A rainha da valentia

Trabalhei num Projeto social, de 2004 a 2006, que tinha como uma das frentes de trabalho à recuperação de crianças e jovens que estavam em situação de risco social.

Lembro-me bem do caso de uma menina, que vou chamar de P e que gostaria de compartilhar com vocês.

P. chegou ao Projeto totalmente marginalizada: ela tinha 8 anos, era negligenciada pela mãe, tinha abandonado a escola e vivia nas ruas se prostituindo por 50 centavos pra ter dinheiro pra comer ou, na maioria das vezes, pra cheirar cola.

Com ela atuamos sob diversas frentes, mas nada parecia adiantar. Já íamos fazer 1 mês nessa luta quando a levei pela mão para assistir uma aula de danças afro-brasileiras e vi seus olhinhos brilharem.

Pensei: é aqui, nessa sala de dança, que essa menina vai dar a volta por cima. E foi assim que P. deixou a cola, as ruas e voltou pra escola.

É a arte mostrando que é muito mais do que um instrumento de comunicação e expressão – ela é geradora de vida.

Por conta disso, no primeiro lugar do meu ranking de apresentações de dança mais emocionantes, elejo a performance do grupo coordenado pela Professora Gisele, especializado no estudo e prática de danças afro-brasileiras em que vi P. arrasando no maculele.

Ver P., a rainha da valentia, lutando por sua vida, de bastão em punho, acompanhando o ritmo da música, interagindo com companheiros de arte, sorrindo e com o corpo livre da cola é um dos momentos mais mágicos que guardo aqui na minha memória.

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E o que é o Maculele?

“Sou eu, sou eu … sou eu maculelê, sou eu … Ô … boa noite pra quem é de boa noite Ô … bom dia prá quem é bom dia A benção meu papai a benção Maculelê é o rei da valentia …”

Pra situar para quem não conhece, o maculele é uma dança característica da cidade de Santo Amaro da Purificação (BA). É realizada com bastões, simulando uma luta. Sua provável origem é africana, embora alguns estudiosos digam que ela deve ter sido mesclada com uma dança típica dos índios que aqui viviam.

A batida dos porretes, um contra o outro, os saltos, agachamentos e as cruzadas de pernas, assim como a música específica, toda marcada pelo ritmo dos porretes, são elementos que definem o maculele. Assim como a capoeira, essa é uma prática marcial disfarçada de dança.

E deixo com vocês duas apresentações  bem bacanas de maculele que achei no youtube.

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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6 respostas para A rainha da valentia

  1. Deby disse:

    Nossa Lory! Fiquei com os olhos cheio de lagrimas! Que lindo depoimento!

  2. Lucy disse:

    Também fiquei muito emocionada…Beijos, amore!

  3. Vivi Amaral disse:

    Adorei o post. Relatos como este mostram o quanto a arte tem poder na reestruturação da vida das pessoas. Essa é a minha bandeira e ainda terei o meu espaço de arte-educação. Em que cidade eu não sei, mas que terei, terei!
    Que P. seja feliz!
    bjk, Vivi.

  4. Elaine disse:

    Uma história bonita de superação. Que bacana que vc ajudou ela Lory.
    Meu marido era capoerista, ele era aluno graduado e já dava aulas. Como a maioria dos mortais trabalhadores, a labuta o tirou do ritmo de estudos e apesar de amar ele não consegue mais se dedicar.
    Minha única visita a Salvador foi por ocasião do Capoeirando que acontece em Ilhéus. Eu amo maculelê, acho uma delícia, quando o facão entra em cena então…
    Não sei se é semelhança ritmica ou o que, mas ao ouvir berimbau eu penso em khaliji e, ao ouvir soudi eu penso em berimbau e roda de capoeira… Até sei tocar alguns toques simples no berimbau e me arrepia a nuca quando eu ouço.

    • lorymoreira disse:

      Flor, quem ajudou ela foi ela mesma. Eu só ajudei P a encontrar uma porta de saída.
      Sim, há inúmeras semehanças entre ritmos baianos e árabes. Essa tríade Egito, África, Bahia é mesmo conectadíssima!

  5. Karine Al Shams disse:

    Lory, pratiquei capoeira por 8 anos no Rio Grande do Sul. O Maculelê (macul + elê), no meio da capoeira, sempre foi visto como jogo, executado quase sempre ao final da roda, antes do samba de roda, na hora do esquenta-banho. Só nas nomenclaturas dos movimentos e ritmos já é possível perceber muitas similaridades com as danças árabes, o que acabava não raro remetendo à mesma raíz – a África (onde fica o Egito…). Só que igualmente às danças árabes, os rituais, artes marciais e danças africanas foram transmitidas por tradição oral. O conteúdo de bibliografias – quando procurei – se encontravam controversos e diluídos,porque baseados na oralidade.
    Lembremos também que a capoeira no Brasil é muito particular com relação à do restante do planeta – e a origem do próprio maculelê, da forma como se manifesta no Brasil, já tem sido atribuída a fusões, como disseste (alguns passos que aprendi são frevo puro).
    Achei oportuno o teu artigo e, pôxa, tantos anos em salas de aula de dança sem poder discutir essa inquietação, agora vem a Lory e chega mostrando imagens que dizem tanto.
    Raqsa baiana é o que há!

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