Post nem tão off assim

Hoje quero escrever sobre uma amiga que se vai. Não, ela não morreu, apenas prossegue seguindo o seu caminho: passou num concurso em Brasília e está indo morar lá.

É Yane Marcelle, uma irmã que a dança me trouxe.

Nos conhecemos em 2003, na sala de aula de Joilsa Ferraz, nossa primeira professora de dança do ventre.

Desde o começo me afinei com ela – porque era discreta que nem eu (embora depois tenha descoberto que ela é discreta enquanto eu tento ser). Fomos nos conhecendo e descobrimos que havíamos nascido no mesmo dia (30 de Maio) com a diferença de apenas um ano – eu sou a mais velha da relação, pelo menos em idade cronológica.

Nossa parceria na dança começou ali. Foram inúmeros momentos: a primeira vez no palco juntas, a primeira roupinha da 25 de Março, a primeira roupa bordada por nós mesmas, o primeiro xale de cintura, as primeiras músicas – que ia descobrindo e dividindo com ela e a primeira sessão de fotos tirando onda de que éramos modeletes – aliás, ela tem muito mais talento pra isso do que eu.

Também fizemos uma dupla em certo momento. Representamos a deusa Hera numa coreografia gracinha com as taças. Ela de vestido amarelo com a barriga coberta, eu de vestido pérola com a barriga de fora. Nos complementávamos.

Eu, ela e Hera

Sabe a minha irmã gêmea da dança? Pois bem. É e sempre será Yane.

Bom, daí comecei a me inquietar e querer mudar de professora, experimentar coisas novas. Puxei ela e minha irmã de sangue (Juliana), pra fazer um workshop com Bela no Capão. Até Joilsa, nossa professora de dança na época, foi junto. Então… ela também estava comigo quando o Capão me encantou pela primeira vez.

Não demorou muito pra que eu tomasse a difícil decisão de largar as aulas de Jô. Não porque era difícil sair de lá, mas era difícil sair de uma turma em que tinha Yane e Juliana como colegas de aula.

Trio de beijoqueiras: Yane, eu e Juli

Bom, venci meus medos e fui pra Bela. Em questão de meses, lá estavam Yane e Juli. Foi uma felicidade. De novo, nossos caminhos estavam ali, mais pertos do que nunca.

Crescemos juntas na dança. Ela, muito melhor bailarina do que eu. Eu, pesquisadora de músicas e DVDs imbatível – uma dupla dinâmica.

Com Bela experimentamos outras possibilidades de vivenciar a dança do ventre e ingressamos no Grupo Kairós. Foram momentos tão gostosos! Os ensaios, as viagens mentais do Grupo e da cabeça criativa de Bela, os figurinos a providenciar, o estresse dos  camarins, as chapinhas no cabelo, os workshops, os risos e até os choros.

Yane se tornou uma amiga que ia além da dança. Com ela, desabafava coisas da vida, conversava horas a fio – eu sempre falando mais e ela sempre pacientemente escutando e me fazendo ponderar as minhas atitudes radicais.

Pensem em duas geminianas completamente diferentes? Uma fogo a outra água. Só pode ser coisa de ascendente mesmo – o meu Áries, o dela Câncer.

Daí Yane estava há muito tempo solteira e resolvi que ia arranjar um namorado pra ela. Estudando o homem ideal, descobri um que tinha tudo pra dar certo – inteligente, culto, bom papo, educado, maduro, etc, etc, etc. Eu falava dele e ela ria, mas não me dizia nada. Eu doida pra armar um encontro entre os dois aí e, um dia, ela me saí com essa “amiga, acho que você está arranjando esse namorado pra si mesma”. Caí da cadeira e um ano depois me casei com ele. Ela, lógico, estava feliz da vida. Aliás, eu e Léo também. Nós três sempre rimos sempre dessa história. (Só uma curiosidade – Léo também é geminiano, então, pensa num papo de nós 3? Risos!).

Mais uma vez a vida me pediu mudanças na dança e resolvi deixar de fazer aulas com Bela. Juli já estava meio afastada por questões de saúde, Yane com dúvidas em relação a sua continuidade com a dança do ventre. Foi punk deixar o Grupo Kairós, mas naquele momento foi extremamente necessário.

Yane na frente e eu no fundo dançando Tahtil Shibak na Casa Kairós

Esse afastamento meu do Kairós e o de Yane da dança nos tornou mais distante fisicamente, mas meu coração continuou ligado ao dela, mesmo que não nos falássemos todo dia, nem com a mesma freqüência. O consolo é que a gente morava na mesma cidade. Qualquer hora, era só bater um fio e marcar no shopping mais próximo.

Senti muito quando ela anunciou que estava deixando a dança do ventre. Ela dizia que era temporário – e ainda diz, mas eu percebia que algo de valioso havia se partido dentro dela, enquanto em mim, a dança não parava de pulsar.

Yane parar de dançar é como o mundo dá uma pausa. Ela é, simplesmente, uma das bailarinas mais lindas que já vi em cena. Primeiro porque ela é puro amor, depois porque não há nesse mundo de meu Deus uma ondulação de ventre tão perfeita quanto a dela e isso não é generosidade de irmã-amiga coruja.

Ainda estava elaborando esse luto quando soube que agora teria de vivenciar outro – o da mudança dela de estado.

Chorei, esperneei, vesti preto, comuniquei a minha indignação e até sonhei que estava chorando (porque ela tinha me pedido pra não chorar e tive que extravasar no sonho), mas é um fato: ela precisa ir.

E que vá. O meu coração dói, mas vai resistir. Não é dessa vez que vou ter uma parada cardíaca. Agora é a vez dela de me abandonar (não precisava ser pra tão longe, hein, amiga? Tá, to sendo dramática. É minha metade ariana gritando: não se váááá!!).

E que brilhe! Que descubra uma nova Yane em Brasília, que redescubra a bailarina que tanto amo (Roberta Salgueiro à postos, por favor!) e que venha passar as férias aqui pra que eu possa matar as saudades.

A dança me deu muitos presentes, mas o maior deles foi conhecer pessoas lindas e amadas como Yane.

Amiga, te amo! Boa sorte! Paz, sucesso, muito amor e felicidades nesse seu novo caminho!

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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14 respostas para Post nem tão off assim

  1. jamile disse:

    Lory, seu post me fez ir as lágrimas… uma homenagem merecida a essa moça que, embora fôssemos vizinhas de prédio, eu precisei ir até o Capão pra conhecer. Marcelle (que tem o nome da minha irmã de sangue!)é uma criatura linda, que transmite uma paz e uma serenidade quando está por perto. A sensação que tive ao conhecê-la foi justamente de trazer, sempre, o equilíbrio para qualquer grupo onde estivesse inserida! Quanto aos elogios que vc fez a dança dela, não se preocupe (!!) estou aqui para dizer a todos que não é “corijisse” de irmã de dança!!! Ela é espetacular!!!! é maravilhosa!!! ela é doce e forte ao mesmo tempo dançando!!! e tem uma ondulação!!!! rsrsrsr

    Lory, parabéns pelos Posts (esse em especial!!!)
    Marcelle, muito sucesso pra vc!!

    muitos beijos pras duas!!!!!

    jamile fontenelle

    (obs.: adorei a história do namorado!!!! realmente vcs devem rir muito com isso!!!)

  2. Martinha disse:

    (chorando)
    Ah essa Amarelinha é uma pessoa muito muito especial, de uma elegancia e serenidade ímpar!
    Yane não precisa falar o que sente, ela é puro sentimento, clara e transparente. Sua dança encanta, ô mô deus, me lembro da última apresentação que ví, a mais bonita de todas pra mim, no capão carnaval de 2009, pura emoção!
    Florsinha de maracujá, onde quer que você vá, Brasília, Moscow, Cabrobró ou Havaí, estaremos sempre com você!!!!
    Lory, vc mais uma vez me fazendo chorar!!!! beiiijo

  3. Vivi disse:

    Como é importante dizer às pessoas que as amamos enquanto elas estão aqui para ouvir… Que linda declaração de aor e amizade, amiga…. Tenho certeza de que Yane deve sentir o mesmo.

    A mudança para Brasília é o início de uma nova etapa em sua vida profissional, mas a sua saída da DV, é lamentável. Lembro que no 1º dia em que vi Yane dançar, fui até ela e disse o quanto ela tinha me encantado, pela graça e tranquilidade em cenas. Uma dançarina nata. Espero que seja um afastamento temporário e que logo op bichinho da dança a chame de novo. E lá em Brasília tem a Rô, que ia adorar ter essa flor como bailarina do Ayuny.

    De qualquer forma, que Yane seja feliz!

    bjks á ela e à vc, xuxu. Vivi

  4. julimoreira disse:

    Lindo!!! Engraçado como nossas reações à notícia da partida foram diferentes. Antes dela me dizer que tinha passado no concurso, eu já sabia que ela ia pra lá! Fiquei feliz, muito feliz, por ela! Principalmente pq agora vou ter um colchão pra dormir quando for em Brasília! hehehe
    E fico super feliz em saber que as fases de negação, rejeição, raiva e barganha já passaram e que vc, finalmente, chegou à aceitação! Nossa amiga merece toda a felicidade do mundo!
    Um beijão da irmã caçula da dupla!!!

  5. ro salgueiro disse:

    Que lindo post, Lory! Tamos aqui para receber com um monte de carinho essa moça querida! Tomara que ela volte mesmo a curtir a dança; eventos e pessoas interessantes ligadas a ela não faltarão.

  6. Carla fernandes Carvalho disse:

    Lory, Brasília é logo ali, fique triste não, ainda tem muito pra vc conhecer com Yane!

  7. Denise disse:

    Emocionante, Lory. Adoro demonstrações públicas de afeto.
    E é incrível como a arte traz pessoas iluminadas pra nossa vida, né?

    (E olha a sincronicidade, eu tava lendo seu post quando você comentou o meu!)

    Adorei as fotos desse post, principalmente do seu figurino pérola. Muito bom gosto!!

    Beijos do interiorrrrr!

  8. LuArruda disse:

    é, eu que nem conheci, já sinto saudades dela. e pelas fotos, dá pra imaginar como é a dança dela… Lory, chora sim, depois deixa ela ir… o que vocês construíram, nem tempo nem distância apagam. beijo as duas! 🙂

  9. Sandra disse:

    Vc quer deixar todo mundo chorando?!! Nem sabia que Yane ia pra Brasília :-(!!! Mas nós sabemos que ela vai buscando o caminho dela e isso é o que mais conta, então as lágrimas virarão risos no reencontro. A ponte que ela construirá será sólida e para sempre, Salvador-Brasília-Brasil-mundo-universo…rs. E vc Lory, continua ótima escritora! Já pensou em por suas experiências num livro? Só a história de vcs com Léo já valia um livro…kkkk! A história de vcs eu conheço de perto, infelizmente só de poucos anos pra cá, mas aprendi a admirá-las e amá-las imensamente, como dois seres de muita luz que vcs são. E então? quando será a festinha de despedida de yane????

  10. Samara disse:

    Amiga,

    As melhores partes do meu coração estão longe de mim. Dói um cadim, mas a gente aprende. E nunca morre.:)

    Beijos.

  11. Yane disse:

    Ô amiga, vc me colocou pra chorar (mais uma)…e olha que sou dura na queda, até pq vc é o lado passional desta relação rsrs
    A sua história com cunhado é de uma sutileza… um dia vc devia contar por aqui tb…é linda, me fez recobrar a esperança, vc sabe disso.
    Sinto-me assim imersa em amor e flores…gratíssima pela homenagem.
    Fico feliz de fazer parte de sua história e de lhe ter como amiga, de ter encontrado pessoas tão bacanas com a dança e sou imensamente grata por tudo, a cada uma. Há o que é tecido em pano comum e se desfaz pela sua própria natureza, perto ou longe. Há o que é tecido em eternidade, que não começou aqui nem aqui findará. Então o que é feito de essência eu posso guardar aqui no meu coração e levar a qualquer lugar (como estou agora no Capão com vc rsrs)…assim são amizades verdadeiras, expressões de amor que me tornam ainda maior. Agora veja, vc é mesmo minha amiga pq me deixar ir é uma grande prova de amor…ainda mais se o ascendente é Áries rsrsrsrs
    A dança sempre me deu o melhor em todos os sentidos: os melhores ensinamentos, em excelente companhia e ambiente, vivências profundas com o grupo Kairós, aqui e no Capão (ô paraíso! graaaaande Bela!), contato com pessoas inacreditáveis, um verdadeiro banho de vida e intensidade e confio que assim será, sempre. Tudo que eu posso levar e deixar ao mesmo tempo, porque é de coração a coração, fala indelével, pura generosidade de Deus. Ainda em que isso não engorda nem faz mal, né?
    Obrigada pelas palavras carinhosas e pelo que são: Jami, Martinha, Sandrinha, Juju, Carlota, Vivi, todas bailarinas lindas cujas almas dançam e a Rô pela generosidade que, desde já, conheço além da boa fama rsrs. E a dança tá aqui comigo, viu, foi embora não, daqui a pouco “chama” de novo, como disse Vivi, e outro ciclo recomeça.

    Abraços apertadinhos…
    ps.: despedida tá de pé!

  12. Yane disse:

    Ahhh complementando:
    – Lory é linda dançando, tem um jeito todo dela, expressão linda, ensina muito bem, é sistemática, estuda muiiiito e é o google de músicas e vídeos em dança do ventre (vc pode consultar em vários critérios de busca), ou seja, sou fã!
    – O ir de preto na minha despedida não foi metafórico: ela foi de preto e ainda disse que tava de luto! Posso com essa minha amiga…ri muito qdo cheguei em casa…

  13. léo cunhado disse:

    Poxa, até eu chorei.

    Mas assim, ao invés de muito choro, deveríamos fazer logo um planejamento para o próximo encontro e, bem que podíamos fazer esse encontro logo no capão. Yane vem de viagem e agente leva ela pra lá. rs.
    Aproveitamos e levamos logo uns derbakes, sisha e muitos cd´s de DV. Além, claro do par de tênis.

    Yane, sempre quis conhecer as casas legislativa do país.
    Agora temos onde ficar!!!!!
    bjs.

    E que venha o novo…

    léo.

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