Sobre a expressão na dança

Nas últimas semanas duas pessoas que não se conhecem me procuraram com a mesma finalidade: “minha expressão no palco não é boa, você pode me dar umas aulinhas?”.

Foi um dever de casa difícil!

Sempre acreditei que expressão não era algo que se ensinava. Hoje, já não sei se isso é assim tão inabalável…

Para começar essa reflexão, compartilho aqui com vocês, minhas amigas que me procuraram e minhas leitoras (sou chique, notou?), alguns pontos interessantes, pra gente começar a pensar no assunto:

1º Por que você dança?

E não adianta me dizer que é apenas para fazer uma atividade física. Existem inúmeras possibilidades de se exercitar por aí, mas você escolheu fazer dança do ventre.

O que isso diz de você? Por que, afinal de contas, você escolheu dançar e, mais ainda, por que esse tipo específico de dança?

A resposta a essa pergunta pode ser a chave da sua questão.

Se você dança só por dançar e isso não vem acompanhado de um sentimento de amor, paixão ou encantamento, podemos parar por aqui a nossa conversa.

Não quero ser cruel, mas vamos aos fatos: se você não ama o que faz, como é que quer ter uma boa expressão no palco?

A expressão do seu rosto é o espelho daquilo que você sente.

Sem amor, a expressão de plenitude não acontece.

Isso fica evidente no palco.

E não adianta ensaiar caras e bocas porque isso é bem pior do que ter cara de nada.

E é nesse ponto aqui que comungo com a idéia de que a expressão facial não pode ser ensinada: não dá pra dizer “agora ria”, “agora faça cara de tristeza”… Não, não estamos num curso de teatro.

No entanto… se você gosta de dançar, mas não consegue demonstrar isso no seu rosto, passemos ao segundo ponto.

2º Você tem um rosto.

Meninas, não é só o ventre, braços e o tronco da gente que dançam. É o corpo inteiro. E o rosto faz parte do seu corpo.

Quando a gente dança, o que as pessoas vão ver é o nosso corpo inteiro. Elas não olham apenas para nossos pés e barriga. Elas vêm a bailarina completa. E isso inclui o rosto.

O primeiro passo aqui, é tomar consciência dele. Afinal, vocês se maquiariam pra quê se o rosto não estivesse à mostra?

Sozinha, se olhe no espelho. Olhe seu rosto e as marcas que o tempo e as experiências foram imprimindo nele.

Esse rosto é só seu.

Brinque com o espelho. Faça caretas, faça tipo gostosona, faça macacada. Exercite seus músculos faciais. Eles também precisam de alongamento diário!

3º Dance o que lhe toca

Beleza. Você gosta de dançar e já sabe que tem um rosto, mas você está dançando aquilo que gosta ou deixa sempre que sua professora escolha a música?

Vou contar uma coisa a vocês: eu nunca danço algo que não me emocione.

É a emoção que a música me faz sentir que rege a minha expressão.

Se a música é romântica, me toca, me deixa pisando em nuvens, isso fica evidente em mim porque deixo transparecer aquilo que vai ao meu coração.

Se a música é alegre, doidona, divertida, me sinto numa grande festa e me comporto como se estivesse em uma.

Se a música é triste, languida, dor de cotovelo infinita, boto pra fora todas as minhas frustrações nela.

E por aí vai…

Não dá pra dançar algo que não nos emocione. Fica sem vida, sem graça. Por isso, exercício: escute muita música! Pode ser até música ocidental mesmo!

Separe aquelas que te dão um click no coração. Fica sozinha no escuro e simplesmente sinta. Não se preocupe com a técnica. Não tem ninguém te olhando, ninguém vai te julgar, ninguém vai lhe apontar o dedo nessa hora…

4º Técnica x Emoção

Ok. Se você é iniciante, é natural que tudo isso seja bem difícil pra você. É natural que a gente se preocupe mais com a técnica.

“Ai meu Deus, que movimento faço agora?”. E a cara de desespero se arma no nosso rosto.

Uma dica: na sala de aula, preocupe-se com o aprendizado técnico, mas no palco, não se preocupe com isso.

Você aprendeu tudo que tinha pra aprender até ali. Fez o seu melhor.

Ali, no palco, não há mais o que ser aprendido em termos de ondulações e shimmies. É um fato. O que sobrou? Curtir o momento!

Os minutos passam voando. Aproveite os minutos que tem para ser feliz.

5º Necessidade de aprovação

Todo ser humano tem necessidade de aprovação alheia. A gente quer sempre agradar a alguém, seja ao marido, a professora, a chefe… putz!

Nessa loucura, em busca da aprovação, a gente só esquece de agradar a si mesma.

Então, flor, desencana na hora de dançar. É impossível agradar todo mundo.

Já diz o ditado, toda unanimidade é burra.

Tem gente que vai gostar, tem gente que não vai. E isso inclui até as grandes estrelas, sabia? Eu por exemplo, não gosto da Randa, embora ela seja considera a maior bailarina egípcia da atualidade. Sempre haverá gostos distintos…

E você vai criar rugas por causa disso?

Como diria minha amiga Selene, dance pra quem vai gostar de lhe ver. Nem que seja a sua mãe, que vai em todas as apresentações e saí orgulhosa da cria. A sua mãe merece a melhor expressão que você tem pra dar, não?

E se essa necessidade de aprovação lhe conter demais, procura um terapeuta.

Sério. Ajuda muito! Palavras de quem já passou por isso.

6º Eu realmente não sei o que fazer com o rosto.

Bom, se nada disso adiantou, existem exercícios que podem ajudar. Pra isso aqui, as aulas podem ser eficientes.

Até hoje, só vi uma professora de dança do ventre fazer isso bem (a Bela Saffe), mas a ressalva é que ela também é professora de teatro.

Pra resumir: umas aulinhas de teatro poderão cair bem. Pode ser só uma oficina. Pra você poder experimentar possibilidades diversas de expressão.

Outra coisa que você pode fazer é dar uma olhada em vídeos de bailarinas famosas. Repare na diversidade de expressões que você vai encontrar: o ar diáfano da Souher Zaki, a cara de dor de barriga da Dina, o ar de poderosa da Fifi, a cara de “adoro dançar” da Kahina

7º A sua expressão

Já que falamos na Kahina…

A Kahina é a bailarina de dança do ventre mais imitada do Brasil. E isso inclui expressões faciais.

É muito, mas muito pobre imitar a expressão de alguém no palco. Ou muito cômico também. Se for pra ser uma sátira, óbvio.

Você pode até fazer isso em casa, como exercício. É legal. Ajuda a explorar algumas possibilidades diferentes. Mas é necessário que você faça isso apenas como exercício para encontrar a sua própria expressão.

Repare, quando uma pessoa fala, a gente vê ali gestuais e articulações de frases que são próprias dela. Na dança também é assim. Ou deveria ser.

Você deve encontrar esse jeito seu de se expressar. Ele é único e não vem fácil, não.

Serão necessários alguns anos de experimentação até que você o reconheça.

Mas, até lá, é preciso ralar.

Você está disposta?

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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18 respostas para Sobre a expressão na dança

  1. tribalbahia disse:

    É um trem difícil, cada coreo pede uma expressão, uma personagem. Achar a expressão na medida certa, nem apagada nem caricata, as vezes parece uma missão impossível!!
    Já senti vontade de desistir, confesso!!!!
    Beijo
    Martinha

    • lorymoreira disse:

      Minha Beth Boop baiana, vc é um exemplo de bom uso da expressão facial na dança. Adorooooooooooooo te ver dançar! Sua preocupação me parece tão descabida!

  2. Marcela Castro disse:

    Lory…Realmente a expressão facial é incrível…eu não gostava de Randa mas depois de ver o vídeo abaixo, me tornei fã dessa mulher…ela pode ter alguns defeitos mas a emoção que me passou ao dançar essa música….foi TD!!!! E essa emoção foi transmitida não somente por causa do corpo mas principalmente por causa da expressão facial…
    Então, talvés seja uma dica assistir vídeos de dançarinas que te passam alguma emoção e entender como essa emoção é transmitida…bjjjjjjjjssssssssssss

    • lorymoreira disse:

      Baby, minha questão com a Randa não é a expressão. Reconheço sua beleza, seu domínio técnico, sei que ela é poderosa… etc, etc. Só que ela não me emociona. Como diria a Luana, não gosto, mas é bom.

  3. Shaide Halim disse:

    ótimo texto, Lory. E exatamente por tudo que vc falou que eu acho que expressão não se ensina. Vc pode mostrar o caminho das pedras, ou seja, fazer as pessoas descobrirem onde estão guardadas essas emoções presas e aí, sim, elas conseguem se soltar e encontrar sua própria maneira de demonstrar issoao público! Umas mais esfuziantes, outras mais contidas, umas mais fortes, outras mais sutis… mas ainda bem que existem variações, afinal de contas, somos únicas e nossas emoções também!

    • lorymoreira disse:

      Então, Shai… acho que falta o incentivo à exploração do nosso potencial expressivo em sala de aula. É nesse ponto que acho que isso pode, sim, ser inserido na aula regular. Tipo: não vejo como dar um workshop sobre o tema pq é muito delicado. São questões subjetivas de cada menina que estão ali, em jogo. Mas acho que pode ser feita uma orientação nesse sentido. Umas perguntas, uns exercícios, sabe? Mas isso precisa estar inserido no plano de aula de TODA professora de dança. Uma pena que é um ítem tão negligenciado.

  4. Vivi disse:

    Dizer mais o que? Perfeito!

  5. Adorei ! Seja , sinta e se emocione o resto é resto !

  6. Daiane Ribeiro disse:

    Este texto é perfeito, vai tirar as dúvidas das tuas meninas e de muitas outras que se dispuserem a ler sobre dança. A expressão é muito pessoal, pois mesmo ao dar aulas, ensinar expressão chega num limite, onde o máximo que se alcança é tentar inspirar! O resto é cada uma fazer nascer e permitir que venha à tona… beijos!

  7. Zahra El Nur disse:

    Uauu! Muito bom o post!
    Bom, acho a música de extrema importância, ja troquei de música quando não me sentia confortavel com ela. Dançar algo q não lhe inspire dificulta a transmissão da emoção sentida na apresentação e o publico sente isso com certeza.

    Beijokas da Zahra!

  8. Samara Leonel disse:

    Sobre o tema já comentei no FB. Mas tenho que fazer umas observações sobre esse vídeo da Randa.
    1) Como pra Lory, ela também não é minha favorita. Mas aquela leitura daquela introdução só cantada longuísima não é nada fraca, não! Caramba! É bom e eu gosto sim!
    2) Observação-protesto: o tiozinho músico, aparentemente, assobia e chupa cana. Fiquei bem intessada na performance dele, mas NUNCA FILMAM PERCUSSIONISTA direito! Estudante de percussão sofre, viu? rsrsrs Pronto, falei.

    • Marcela Castro disse:

      kkkkkkkk…é verdade..coitado do percusionista…porém, no final das contas ainda depois da dançarina tirar toda a emoção de dentro e expô-la no rosto, na dança…ainda tem o público….pq o que me emociona e encanta não necessariamente encantará td mundo ou algumas pessoas….é complicado essa questão!!!

  9. samya disse:

    Muito bom isso. Dança sem expressão não é dança.
    Bjo

  10. julimoreira disse:

    Irmã, adorei seu post! Minha parte preferida foi “vc tem um rosto”. Parece obvio, né? mas não é! E sabe, vc tem rosto, olhos, boca capaz de sorrir…
    Nesses realities shows que assisto sobre dança (So Yout Think You Can Dance, por exemplo), eles sempre falam quando o dançarino é técnicamente muito bom, mas não mostra emoção… muito boa sua aula!

  11. Carol Murad disse:

    Sou a favor das aulas de teatro, especialmente se a guria tem pretensões de se profissionalizar. Há pessoas (leia-se euzinha também, antigamente rsrsrs) que, não importa o quanto a professora martele no cérebro, dê dicas, ajude de mil maneiras: o nervosismo as impede de dançar com plenitude. Resultado: aquela triste cara de parede enquanto o corpo só obedece automaticamente a coreografia decorada.
    Depois que fiz cerca de 1 ano e meio de teatro amador (ministrado por atores profissionais), tudo, mas TUDO mesmo mudou. Aprendi a falar em público como nunca, a expressar minhas emoções na dança sem fazer caretas ou parecer “fake”, a disfarçar erros e seguir adiante como se nada tivesse acontecido.
    Enfim, acredito que é uma ótima maneira de perder a vergonha e aprender a mostrar suas emoções, cada uma à sua maneira, sem imitar ninguém.

    =*******************************

  12. Sandra disse:

    Excelente post!

  13. Hanna Aisha disse:

    Uma das coisas que atrapalha bastante é o nervosismo. Falo por mim. Minhas expressões mudam por conta da importância da performance de determinado evento e por conta do público.

    Eu sei que estou no caminho de amadurecimento da expressão. Preciso aprender a controlar o nervosismo (sou daquelas de assoprar igual a alguém no parto minutos antes de entrar) e também a amadurecer profissionalmente com relação ao público (que reage independente da sua qualidade). Sou muito levada por eles ainda.

    No meu caso, falta um pouco mais de pressão.

  14. Camila Souza disse:

    Meu Deus enquanto lia seu ensinamento eu fui ouvindo a minha música que vou dançar, e que me exige muita expressão. E que tem sido um desafio pra mim, e vc me fez chorar, pois a dança é minha vida, é meu ar, meu estilo de vida. E vc me fez ver que com esse amor fatal pela dança eu posso conseguir, adorei suas palavras foram de Deus pra mim 😀 (minha dança é um hip hop romântico sensacional)

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