“Malacabada”

Eu sei que tem um monte de gente que vai querer me matar. Ou, no mínimo, discordar rigidamente de mim, mas minha opinião vai pro ar assim mesmo: acho a dança da Randa um ó!

Pronto, falei! Não me matem antes de lerem tudo, ok?

Ela é o que aqui na Bahia a gente chamaria de “malacaba” ou em português normal, mal acabada, que quer dizer sem acabamento, sem refinamento.

Tá! Vocês podem até vir com esse papo de que acabamento é coisa de Ocidental. Beleza. Também acho. Mas é justamente aí que reside a minha questão com a Randa: ela inclui no seu repertório muitas tentativas de assimilar o ballet, por exemplo. Mas falta o bendito acabamento na criatura. É aquele pezão tosco, aquele giro ensandecido, um peso de quem não anda pelo palco – caí que nem jaca. Aff!

– “Ah! Mas ela é egípcia, não precisa de acabamento mesmo”.

Então pra que diabo inclui tantas referências da dança ocidental em seu repertório? Porque, na boa, fica feioso ver um arabesque com o pezão lá, fora da meia-ponta (tudo bem, não é sempre… às vezes ela até deixa o pé bonitinho… mas é questão é muito maior que apenas um pézinho).

Randa e sua dança "malacabada"

E antes que alguém pergunte ou ironize: não, eu não sou nenhuma referência neste quesito e justamente por isso que estudar a Randa, pra mim, seria um convite ao desastre.

– “Qual é, Lory, você adora Fifi. Ela também não tem acabamento!”

Aí que está, meu bem. Tem sim. Dentro de sua proposta não há grandes elementos ocidentais. Fifi sabe e faz muito bem uma dúzia, talvez, de movimentos. E é com base neles que ela elabora toda sua dança, sem necessidade de ficar buscando piruetas para ser rainha. Podem dizer que ela é monótona e ultrapassada (embora eu discorde), mas mal acabada ela não é.

Fifi: total domínio técnico em seu repertório "pequeno".

Se a gente for avaliar bem, as bailarinas que mais sabem aproveitar o ballet e o jazz na dança do ventre são as próprias ocidentais, com destaque para as brasileirinhas e as russas. Parecem que os motivos são óbvios, não?

Mas a Randa é só uma tentativa de fazer isso – uma tentativa fracassada, na minha humilde opinião.

Isso sim é refinamento!

Michelli Nahid: refinamento e talento

Quem tem refinamento técnico pode se acabar de estudar a Randa – simplesmente porque assiste e consegue pôr elegância onde ela não põe. Mas gente como eu, que ainda não chegou nesse patamar de perfeição, tem que olhar a Randa e seu quadril poderosíssimo, mas esquecer as suas tentativas de giros e arabesques. Gente como eu, estuda a Souher Zaki e a Soraia Zaied, a Nour, a Fifi e a Raqia. E gente como eu também tem suas contradições: apesar de achar a dança da Randa armengada, adora a espontaneidade da tosquinha da Dina.

Anúncios

Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , . Guardar link permanente.

14 respostas para “Malacabada”

  1. Shaide Halim disse:

    clap clap clap clap clap clap… concordo em gênero, número e grau contigo. Randa é uó! Se não sabe ballet, nem tente inserir movimentos deste em sua dança. Se quer muito, então, please, vá estudar, criatura!

    Acho um despropósito, não só a Randa, mas Dina também, e outras do gênero, que, na tentativa de ocidentalizar suas danças, fazem movimentos sem ter a menor noção de como realiza-los. E o pior disso é que sai um bando de gente tapada imitando e fazendo com que arabesques mal feitos e giros capengas se insiram na dança do ventre.

    E depois o povo ainda reclama que gente que pratica outras danças não valoriza a dança do ventre. Pq será, hein????

  2. Vivi disse:

    Hehehe… Eu também não entendia muito esse auê que aconteceu quando a Randa apareceu e nem depois, quando virou modinha estudar a bonita. Não acho a dança dela ruim, mas ela não me prende, vejo 2 danças e tá bom, já sei o que vem depois. Acho que ela tem o seu mérito, mas para mim, Viviane, não acrescenta muito não.

    O saco maior é ver milhares de aspirantes à “Randinha”. Oxe.

  3. Laura disse:

    Já vi uns vídeos da Randa por ler sobre ela em outros blogs, mas admito que também não gostei muito. Achei que ela tem uns movimentos de quadris bonitos, mas só… Admiro muito mais a Orit, a Souheir Zakir e a Fifi Abdou, que além de tudo ainda era muito linda… Mas a Dina também nunca me empolgou…
    P.S: Só achei vc muito cheia de dedos pra colocar sua opinião sobre a dançarina. As meninas apaixonadas por dança do ventre e que admiram a Randa são tão passionais assim?… rs… Bjus

  4. Lucy disse:

    Post corajoso, Lory!

    Eu tomei coragem pra me definir também: amo Fifi, amo Nour e Souhair Zaki, são referências para os meus estudos. A Michelli Nahid me fez derreter todinha quando a vi dançando em SP, ano passado. Mas a Randa…não consigo gostar. Acho forçado, e não me encanta, me cansa. Não me emociona, e quando não me emociona, não adianta insistir. Tenho aquele DVD “Randa em Paris”, e nunca consegui assisti-lo inteiro.

    Pronto, falei! [2]

    Agora, por outro lado, a Daiane Ribeiro (aqui do RS) estuda horrores a Randa, e nela eu acho tudo lindo. Ela estuda a diva e coloca a cara dela nos movimentos, e dá muuuuito certo. Penso que é por aí: buscar o que tem de bom, e transformar para o nosso estilo!

    Beijos, Lory Linda!

    • lorymoreira disse:

      Ah Lucy, a Daiane pode estudar quem ela quiser porque ela consegue dar acabamento onde não existe originalmente.
      É isso que eu falo no post – pra quem tem essa condição, deve ser bom mesmo, mas pra mim, não dá.

  5. Natasha disse:

    Olá!

    Concordo plenamente com você.
    Eu não sou muito chegada na dança da Randa, gosto de algumas coisas que ela faz, ela se expressa bem, mas como você disse, falta acabamento.
    No post do meu blog eu falo sobre expressão na dança e coloquei dois vídeos de bailarina que eu admiro e que eu acho que tem uma técnica impecável, que consegue fazer uma dança tradicional com elementos do Ballet.

    Beijos!!!

  6. Samara disse:

    A força e consciência dos movimentos árabes da Randa me impressiona. Mas o resto eu prefiro ver na Daiane mesmo.

  7. Márcia Mignac disse:

    Lory não vou discordar de você, até porque concordo em parte com o sentido de “malacabada” usado. Também porque você tem todo o direito de achar o que quiser da dança de quem quer que seja. Mas devo confessar que sou apaixonada por Randa. E para isso vou explicar os meus motivos e até tentar trazer um olhar mais ampliado. Inicialmente ao ver os vídeos de Randa, também senti o mesmo estranhamento quanto o uso das técnicas ocidentais e a falta de acabamento. Pensei: mais uma egípcia tentando sobreviver ao mercado inserindo alguns “traços”, para não dizer, movimentos do balé ou dança moderna. Contudo, fui além desse jeito “modernex” que ela usa para apresentar a dança e pude perceber outras preciosidades. De imediato devo endossar o que Samara disse: a força e a consciencia dessa mulher na realização dos movimentos árabes. SIM, mil vezes SIM! Pude ver isso pessoalmente na 1x que a Luxor a trouxe para o Brasil e em todas as outras vezes . Força que está nos seus olhos, na sua presença corporal (sabe aquela mulher nordestina que se impõe na sua presença meio mal acabada mesmo e que não leva desaforo para casa? Marquito disse que ela parece com Dona Jura, personagem de novela), sem falar na precisão da energia/força que impõe ao fazer um soldadinho com shimmie,por exemplo, na medida certa. Ao ponto de se conseguir visualizar cada um dos movimentos, esta combinação ou outra, mesmo sendo realizados juntos. Com Randa não existe um “borrão”, sabe um movimento que é um mix de dois ou três e que você nem sabe quais são, mas acha que é… isso + isso + isso. Talvez podemos chamar isso, consciência corporal. Aqui, volto para o seu olhar. Nunca vi olhar tão forte, que ultrapassa o ponto “vazio” da platéia e chega até você. O olhar dessa mulher desarmou toda a sua grossura disfarçada (bem atenuada no último work em 2009) e antipatia presente em suas aulas. O que me favoreceu, digamos assim, foi que tive contato com uma Randa em “sala de aula”. E, com isso pude perceber a sua precisão na execução dos movimentos mais básicos da dança do ventre, sem muita alegoria na execução. Uma precisão que se traduz em limpeza e um certo minimalismo, porque ela faz cada movimento parecer minúsculo, e olha que a criatura tem uma “bunda” enorme. Olha… os trancos/acentos dessa mulher e as combinações que faz com o soldadinho, são super complicados de realizar. Enfim… Daí, retorno com minha velha receita de bolo… acessar o que para mim é precioso e tentar não restringir o olhar com aquilo que não me apetece. Pois, quando ela começava a rodopiar e fazer aqueles arabesques enlouquecidos, eu simplesmente parava, apenas isso e retornava ao que me enchia os olhos. Como por exemplo, nas vezes que só parei para ver a sua força, dramaticidade e olhar que não se enquadra no 43, mas que diz o quanto é importante se fazer presente na cena.

    • lorymoreira disse:

      Entendo, entendo, entendo! Tb vejo sua presença fortíssima em cena. Mas realmente a dança dela não me apetece. Prefiro estudar outras coisas. É uma opção mesmo. Essa coisa de gosto, né? Cada um com o seu. Mas fico agradecida pela aula. Vc trouxe excelentes contribuições pra quem quer ter oportunidade de ver a dança dela através de outro olhar. Obrigada!

  8. Clarice disse:

    Já vi a Randa ao vivo muitas vezes. A riqueza técnica, coreográfica sao ímpares. O figurino é diferente, mas até aí o senso estético dela é outro. Ao vivo ela é impressionante. Tudo e mais um pouco do que a Márcia disse. Entendo que seja a sua impressão, ela sabe dosar a força e a delicadeza nos movimentos, ainda que prefira nitidamente a força eos elementos percurssivos. Existem milhares de dançarinas bem acabadas que não tem 1/3 da Randa…

  9. Daiane disse:

    Antes de tudo obrigada pela citação! Fico muito lisonjeada pelo reconhecimento do meu esforço e foi uma surpresa maravilhosa encontrar meu nome nesse assunto! Que alegria!
    Bem, meu ponto de vista é um pouco menos radical, pois cada uma tem sua experiência e sabe o que é bom para si e para sua dança. Apesar de estudar realmente Randa, pra mim é uma bailarina sensacional, sou fã, acho que a maior contribuição que ela pode nos dar é em relação à sua segurança, personalidade forte na dança e principalmente, força e vontade de fazer os movimentos. Acho importantíssimo ver uma Randinhas por aí (pois é uma fase, depois muda) para acabar de vez com a preguiça dos movimentos (leia falta de consciência corporal). Quanto à sua dança, acho que ela faz coisas horrorosas e até engraçadas pro tamanho dela. O legal é que a maioria das coisas, a gente pode absorver positivamente. Por isso o ponto de vista de Marcia tem coerência.
    Lory, certa vez também excluía certos estilos do meu repertório de movimentos e acabei aprendendo que até o estilo mais enfadonho ou tenebroso tem uma contribuição para nossa dança, mesmo que uma só. As vezes a função é de mostrar o que não se deve fazer.

    Voltando à Randa, ela realmente transforma alguns movimentos ocidentais em caricaturas, perto de uma bailarina clássica. Mas tenho uma certeza enorme que quando ela vem ao Brasil, deve achar um horror as caricaturas egípcias que encontra nos workshops, que se auto-entitulam bailarinas profissionais. Mesmo nós, que estudamos por amor e para fidelizar ao máximo nossos movimentos, talvez não consigamos chegar perto da qualidade de movimento egípcio que ela apresenta. Em contrapartida, bailarinas queridas como Souher Zaki, que todo mundo acha uma fofa, estudamos, mas a maioria de nós também não tem noção do tônus de abdomem oblíquo que ela possui em quase todo momento. A realidade é que negligenciamos muito da parte forte dos movimentos, por sua expressão em geral ser mais suave e menos audaz.
    É claro que sempre teremos nossas preferências. Quem por exemplo, se habilitaria de livre e espontânea vontade e sem indicação de ninguém, estudar Raqia, acima do peso, bem mais madura e com aquelas malhas? Ela esconde naquele corpo pesado um dos maiores tesouros em técnicas de dança egípcia. Quem estuda sem preconceitos, reconhece as maiores lições. A visão unilateral faz com que vejamos tudo que é bom pra nós, mas, e se tiver um diamante no meio da lama, o lado que não quer ver nunca vai deixar que seja descoberto. E ali estará escondidinho algo que em alguma ocasião, poderemos aproveitar imensamente!
    Lory, nós que agradecemos suas postagens, suas reivindicações e suas opiniões, amamos cada vez mais entrar aqui! Beijos!!!

  10. Eu te amo. Quer casar comigo?

  11. Hanna Aisha disse:

    Eu achei que era a única!!!

    O que gosto dela é o quadril, como todas as egípcias. Só. Tem um bracinho dela que eu uso e tal, maaas… só.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s