O desabafo do Sultão

Mais um da série, sem criatividade e humor, eu nada seria.

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Por muitos anos, o sultão do Harém do Coqueiro foi criticado pelo excesso de bailarinas que se apresentavam em seu espaço com qualidade técnica, expressiva e/ou artística de caráter duvidoso. Não mais suportando quieto, tais acusações, o referido redigiu um texto para que eu disponibilizasse no meu blog.

Após a conclusão de sua leitura, cara leitora, verifique quantas verdades encontram-se nestas afirmações e indignações. Pobre Sultão. Como diria o Mestre Yoda, não vejo, para este caso, resolução!

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Caras amantes da dança oriental, é com imenso pesar que finalmente deixo vir a público o motivo de minha inquietação de tantos anos. Todos querem saber por que, afinal de contas, eu permito que bailarinas que dançam esquisito ou não têm uma bela expressão, se apresentem no Harém do Coqueiro. Hoje, não mais suportando a pressão, resolvi lhes contar!

Caras amantes da dança oriental, vocês não fazem idéia do quanto é difícil encontrar, por essas terras, uma bailarina exemplar. Temos muitas primorosas meninas por aqui. Parte delas são de imensa sofisticação técnica, com uma primorosa qualidade de movimentos de quadris, braços e pernas. Deslocam-se como garças e poderiam ser consideradas como a nata da dança do ventre. No entanto, essas primorosas bailarinas não agradam muito meu público. Não por que eles não percebam sua pureza técnica, mas porque lhes falta emoção ao dançar.

Daí, ao constatar essa questão, fui abrindo espaço para meninas que tivesse essa tal emoção na dança. Achei pouquíssimas. São tão raras essas moças! Mas essas, ah… apesar de terem paixão estampada no corpo e na cara, não são grandes talentos no quesito técnico, e também não parecem querer mudar isso. Acham que serem maravilhosas na expressão lhes bastam para serem vangloriadas enquanto bailarinas.

Mas meu público exigente também queria bailarinas com qualidade cênica: aquelas com dons artísticos insuperáveis, que são primorosas na vestimenta, excepcionais na escolha das músicas, na criação teatral da cena. Mas entre os dois primeiros grupos (das com técnica primorosa e das com expressão diáfana) não havia sequer uma bailarina que cumprisse parte desse terceiro requisito. Desta forma, novamente viajei o mundo em busca dessas outras mulheres. Encontrei-as praticamente isoladas e descobri que dotes artísticos não são mesmo valorizados no nosso meio. Sendo assim, consegui levar duas dessas para o Harém. Com o tempo me dei conta de que, apesar delas não terem uma técnica tão boa, nem uma expressão tão encantadora, causavam um grande impacto pela capacidade de inovação e criatividade, pelo cuidado com a composição da personagem e pelo envolvimento com a proposta.

Mas meu público, lógico, não se satisfez. Eles queriam mais. E, não posso negar – eu também. Passaram a exigir que as bailarinas pudesse ter todos os três talentos: técnica, expressão e qualidade artística.

Desde então, rodo pelo mundo atrás desse ideal de bailarina e não a encontro em nenhum lugar – simplesmente porque vocês, caras amantes da dança oriental, resolveram que ser meia-boca em um único quesito (seja técnica, expressão ou investimento artístico) é suficiente para sair por aí espalhando que tem o título de bailarina de dança oriental. Chego à conclusão de que para ser bailarina de dança do ventre atualmente nestas terras, basta um pouco de esforço em, talvez, um único quesito e, sim, uma inacreditável cara de pau para fazer um bom marketing, ter um dinheiro para comprar roupas de grife e pronto: está formada aquela que, sem ser, se acha a verdadeira profissional da dança do ventre.

Como enchi o saco desse amadorismo maquiado de profissionalismo, aproveito a oportunidade para comunicar que estou fora dessa área. Não quero mais trabalhar com isso. Vou voltar pra meu escritório de contabilidade – lá, com certeza, eu terei mais sucesso.

Saudações do ex-Sultão do Coqueiro.

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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7 respostas para O desabafo do Sultão

  1. Elaine disse:

    Danado esse sultão…

  2. Vivi disse:

    Ai, que dó da carinha desse sultão….

  3. Samara disse:

    Nega, não esquece que esse blog é lido pelo Brasil inteiro… A gente de fora de Salvador fica aqui a chupar navios, como diria marido (uma mistura de chupar o dedo com ver navios…)!

  4. Aisha disse:

    putz…

    parece que me reconheço neste sultão….
    pobre do Harém dos Coqueiros…temo pelo seu futuro.

    Vou aproveitar as palavras de Samara e dizer que embora esteja em outras terras tupiniquins, eu acho que a história não é tão diferente em outros lugares, e aí me pergunto: é nesta hora que o tesão acaba?

    adorei o texto e me comovi com o sultão.

    beijokas

    • lorymoreira disse:

      Aisha, que bom que também se afinou com o Sultão do Coqueiro. Eu não creio que ele seja peça única das terras baianas mesmo, não…

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