Aproximações entre a dança do ventre e o universo pin-up

Ser pin-up tá na moda de novo. Beleza! Também acho umas fofurinhas as roupas, cabelos, maquiagem!

Mas o que isso tem a ver com dança do ventre?

A princípio, nada, caríssimas. Nada.

A dança do ventre é uma arte de origem oriental que não se sabe exatamente quando surgiu, mas calcula-se que centenas de anos atrás. Já as pin-up são uma criação americana da década de 1940 e objetivavam, inicialmente, o passatempo para os soldados no fronte durante a guerra.

Mas, ao mesmo tempo, que uma coisa não tem nada a ver com a outra, pode ter tudo. Sim, porque dança do ventre também é arte e como toda manifestação artística, se recria constantemente, recebe influência de outras culturas e se fusiona com outros estilos. E fusões não são novidades no nosso meio.

Existem três momentos a se observar nesse contexto histórico: a utilização da dança do ventre pelas pin-ups, a influência pin-up na dança do ventre e, mais atualmente, a incorporação do estilo pin-up como uma derivação da dança do ventre e do tribal.

O primeiro momento diz respeito à década de ouro das pin-ups, quando a Bettie Page, por exemplo, usava o figurino de odalisca para enlouquecer o público masculino.

Calma. Não se espantem. Se o objetivo da pin-up era a sedução, porque não usar uma arte que já mexia com o imaginário dos rapazes para acrescentar pimenta no tempero? Elas só uniram o útil ao agradável.

Bom, o segundo momento a ser observado é a incorporação de pequenas sutilezas do universo vintage na performance de bailarinas de dança do ventre, inclusive as bem tradicionais.

Neste vídeo abaixo, a Samia Gamal (famosíssima bailarina egípcia) dança Zeina com um clássico vestido de bolinhas, saia godê e a tiara no cabelo: tudo ao estilo pin-up! Como reza a cartilha!

O que eu não sei dizer, e aqui confesso o meu pouco conhecimento no assunto, quem começou a usar a influência de quem: se as pin-ups que primeiro se inspiraram nas bellydancers ou se as bellydancers que iniciaram esse processo.

Seja lá como tenha sido, isso definiu uma história em paralelo entre os dois estilos que não acabou. Ao contrário, ganhou força total nos últimos dois anos.

As bailarinas de dança oriental mais tradicionalistas, como eu, costumam torcer o nariz para a combinação. Sim, porque a gente se pela de medo de ser taxada de sedutora de maridos alheios e mais todos esses rótulos de libinidosa, etc, etc. Mas é inegável a força e dimensão que isso vem tomando, instaurando esse que eu chamo do terceiro momento dessa mistura: quando a dança do ventre passa a ter um estilo próprio, criado por seguidoras das pin-ups, onde suas performances são baseadas essencialmente nesse formato e passeiam, ocasionalmente, pelo burlesque (que já é uma terceira viagem), vide vídeo abaixo.

Como somos grandes caretas, as grandes percursoras do estilo pin-up dentro da dança oriental acabaram migrando pro tribal ou surgindo dele – onde tudo é permitido com muito mais liberdade. Uma outra parte significativa de moças que aderiram à moda vintage acabou se desvencilhando completamente da dança do ventre, como foi o caso da Shaide Halim e da Luana Mello. Nos restaram poucas pessoas que realmente possuem a proposta de fusionar a dança do ventre com o estilo pin-up. É mais fácil encontrar as seguidoras do universo “tribal vintage”, como a moça do vídeo abaixo.

Ao invés de torcer a cara, vale dar uma estudada no assunto: não porque é moda, mas porque há uma grande lição a ser aprendida e que está meio que subentendida nesse bafafá todo: as pazes com a utilização de sua imagem corporal enquanto mulher.

Eu fiz o workshop da Luana aqui em Salvador no ano passado sobre esse tema, mesmo sem a intenção de modificar meu estilo tradicional. E foi muito bom, porque percebi o quanto podia acrescentar de momentos de charme e feminilidade na minha dança sem estereotipá-la de vintage, isso ou aquilo outro.

Ainda que você discorde da essência do estilo pin-up, ainda que você não aceite essa fusão, essa lição a gente precisa assimilar. A gente não precisa ser uma femme fatale, nem andar por aí toda empetecada de pin-up, mas tentar aceitar o poder feminino que a gente pode explorar, até na dança do ventre mais careta desse mundo. Tudo isso pode ser uma grande lição.

E aqui deixo duas inspirações, pra quem quer seguir por esse rumo ou para quem quer, apenas como eu, estudar mais as sutilezas da sensualidade feminina.

Fifties Cheesecake:

Cheesecake:

Pra saber mais:

http://luanamello.blogspot.com/search/label/Pin%20Ups

http://shaidehalim.blogspot.com/search/label/BURLESQUE

http://shaidehalim.blogspot.com/search/label/PIN%20UPS%20BRASIL%20-%20BY%20SHAIDE%20HALIM

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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10 respostas para Aproximações entre a dança do ventre e o universo pin-up

  1. Lady Burly disse:

    Oi Lory,

    adorei o post. No caso do burlesque, a dança do ventre já é utilizada desde a época em que a dança do ventre chegou aos Estados Unidos, nos cabarés de 1800 e alguma coisa.

    Nos EUA atualmente já existe até uma vertente de dv com o nome Pin up Belly Dance, liderado pela Michelle Manx e seguido por outras tantas que, por vezes, chama o que fazem de Burlesque Belly Dance (mas que deveriam adotar o título da Michelle mesmo, já que não há realmente burlesque no que fazem, como o grupo Pure Catnip, da Nekyya).

  2. julimoreira disse:

    Amei! Eu já era meio pin-up antes da moda, mesmo. Só que a minha leitura de pin-up… rs! adorei o post, irmã! beijocas!

  3. Elaine disse:

    Hum, não curto não!

  4. Daiane Ribeiro disse:

    Lory! Olha que bacana, no nosso curso nós estudamos mais profundamente esta ligação com a dança do ventre e posso dizer que a dança do ventre foi uma das origens do movimento nos Eua, o estilo burlesco existiu primeiro na europa em várias formas de arte e a dança apareceu dentro do estilo como espetáculo de variedades e crítica social. A questão mais interessante é que o burlesque nos EUA foi uma das grandes manifestações femininas da época, responsável por toda uma mudança radical de comportamento! Com a chegada da Little Egypt, a primeira bailarina egípcia trazida ao ocidente, houve um choque muito grande no conceito feminino, artisticamente começaram a imitá-la. Com a liberação promovida pelo burlesque, sua sátira e crítica, começaram os strips e o estereótipo pin up. Resumi uma longa história, talvez eu esteja errada em algum ponto, mas foi o que me lembrei de cara. Só pra explicar que não é uma ligação inócua, para as americanas as pin ups são o sinônimo da revolução feminista! E tudo começou com influências egípcias e européias!!! Parecia impossível, não? Eu tb achava! Rsrsrs beijos querida!

    • lorymoreira disse:

      Bacana essas informações que vc traz, Dai! Pin-ups como símbolo do feminismo, pra mim, é novidade.

      • Outro post q eu adorei!
        Então Lory, a Bettie Page tem até um vídeo que ela faz uma “Dança dos Sete Véus”… mesmo adorando a moça, eu tenho que admitir que ficou mais engraçada do que bonita, pois acho ela um pouco desajeitada pra dançar. Porém a Bettie foi a mais reacionária de todas a Pin Ups, recomendo o filme The Notorious Bettie Page, que conta um pouco sobre a história dela.
        Quanto ao estilo, eu simplesmente ADOOOOOOOOOROOOOOOOO!!!!!! Acho super delicado, feminino e tem o quê das pin ups, que é a sensualidade sem vulgaridade, tudo tem aquele ar de “oops, o vento levantou minha saia”.
        O legal das pin up girls, é que elas vieram para quebrar tabus mesmo! Ainda mais a Bettie que fazia fotos até BDSM, o que deveria ser mais chocante ainda para algumas mulheres dos anos 50, porém para uma minoria, foi uma grande inspiração para levantarem uma bandeira em prol dos direitos femininos e da liberdade sexual.
        Creio que hoje a “moda pin up”, voltou para trazer a sensualidade sem vulgaridade, coisa que anda muito difícil de se ver até mesmo na dança do ventre, pra mim um exemplo é a Dina, ela é divertida e dança muuuuuito, porém ela é beeeem vulgar, mas enfim, vai de opnião.
        Bjos!!!!!!!!

  5. Laurinha disse:

    Hum… respeito, mas pessoalmente também não curto não. Sei lá, acho que já tem tanta coisa no mundo relacionando mulheres e sedução… Apesar de amar dança do ventre, que já é vista como uma dança sensual, acabo gostando mais das bailarinas que seguem um estilo menos sensual.

    Abçs

  6. Tati Marques disse:

    Adorei o post, e adorei a forma como o assunto foi abordado ! Também sigo a linha das bailarinas mais tradicionais, mas a busca pelo feminino e o entendimento de todas as formas de arte são sempre muito válidas para encontrarmos a nossa forma particular de se expressar ! Parabens !

  7. Érika Aparecida da Silva disse:

    Infelizmente, a maioria das pessoas não consegue ser tocada pela Arte. Desconhecem completamente ou passam por cima das verdadeiras origens da dança do ventre que são sagradas, remetendo ao sagrado feminino, era utilizada pelas sacerdotisas como religião e por séculos não foi divulgada ao povo para não acontecer exatamente o que está acontecendo agora. Porém, com a invasão e domínio árabe sobre o Egito, essa arte foi levada ao público leigo (contra a vontade das sacerdotisas) e daí sim, o rito virou dança. Essa é a verdadeira origem. E ela nunca deve ser esquecida. Não importa se bailarinas de dança do ventre foram parar em cabarets e misturaram com o estilo burlesco. Essa pode ser a história de algumas bailarinas num período de tempo muito curto e até insignificante se comparado ao tempo que a dança do ventre já existe, mas nunca isso será a história da dança do ventre. Creio que estão agora ressuscitando passados da dança do ventre tentando confundi-la com outros estilos por puro modismo e para criar algo novo afim de chamar a atenção para ganhar dinheiro. Dizer que no passado, o estilo burlesque esteve atrelado com a dança do ventre, para mim e para poucas profissionais sérias, é o mesmo que dizer que descobriram que colocando uma melancia em cima da cabeça se ganha mais aplausos do público. Esse tipos de “fusions” não passam de moda e não vão perdurar, somente o que é tradicional e clássico se manterá porque a essência é verdadeira e não está ligada em prazeres e satisfações mesquinhas do ego. É isso que prega a dança do ventre, mas como eu já disse lá no início, as próprias bailarinas atuais de dança do ventre desconhecem sua essência, são robôs e o pior, são robôs corrompidos pelo sistema capitalista.

    • lorymoreira disse:

      Cara colega. Como você, sou uma pessoa que se mantém numa linha mais tradicional da dança, se é que isso é possível – pois desde que a dança do ventre se tornou dança do ventre, ela já estava fusionada. Pelo que estudei, não há nada que prove a ligação entre a DV e os rituais de sacerdotisas. Até onde cheguei no meu estudo, tendo materiais mais consistentes, a referência mais antiga e maior da nossa dança são as gawazees. Mas, veja bem: dança não é religião. Dança é arte. No seu comentário você parece confundir as duas coisas. Sugiro que dê uma pesquisada no Google sobre os dois conceitos. Tenho algum material pra te indicar, caso você queira. Abraços.

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