Vou ali ser feliz. Dançando.

Bailarina de dança do ventre vive em crise. Isso não é novidade pra ninguém. Não conheço nenhuma – amadora ou profissional, que não tenha vivido suas dúvidas e anseios em relação a sua continuidade na dança do ventre.

Eu não sou diferente. Desde que entrei nesse meio, tive inúmeras crises. Vontade de desistir, de largar tudo, de ir viver outras coisas. Muita coisa se passou por decepções externas, mas a maioria esmagadora dizia respeito às coisas que se passavam no meu coração.

Como boa geminiana, não deixei barato e, há cerca de 1 ou 2 anos comecei um processo de auto-investigação: porque tantas dúvidas? Eu amo ou não amo a dança do ventre?

Amo. E porque amo, duvido. Duvido da minha capacidade de conviver num meio social onde o mercado importa mais do que a arte e o padrão de movimentos aceito vale mais que a criatividade da bailarina.

Tudo isso é muito frustrante. É verdade. Mas porque amo não me dei o direito de desistir. As dificuldades estão aí para serem superadas. Sei que isso parece clichê, mas a vida é assim mesma: cheia de coisas óbvias que ninguém enxerga. Inclusive eu.

Comecei me perguntando: afinal, o que eu quero da dança?

Essa é uma pergunta que toda aluna, amadora ou bailarina profissional precisa se fazer porque é isso que vai determinar não apenas a forma como a gente se relaciona com nossa dança como o tipo de coisa que vamos buscar nela.

Nas minhas reflexões, reafirmei coisas que eu já sabia, além de descobrir elementos novos.

Reafirmei a certeza de que meu corpo tem suas limitações e potencialidades e passei a aceitá-las e entende-las melhor.

Reafirmei a minha crença numa dança mais criativa, expressiva e libertadora.

Descobri que isso, ao mesmo tempo em que me liberta de determinadas obrigações, me afasta da possibilidade de ser vista como uma profissional pelo meio da dança do ventre na minha cidade.

Reafirmei que a dança não é minha profissão, nem nunca será. Ela é meu complemento afetivo e existencial.

Descobri que posso buscar por uma qualidade de movimentação técnica mesmo não sendo profissional.

Descobri que as terminologias profissional e amadora são um grande engodo e pouco importa como você se denomina – a dedicação que você tem consigo mesma e com sua arte valem mais do que milhões de títulos.

Reafirmei minha crença de que a dança serve para emocionar as pessoas.

Descobri que adoro dar aulas, mas que posso viver sem elas.

Descobri que adoro estar no palco, mas que ele não é imprescindível  para meu processo de crescimento na dança.

Descobri que dançar em casa, sozinha, pode ser tão emocionante quanto dançar para um público. Ou até mais.

Reafirmei a minha vontade de continuar estudando e procurando por professoras que agreguem valor ao meu processo de aprendizagem.

Descobri que aulas particulares são excelentes pra meu desenvolvimento técnico.

Descobri que não morro de empolgação com o formato artístico de grande parte dos eventos de dança do ventre que são feitos na minha cidade.

Descobri que estava na hora de começar a formatar eventos de dança com base nas minhas crenças, nos meus desejos e no meu aprendizado enquanto bailarina.

Reafirmei minha certeza de que tenho amigas que são parceiras artísticas maravilhosas.

Descobri que não é fácil organizar um evento, mas que é muito gostoso e recompensador ver o resultado de seu trabalho.

Descobri que, como eu já desconfiava, evento de arte não dá dinheiro.

Descobri que eu posso ser muito feliz dançando o que me der na telha, no evento que criei, com a presença de um público especial, ainda que em número pequeno.

Descobri que é isso que quero com a dança: me realizar dançando aquilo que me emociona e levar um pouco desses sentimentos para quem estiver me assistindo e que, se for preciso, eu mesma invento esse espaço ou essa situação, porque minha crença de arte vai além da mera execução da dança. Minha crença de arte está no preparo das mínimas coisas que criam um ambiente propício para o deleite do público. Uma luz indireta, um aroma no ar, flores num jarro, boas-vindas na chegada, música ambiente, uma dança-carinho, um obrigado de coração. Porque cada pessoa precisa se sentir especial e eu descobri que sei fazer isso.

Outras crises virão. Não duvido disso. Mas, quando elas chegarem novamente, vou olhar para todas essas coisas e dizer: eu sei o que quero com a dança. Chega pra lá, crise. Como diria o Caio Fernando de Abreu, vou ali ser feliz e já volto.

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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26 respostas para Vou ali ser feliz. Dançando.

  1. LuArruda disse:

    quando a gente sabe o que quer, nada nos impede. e ainda assim, quando impede, não nos faz desistir.
    que bom saber que você segue! sigamos todas!
    🙂

  2. Poxaaaaaaa!!! Vc disse tudo!!! Tem mtas coisas q vc escreveu e eu passei, como a parte da decepção com a dança – mas no final da minha crise eu compreendi q a decepação não era com a dança (pq ela é maravilhosa) e sim com as pessoas q fazem a dança (e até agente conseguir separar isso demora um pouco) – e graças a esse entendimento q eu não desisti pois, se desistisse estaria desistindo de um pedacinho de mim pq entendi que quando amamos alguma coisa ela começa a fazer parte de nós, fazer parte de nossa personalidade. E dançar em casa, sozinha é MARAVILHOSO!!! Bjs …é por essas e outras q sou sua fã !!! Vou copiar esse post e colar no meu blog com os devidos créditos (é óbvio)!!!

    • lorymoreira disse:

      Fique à vontade, chuchuca. Beijão!

      • Gata…acabei deletando seus comentários no Blog sem querer…Ainda tô penando com esses benditos comentários pq o Blogger não informa que o comentário vai pra moderação e daí a pessoa acha q não foi!!! É complicado!!! Bjsssssss

  3. Vivi disse:

    A maioria das coisas que vc descobriu eu também as descobri. Mas de vez em quando, eu me questiono muito sobre as minhas descobertas.
    Eu acho que tudo é ás vezes muito cansativo… E cansa até as minhas motivações.

    Mas uma força me faz continuar. E então eu continuo.
    Que força será essa, né?

  4. Gal sarkis disse:

    Amiga!!!!!Hoje no calendário Maia é o HUMANO…
    “….Dia de observar-se,(auto-analise),dia para ser energético sem ser autoritário,dia em que nos defrontamos com questoes de responsabilidade.Um dia de trabalho,de esclsrecimento e comunicação rápida.De acerto de contas…De tomada de decisões…!!”
    Muito lindo seu depoimento minha amiga…
    Hoje voce desarmada…esta mais LIVRE…Para expressar a sua ARTE…
    Hoje voce acertando as contas….Esta mais conectada com a sua VERDAdE…!!
    Muito lindo Amiga!!!!parabenssssssss!!!!Bjsss!!E vamos seguindo..descascando a cebola…e
    Dançando…!!!!

    • lorymoreira disse:

      Sem você, Galzinha, essa nova forma de realização com a dança não estaria completa. Vc faz parte desse meu caminhar, amiga.
      Viva a eu, viva a tú, viva ao calendário maia e ao rabo do tatu! Uhu!
      Risos!!!!

  5. Elaine Aliaga disse:

    Florzinha, gostei das suas “descobertas”, farei as minhas próprias e suspeito que sejam muito parecidas, ts.
    Você disse coisas que a gente sempre sabe, lá dentro, no fundo, mas faz questão de esquecer! Porque e para que a gente dança são as duas primeiras coisas que a gente deve se perguntar.
    Minha crise, atualmente, vai beirando limites. Eu sei para que danço, mas estou naquela de descobrir até onde eu irei em investimento de tempo e dinheiro para aprimorar minha técnica; até porque, cada vez mais, eu percebo que a maior parte do que aprendo não é mais parte da dança que idealizo para mim.
    Algumas coisas eu já defini há alguns anos, quando deixei a dança “profissional” de lado. Essas mesmas coisas estão em fase de reafirmação e reajuste, rs.
    Um brinde às crises que nos fazem amadurecer!

    • lorymoreira disse:

      Eu sei para que danço, mas estou naquela de descobrir até onde eu irei em investimento de tempo e dinheiro para aprimorar minha técnica; até porque, cada vez mais, eu percebo que a maior parte do que aprendo não é mais parte da dança que idealizo para mim.
      Tem certeza que você não leu uma parte de meus pensamentos?
      Risos!

  6. rhazi disse:

    Puxa vida, que coisa linda esse post! Fala direto ao coração! Beijoooo

  7. Maíra Magno disse:

    querida parabens pela coragem, suas descobertas, ou melhor questionamentos passam pela cabeça de todas, mas como a sra é uma perola entre um mar de conchas nao fica reclamando que e agua é molhada e toma uma atitude para construir A SUA VERADE! que é algo acessivel atodo ser humano, mas deus sabe porque4, e talvez freud tb, a esmagadora maioria das pessoas prefere simplesmente reclamar e não tomar atitude alguma: ” o mercado tem um exisgencia estetica…” ” os eventos de dv são massificantes…” ” Não se valoriza a criatividade, existe muita pressão para seguir padrões…” ” os conscursos são in justos…” Sim, e agua é molhada e dai? ou da ou desce minha senhora! a vida é assim mesmo e não é pq é com a dv as coisas são assim mesmo. A perfeição e a felicidade plena, como diria kardek nao pertencem a este mundo!
    Eu sou da filosofia cale a boca e faça alguma coisa, meus parabens! bem vinda ao time: Não gostou? Faça o seu!

  8. elaine disse:

    Texto lindo, Lory. Eu sou “novata” na dança do ventre (na verdade me interessei em 2004, mas como fiquei um tempão sem fazer aulas ou me envolver com o assunto, só voltei a dois anos, me considero novata de novo) e ao mesmo tempo que me encanta duas coisas me incomodam muito.

    Uma é a visão senso comum de muita gente da dança do ventre não como arte, mas apenas como uma dancinha sensual pra deixar homem babando. Pro meu desgosto outro dia percebi que até minha amiga, que ironicamente me aproximou da dança, também tem essa visão machista, na minha opinião. Quando a gente vê vídeos aqui em casa, ela não está nem aí pra técnica, emoção, leitura musical, fica é maravilhada quando a roupa é mais pelada, sensual, a bailarina bonita e fazendo movimentos sensuais.
    Esse simplismo me dá tanta preguiça que cortei esse assunto com ela, não vejo mais vídeos com ela, quando ela sugere falo que não me interesso mais…

    Outra coisa que me incomoda é essa padronização. Não consigo assistir a maioria dos vídeos das profissionais porque atualmente não me dizem nada, já sei tudo o que vou ver no primeiro momento, uma é exatamente igual à outra, na roupa, no corpo, na expressão, nos passos. Algumas das que mais gosto, exatamente porque não se pareciam tanto com a maioria e realmente me passavam alguma coisa, saíram há pouco tempo, como Luana Mello e Carlla Sillveira. Desconfio que no dia que Lulu parar de dançar, vou parar de assistir vídeos das “tops”, porque entre todas, é a única que ainda me passa ter um estilo próprio e que me diz alguma coisa.

  9. Natalia Salvo disse:

    Fiquei feliz de ler teu post… Me tirou até umas nuvens do coração…
    Beijocas =)

  10. Só que está atolada até o pescoço na dança descobri o que você descobriu !!! Beijos

  11. Sandra disse:

    Nossa! Que sintonia! Você expressou muitas de minhas inquietações sobre a dança na minha vida…. Admiro cada vez mais você. Muito obrigada!

  12. Morgana disse:

    Ola!
    Adorei o texto e é exatamente isso que eu sinto em relação à dança….Tenho muitas dúvidas e medos,mas a certeza de que dançar é libertador!
    Faço dança cigana e tenho teu blog no meu faz tempo já!

    Adoro esse lugar!!!!!
    Parabens!

    E muita dança para nozes!! 😉

  13. samya disse:

    Que lindo, Lory! Emocionei.
    Beijo

  14. Lucy Linck disse:

    Esse post fecha taaanto com meu momento com a dança!
    Pensei seriamente em parar de dançar, nesses últimos meses…e optei por diminuir a carga de aulas, estava me sentindo sufocada em minha própria paixão. E a dança tem que me fazer feliz, senão o rumo que tomei é o errado.
    Obrigada por compartilhar, amore!
    Beijos!

    • lorymoreira disse:

      É o que eu digo sempre: a vida já exige tanto da gente! Trabalho, marido, filhos, casa, família, contas, vizinhos, etc… A gente dança pra se desanuviar ou pra ter mais uma maletinha pesada a carregar? Maletinhas pesadas, já bastam as do meu dia-a-dia!

  15. Hanna Aisha disse:

    Oi, Lory
    esses questionamentos fazem parte do que escolhemos para a vida! Tenho essas crises com meu outro trabalho (bioquímica) por motivos outros, claro… a dança nunca tive dúvidas em continuar e nunca pensei em parar, mas acho que está muito claro na minha cabeça que nunca viverei disso como um escolha voluntária, justamente porque acho que não vale a pena. E também pq estou à pouco tempo como profissional (desde 2008).
    Mas pensar faz a gente crescer e tomara que você tenha novas crises e compartilhe, gosto de ouvir oq os outros acham nesse grande boteco da DV!

  16. Aisha disse:

    F-A-N-T-Á-S-T-I-C-O!!

  17. Lis de Castro disse:

    Lory, você é danadinha! Rs. Amei o post… Muitos beeeijos pra você \o/

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