindo do lugar certo e as criaturas morrem de dor de cabeça e enxaqueca sem saber por quê. Isso quando não desencadeia coisa bem pior. Quando é que as pessoas vão entender que o corpo tem alarmes importantes, que, se não respeitados, comprometem a saúde e o funcionamento de tudo? Eu não consigo fazer shimi de bexiga cheia!
    Acho que o assunto saúde tem que vir em primeiro plano, inclusive antes da educação, pois são por coisas que nos dizem como “não faça isso que é feio” ou “não pode agora”, que hoje em dia sofremos, somatizando os receios que eles causam, influenciando além da saúde, nossa sexualidade e auto estima.

  6. Samara disse:

    Bom, cada dia que passa vejo que meu medo de ballet não é de todo infundado. Ok, talvez eu ainda não tenha notado que já tenha 38 e agora posso sair da sala. Mas medo é uma coisa irracional, não?

    E continua levando sua odalisca e subvertendo tudo, sim.

  7. Importantíssimo esse relato. Não há justificativa para a atitude da professora. O balé tem muita semelhança com a estrutura militar, de um modo geral. Mas, putz, tá passando da hora de reverem isso, não?

  8. Pingback: Ballet: ame-o ou deixe-o? « (An)danças de Lory

  9. sophie disse:

    Desculpe mas, minha mãe levava a fofinhaa aqui pra fazer pipi antes das aulas xD
    Aulas até os 7 anos são completamente lúdicas e legais…as professoras cobram mais das crianças porquê muitas delas querem entrar em escolas clássicas reconhecidas e virar bailarinas profissionais. Ballet é rígido mesmo, sua professora não é boazinha, ela quer que você seja boa (y)

  10. annita disse:

    olha eu faço ballet des de os 3 anos e nada disso acontecia comigo nao havia nenhuma rigidez e era o meu momento de soltar mimha criatividade e me espressar!!! recomendo a todos o ballet des de a infancia mas com boas professoras!!! nao julge algo q vc mal conhace lory…..

    • lorymoreira disse:

      Oi querida. Que bom que a sua experiência é de prazer. Bem diferente da que tive. Cada uma só pode falar da experiência que viveu, né? Um abraço.

  11. luana disse:

    euuuuuuuuuuu
    amei os videos

  12. Zenaide Sato disse:

    Pois é realmente cada pessoa tem sua experiencia, minha filha tem onze anos desde os sete faz bale, em uma escola de bailado municipal de um cidade de São Paulo, sempre com toda essa rigidez, hoje ela está no quarto ano e com uma lesão na virilha que tá me tirando o sono, pois é medico e fisioterapia a mais de 10 dias… fico me perguntando se é necessário uma criança passar por isso.. O duro de tudo e ouvir dela que é o sonho dela é se tornar uma bailarina então ela vai aguentar, ouvir da professora que deu aula que é norma ter lesões, mas será que normal, a criança gritar e falar que esta doendo que ela não consegui ,que esta no limite… esta competente ignorante falar aguenta sim você é muito rasgada!!
    Abraço!!

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