Reflexões sobre a dança à luz de Ratatouille

Sou uma criatura fascinada por desenhos animados – especialmente as criações da Disney e da Pixar.

O mais bacana desse meu hábito de assistir desenhos é que, vez ou outra, tenho grandes aprendizados que levo pra minha vida.

Isso mesmo! Desenhos podem ser grandes instrumentos pedagógicos e/ou terapêuticos! Quer ver?

Há alguns anos, assisti Ratatouille, a história do ratinho que gosta de cozinhar, mas, só há pouco tempo, assistindo pela segunda vez, me dei conta da profundidade da mensagem trazida por ele.

Minha proposta é que hoje a gente faça uma troca: substitua o enfoque dado no desenho pela gastronomia, para a arte da dança.

Pra quem não viu o desenho, um resuminho da história, só para contextualizar:

Remy é um ratinho que deseja ser chef de cozinha. Obviamente, ser rato lhe dá todas as condições para ser a última criatura desejada numa cozinha. Um dia ele resolve visitar a cozinha de um famoso restaurante parisiense. Assim, conhece Linguini, um ajudante de cozinha pra lá de atrapalhado e que não entende bulhufas de culinária. Remy e Linguini, então, fazem uma parceria e o ratinho passa a cozinhar escondido no chapéu do seu mais novo amigo. Com a condução de Remy, Linguini acaba se tornando uma sensação na gastronomia francesa. Devido a tanto sucesso, Anton Ego, um famoso crítico de culinária de Paris, resolve visitar o restaurante. Ao ser indagado sobre que ítem do cardápio desejará provar, Ego diz: “peça ao chef que me surpreenda”. Então Remy prepara uma receita de Ratatouille e cai nas graças do crítico – que resolve conhecer o chef. É quando Linguini lhe revela toda a verdade – que quem, na realidade cozinha não é ele, mas um rato. No dia seguinte, Ego publica a seguinte crítica no seu jornal:

De certa forma, o trabalho de um critico é fácil: nos ariscamos pouco e temos prazer em avaliar com superioridade os que nos submetem seu trabalho e reputação.
Ganhamos fama em criticas negativas que são divertidas de escrever e ler, mas a dura realidade que nós, críticos, devemos encarar, é que, no quadro geral, a mais simples porcaria talvez seja mais significativa do que a nossa crítica.
Mas há vezes em que um crítico arrisca de fato alguma coisa, como quando descobre e defende uma novidade.
O mundo costuma ser hostil aos novos talentos, as novas criações. O novo precisa ser incentivado.
Ontem à noite experimentei algo novo. Um prato extraordinário – de uma fonte inesperadamente singular.
Dizer que tanto o prato, quanto quem o fez desafiam minha percepção sobre gastronomia, é extremamente superficial.
Eles conseguiram abalar minha estrutura.
No passado, eu não fazia segredo quanto ao meu desdém pelo famoso lema do chef Gusteau’s –  “qualquer um pode cozinhar”. Mas eu percebo que só agora eu compreendo realmente o que ele queria dizer.
Nem todos podem se tornar grandes artistas , mas um grande artista pode vir de qualquer lugar.
É difícil imaginar a origem mais humilde do que desse gênio que agora cozinha no restaurante Gusteau’s , que é, na opinião desse critico, nada menos do que o melhor chefe da França.
Eu voltarei ao Gusteau’s em breve com muita fome!

Vejo aí uma série infinita de analogias que podemos usar para inúmeras discussões. Vamos começar?

01. “Peça ao chef que me surpreenda” – pra mim, essa frase é exatamente o pedido de qualquer público para um artista – incluindo para nós, bailarinas.

A arte é superior a mesmice. Todo artista precisa se reinventar, inovar, trazer à tona suas emoções através daquilo que sabe fazer.

Na situação do desenho, Remy cozinha um ratatouille. Um prato campestre e aparentemente banal. Só que ele coloca um tempero especial. Lhe prepara de forma singular e única. Ele poderia ter escolhido um prato mais refinado? Poderia… mas optou por tornar o simples, especial. Isadora Duncan já dizia: é muito complexo ser simples.

A cena de quando Ego come o ratatouille é marcante: na hora ele se remete a uma situação de sua infância e se emociona. Isso é arte: é tocar a emoção do outro com sua própria emoção. E surpreender.

Será que temos, enquanto bailarinas, surpreendido nosso público? E de que forma? Será que não estamos, ao invés de preparar um prato simples e colocar nele um tempero único e especial, caindo no erro de escolher pratos complexos e refinados e esquecer de pôr nele as nossas emoções? Vamos pensar nisso, meninas?

02. De certa forma, o trabalho de um critico é fácil: nos ariscamos pouco e temos prazer em avaliar com superioridade os que nos submetem seu trabalho e reputação. Ganhamos fama em criticas negativas que são divertidas de escrever e ler, mas a dura realidade que nós, críticos, devemos encarar, é que, no quadro geral, a mais simples porcaria talvez seja mais significativa do que a nossa crítica.

Dizer mais o quê?

Dever de casa, dever de casa, dever de casa…

03. O mundo costuma ser hostil aos novos talentos, as novas criações. O novo precisa ser incentivado.

Eu vejo esse novo não como carinhas novas dançando igual a carinhas já batidas e conhecidas. Eu vejo o novo naquela que se arrisca a fazer algo que ninguém ainda fez, que desafia o público e a crítica ao ousar. Mas, no nosso cenário bellydancer, temos incentivado essa postura?

Na minha humilde opinião, eu acho que não. É um fato: a gente torce a cara pra tudo que saí dos padrões e códigos pré-determinados de “isso pode”.

E a nossa querida dança do ventre vai caindo na nossa amiga íntima, Sra. Monotonia.

04. “Qualquer um pode cozinhar”

Outro dia eu escrevi sobre isso aqui: qualquer um pode dançar. O resultado foi gente dizendo que nem toda mulher pode dançar porque o mercado exige estética, beleza,  juventude e etc.

Minha opinião é taxativa: o meio profissional da dança (vide dança em barzinho e restaurante) pode ser assim, é um fato. Mas eu conheço um montão de gente que está fora dos padrões estéticos de beleza e idade e que é uma bailarina exemplar.

Não deixe de fazer o que você deseja por medo de não ser aceita. A gente fica velha, cheia de ruga, triste e ranziza. Dá uma banana pra todo mundo e vai dançar! Quem não gostar, que vire o olho!

05. Nem todos podem se tornar grandes artistas , mas um grande artista pode vir de qualquer lugar.

A gente sempre se surpreende com o ser humano, não?

Graças a Deus…

Tenho acompanhado o So you think you can dance e um dos 20 bailarinos selecionados pro programa é um rapaz que nunca entrou numa sala de aula de dança na vida. Ele dança hip hop e tudo, absolutamente tudo que aprendeu, foi olhando sua imagem no reflexo da janela de casa. Assim, ele ia fazendo os movimentos que via os rapazes fazerem na rua . Sua trilha sonora era o som das construções dos prédios ao redor do lugar onde morava. Ali, dentro dele, morava um artista.

A arte pode vir de qualquer lugar! Nunca deixe de acreditar nisso!

E viu que desenhos podem ser excelentes instrumentos pedagógicos? 🙂

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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12 respostas para Reflexões sobre a dança à luz de Ratatouille

  1. Maíra Magno disse:

    Muito BOM! a senhora é uma senhora cronista!

  2. Naznin disse:

    Oi Lory!!

    Nossa, nessa vc acertou em cheio! Eu também adoro os trabalhos da Pixar, e quando pensamos que eles não terão como fazer melhor, bum! Mais um trabalho primoroso… sou absolutamente fã e não vejo a hora de assistir Carros 2!!!
    Ratatouille é um encanto. Os olhares (o forte da Pixar na minha opinião), as luzes e sombras, e as mensagens, como você bem destacou. Muita sensibilidade da sua parte trazer isso para a dança do ventre.
    Vc citou esse rapaz do programa So you think you can Dance, e no programa do sbt Se Ela Dança Eu Danço aconteceu algo parecido recentemente. Vc viu o vídeo do rapaz chamado John Lennon da Silva? Coloque esse nome no youtube e vc verá. Mais um exemplo de que um artista pode vir de qualquer lugar.

    bjs

  3. Lory ..só vc msm pra fazer agente pensar assim!!! Desenhos animados realmente podem ser educacionais (alguns) mas nunca parei pra refletir sobre esses pontos de vista!!! Texto excelente!!! Bjs

  4. Elaine disse:

    Flor, ótima sua reflexão! Os filmes infantis sempre trazem boas lições, além de serem fofos, né?
    Quando assisti este filme pensei por semanas sobre as coisas que você está analisando aqui, que são lições preciosas.
    Eu costumo associar muito as situações que vivencio por meio de livros e de filmes com o universo da dança. Acredito que a gente precisa transportar para a nossa arte o que experimentamos não apenas de técnica, mas também do dia a dia. É isso que nos torna única.
    Infelizmente vejo a dança do ventre presa em uma porção de muros. Mesmo a mais livre das bailarinas parece engessada ao que o mercado dita ou ao que o público quer.
    Enfim, um dia… quem sabe… comecemos por nós…

  5. Lucy Linck disse:

    Post perfeito, querida! Me fez sorrir!
    Beijos!!!

  6. LuArruda disse:

    Que post mais lindo, me fez chorar! eu A-M-O esse filme, escrevi sobre ele, comprei e etc, mas nunca tinha parado pra fazer essa reflexão específica sobre a dança. É um filme pra vida – e a dança é vida,também! Parabens pela sensibilidade…
    um beijo!

    • lorymoreira disse:

      Que legal, Lú! Bom saber que a gente também toca as pessoas com as coisas que escreve, né? Beijão e obrigada pelo carinho e visita.

  7. Shayene disse:

    Parabéns ao post e seus comentários.
    Tb amo desenhos, e sempre me emociono com as lições de vida q levo!
    O ultimo que fez em mim “cair a ficha”, foi King Fu Panda!
    Adoraria ler sua crítica a respeito deste desenho.
    Engraçado, que parece que levo as lições de vida dos desenhos, pelo momento de vida que eu passo. Seria simples coincidência? Eu não acredito.
    Faz crescer!
    Bjosss, sou sua nova seguidora 😉

    • lorymoreira disse:

      Oi Shayene. Infelizmente ainda não assiti Kung Fu Panda. Tem um outro sobre um Pinguim também que me recomendaram. Vou fazer essa lição de casa! Obrigada pela visita e pelo comentário!

  8. Hanna Aisha disse:

    Lory
    que olhar mais sensível!
    AMEI suas observações, passaram direto por mim!
    Beijos do Rio

  9. Pingback: Cozinhar e dançar | (An)danças de Lory

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