Dançando com os elementos: tradição, ousadia e inovação

Isso denuncia a minha idade, mas vamos lá: eu sou do tempo em que bailarina de dança do ventre para ser “retada” tinha que dominar todos os elementos da dança (pronto, me entreguei de vez). O véu era apenas um deles.

Os shows, apesar de tecnicamente mais simples, sempre eram muito variados: havia números de profissionais com jarros, bengalas, flores, pandeiros, espadas, punhais…

Quem tem mais caminhada de dança deve se lembrar daquele famosos VHS (putz!!!!) da Nájua – nele a gente podia apreciá-la dançando de tudo um pouco. E a gente amava a Nájua! Porque ela era versátil, linda e poderosa: o modelo de bailarina que todo mundo queria ser!

Mas o tempo passou… é fato! E aonde é mesmo que foi parar a nossa versatilidade, caras amigas bellydancers?

Hoje em dia, o que vemos em um show de dança? Todo mundo faz entradas clássicas.

A variação é saber se a bailarina vai ou não vai usar o véu – o único elemento que parece que ainda está “in”.

Quando há a inserção de alguma coreografia com um elemento geralmente é de um grupo de alunas. Nada contra, mas acho que vocês vão concordar comigo: se a gente fizer uma rápida pesquisa pelo Youtube vai constatar que a maior parte dessas performances são pobres e infantilizadas.

Logicamente, estou escrevendo baseada da minha realidade atual e local. Não sei como é isso no restante do Brasil. O que sei é que, graças a Deus, um dos maiores shows que temos de dança do ventre no país – o Super Noites do Harém – ainda mantém em seu rol de apresentações, números profissionais em grupos que nos trazem os famosos elementos da dança do ventre de volta.

Esse post é um misto de saudosismo com desejo de renovação. Creio que seja possível trazer os elementos de volta incorporado à evolução técnica que a dança do ventre teve ao longo dessa última década.

Pensando nisso, a partir de hoje teremos, aqui no (an)Danças, uma série intitulada “Dançando com os elementos: tradição, ousadia e inovação”. Em cada post, vou trazer alguns vídeos pra gente se inspirar, estudar, relembrar e, quem sabe, estimular novamente o uso desses elementos nas nossas performances de dança.

Não pretendo escrever sobre sua origem, que música ou ritmo utilizar porque esse é um conteúdo que se acha fácil – uma rápida pesquisa no Google resolve o problema.

A idéia é mesmo inspirar, relembrar e estimular a criação de novas possibilidades para nossas performances.

Que tal? Vamos começar?

***

O Pandeiro… ah o pandeiro!

Eu o adoro porque ele permite uma dinamismo bem bacana. Você não precisa seguir necessariamente uma cartilha rígida para dançá-lo. A única coisa que você precisa fazer é tocá-lo de vez em quando, afinal, o pandeiro é um instrumento e não dá pra se esquecer disso, ok?

Aqui veremos um solo com uma leitura bem folclórica, uma performance em grupo com uma leitura mais moderna e um toque cigano e, por fim, uma apresentação que sai completamente do enquadre esperado para esse tipo de dança: a leitura que a Amani faz ao som de uma música da Oum Khalsoum!

Eu gosto muito das 3 performances! Apesar de me identificar mais com a dança da Shirley, vibro com o potencial da coreografia desse grupo, embora a parte da dança com o pandeiro mesmo seja bem curtinha – mas enérgica o suficiente para envolver a platéia.

Mas preciso dizer uma coisinha pra vocês: das três performances, a que me faz babar mesmo é a da maluquinha da Amani – porque ela é tão ousada que descontrói tudo que já se disse sobre dançar com pandeiro ou sobre dançar Oum Khalsoum.

Quando vi essa performance pela primeira vez, há alguns anos atrás, pensei: “essa mulher deve ter esquecido de tomar o remédio nesse dia…”, mas hoje, ao assistí-la de novo, me dou conta da riqueza artística dessa dança: ela quebra protocolos. Simples assim. E, se você ainda está em dúvida observe que ela está sendo aplaudida por ninguém mais, ninguém menos que a Raqia Hassan.

A Amani é, nesse caso, pra mim, o exato exemplo do que falei lá em cima: é possível construir novas possibilidades de uso dos elementos da dança do ventre com ousadia e competência técnica.

Lililililililiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!

***

Ficou com vontade de ver mais performances com pandeiro? Clica aqui.
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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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17 respostas para Dançando com os elementos: tradição, ousadia e inovação

  1. Samya Ju disse:

    AAAaaaaaaaaaaai obrigada! Que post bom.
    Menina eu também sou da época da super Nájua. O trabalho dela é muuuuuito bom. É obrigatório. É uma referência estética que influenciou as melhores bailarinas que eu conheço.
    Concordo com você, os elementos precisam voltar pra enriquecer o show das super bailarinas.
    Super beijos

  2. LuArruda disse:

    hum! eu tbm gosto dos elementos, mas apenas um de cada vez…rs…fico ‘aguniada’ qdo a bailarina entra e vai usando de tudo um pouco.. mas nesses caso – dos vídeos – adorei tudo!
    😉

  3. Vivi Amaral disse:

    Baby, eu gosto muito de ver aquele VHS da Najua. Ela é o estereótipo da dançarina que eu sempre imaginei. E ainda hoje, com tanto ballet e jazz na DV, sua dança se mantém atual e belíssima tecnicamente falando.
    Não tinha visto esse vídeo da Amani, mas já vi ao vivo essa música ser dançada com pandeiro (se não me engano, num evento que fui no Rio). Acho que a ideia dela inspirou algumas de nós aqui. 😉
    O que vc fala no início do post é fato. Num evento de DV temos 10 clássicas para 1 ou 2 folclores, um baladi ou shaabi e nada (ou quase) de elementos. Dá um sono….

    Adorei seu revival!

    bjbj

  4. disse:

    Lory, esse ano completo dez anos na DV e eu nunca dancei com punhal, por exemplo. Acredita? Seu post retrata SIM a situação daqui do sudeste. Há falta de interesse das alunas em utilizar esses elementos e também os novos profissionais (me incluo) não tem preparo pra ensinar essas técnicas, pois como você disse, além das Super Noites do Harém, não há quem dance com esses elementos há tempos….

    Os vídeos são lindos! Me animei pra estudar mais…

    Beijoooo!!!

    • lorymoreira disse:

      Dê, pra mim, pior do que o despreparo das profissionais para ensinar a utilização dos elementos na dança do ventre é o descrédito com que muitas delas vêem esse tipo de performance… É como se apenas a dança clássica fosse dança do ventre de verdade. Isso me revolta. Não foi nesse contexto que me formei enquanto bailarina e não comungo, em hipótese nenhuma, com essa idéia.
      A dança do ventre está recheada de possibilidades. Uma delas é a utilização dos elementos.
      Mas certas colegas odaliscas sentem-se seguras apenas fazendo seus númerozinhos clássicos e, para não terem que justificar a ignorância que têm no assunto, pregam que dançar com elementos é démodé.
      Ah… faça-me uma garapa, viu?

  5. Bruna Diniz disse:

    Adorei o seu post Lory, acho que na verdade a tradição desses instrumentos perdeu lugar para a fusão na dança. Particularmente gosto de fusões e acredito que elas enriquecem o cenário da dança do ventre com inovação e criatividade, porém muitas vezes elas passam a ser prioridade quando colocamos o quesito criatividade como foco. Onde foi parar a criatividade com o tradicional? Tenho que acrescentar que é necessário um estudo em cima de tais temas, pois quando trabalhamos com folclore isso mexe nas raízes de um determinado povo. Sempre sito o exemplo: Assisti um show intitulado como Brazilian show no Libano em agosto de 2010, e a música usada era uma mix de mambo com afro e nem mesmo era cantada em português. Fiquei indignada !!! Ele não poderiam imaginar que um Brasileiro estaria ali olhando para ver o que erroneamente eles estavam vendendo como brasileiro. Peço atenção com a música árabe também, eles merecem, assim como nós merecemos o mesmo respeito.

    Bjo enorme parabéns pelo post !

    • lorymoreira disse:

      Então, Bruna… pegando o exemplo do pandeiro: podemos utilizá-lo de uma maneira mais folclórica como tb podemos usá-lo para fusões. É simples: o pandeiro é um elemento que está ligado à cultura cigana e fica fácil-fácil pensar em diferentes formas de leitura.
      Se nós formos entrar no rigor tradicional, os únicos elementos utilizados de fato pelas egípcias em seus shows são o bastão e os snjus.
      Os elementos estão aí e as possibilidades de usá-los para fusões é imensa!
      Só nos resta a criatividade de explorá-los!

  6. Natalia Salvo disse:

    Oi Lory!
    Eu acreduto piamente em danças como a da Shirley, porque hoje em dia é difícil ver algo assim. As danças folclóricas tem cara de clássico, a maioria (e eu tenho que ficar muito de olho em mim pra não fazer isso tambem). Eu senti vontade de dançar vendo esse vídeo, e acho que o espírito tá bem por ai. Estou montando um said com bengala e galabia, e tive que relembrar muitas coisas de said que eu tinha simplesmente apagado da cabeça. Acho que o clássico faz lavagem cerebral na gente, ai a gente se joga pra fazer um melea, uma bengala e ai dá no que dá: a mesmice da pontinha, a mãozinha, a carinha de diva e tudo o mais.
    E olha, torci o nariz quando cê falou Amani, porque eu nem sou muito fã não, viu? Não gosto do jeito dela, sei la. Mas ela ganhou 350 pontos comigo nesse video que você postou. Curti e alguma coisa nela, não sei o que, me lembrou uma dança da Esmeralda no Corcunda de Notre Dame de 1956 (esse aqui http://youtu.be/FWzPdoS5myc), guardando as devidas proporções de cada dança, é claro, mas acho que o que vi em comum foi a entrega, o dançar de peito aberto mesmo, sei la. Ou vai que eu pirei de vez, rsrsrs.
    Beijocas, beijocas.

    • lorymoreira disse:

      Graças a Deus que nos permitimos pirar de vez junto com a Amani! Se não fosse isso, arte não seria arte. Apenas reproduziriamos modelos certinhos e caretas sem a possibilidade de inovação e criatividade, né mesmo?

    • PS: GENTEEEE… a Amany se POSSUI nesta apresentação hein… rsrs…nossaaa…eu ví baixei o vídeo mas só ví depois de escrever meu comentário, mas não podia deixar de registrar isso aqui… rsrs… adorei!!!!!!!!!!!

  7. jamile disse:

    Lory, sou suspeita pra falar desse post pq sou muito fã dos elementos, em especial do pandeiro! o segundo solo da minha vida, inclusive, foi com esse elemento (e já fiz outros tb!!). mas, infelizmente, sem muito conhecimento técnico por falta de quem ensinasse, estudando sozinha observando grandes bailarinas… enfim…

    agora tô estudando bengala com Mell Borba e adorando!

    aguardo seus próximos posts com ansiedade!!

    beijão

  8. Maíra Magno disse:

    Mais um post fantastico! olha que engraçado, eu estava justamente lembrando da Najua essa semana, cada geração tem uma diva da dv, fui da geração da Najua, depois passou a ser a Soraya, antes do Egito, depois a Carlla Sillveira e agora é a karina.
    Todas otimas. Sobre os elementos na dança, na época eles me incomodavam um pouco p~q minha referencia era e sempre foi as egipcias e eu nunca i najua foad, suhair, fifi, com algo mais que veu, snujj ou bastão. Naquela época, anos 1990, o povo do brasil nao ia pro oriente, agora tem os 2 festivais do cairo, festival da luxor 2x por ano, a ponte Egito Brasil ta muito mais proxima, aí o pessoal viu que la realmente nao rola espada, 500 tipos de veu, punhal, flor, cobra, lambari, galhina, avestruz….
    mas rola a interpretação de cada estilo musical é isso que conta la
    como aqui o pessoal nao fala arabe, nao estuda musica arabe e a cultura é bastante diferente da nossa, essa aproximação deu uma aparencia de ter ” empobrecido” um poouco a dança. Mas eu, pessoalmente prefiro assim. Pra mim não ha comparação do que se dançava no brasil nos anos 90 pra o que se dança hoje, o nivel tecnico é extremamente maior o cuidado na produção, a kk ta fazendo um trabalho com as super noites do harém que parecia impossivel perto do que faziam nos anos 1990.
    Eu particularmente prefiro assim, não é perfeito, mas é beeeeeem melhor!

    • lorymoreira disse:

      Então, tecnicamente evoluimos muitooooooooooooooooo.
      Não estou propondo que dancemos como antes, mas que dancemos como agora fazendo uso dos elementos.
      E se a gente se inspirasse tanto assim nas egípcias, Maí, não íamos ter esse exagerado uso do véu e das suas inúmeras variações: wings, fan veil, poil veil… afinal de contas, isso tb não faz sucesso por lá.

  9. Oiii Lory!!! a tempos eu não lia seu blog e graças a minha amiga Natália Salvo que enviou o link pelo facebook cá estou…
    Adoro seus textos e este então…nossa…falou tudo!!! penso o mesmo que vc, acho que hoje em dia as apresentações de dança estão como que feitas em série…assim como as bailarinas…muito paetê para pouca personalidade!!! rsrs… são cópias fiéis e idênticas de profes famosas…e acho isso tudo uma pena…
    A tempos ando me ensaiando para criar algo folclórico, mas como tenho sempre uma grande preocupação em fazer algo legal e não apenas copiar como muitas fazem por aí, ainda não criei nenhuma para eventos…ontem até estava dizendo isso para uma amiga, que quero muito um pandeiro bem lindo…rsrs…
    Muitas vezes saio de uma apresentação e bate o fantasma PUTZ poderia ter feito muito melhor…mostrar mais variação de movimentos…eu tenho nível técnico pra isso…mas aí vem o anjinho do outro lado do ombro: CALMA…vc dançou com o coração…não importa se não fez shimi com ondulação de ventre a lá Jillina…ou o deslocamento Randa…ou os giros incríveis da Lulu…
    Outra coisa que não me entra é dançar 100% coreografado!!! afff… não consigo…já tentei…mas aí embaralha todo o cerébro…e no fim não faço a coreografia …nem danço com meu estilo pessoal e me senti péssima!!!
    Então hoje em dia estou trabalhando muito isso dentro de mim, não quero ser cópia de ninguém!!! prefiro dançar de uma maneira mais “simples” entre aspas mesmo…rsrs…do que fazer uma apresentação perfeita 100% coreografada com movimentos dificílimos mas SEM ALMA!!!
    Acho que o folclore nos traz isso, esta liberdade, esta emoção, esta espomtaneidade, e é isso que desejo para a minha dança, já entrei em cena com uma platéia fechada, onde eu pensei JESUIS o que eu to fazendo aqui… e depois de 1 minutos ví os olhares se transformando, os sorrisos aparecendo… por fim…pessoas alegres, emocionadas ou até chorando dependendo da minha música ( amooo as músicas clássicas tipo as da Om ou as da Al Ahran Orquestra…) e isso é o que me move na dança!!!
    Agora meu desafio é seguir meu caminho, meu estilo, também através do folclore, com certeza vc me ajudará e muito através dos seus posts amiga…BRIGADÚ!!!rsrs…

    Bjsss

  10. Elaine Aliaga disse:

    Flor, adoro um pandeiro. Na verdade, adoro um folclore, rs.
    Prefiro o uso dele menos marcadinho e coreografado, como um instrumento de percussão e gracejo vez ou outra. Também acho bacana incluí-lo como momento “terra”, com batidas fortes e impacto (sem pirar na batata), por isso adorei o vídeo da Amani.
    Não curto muito o trabalho dela em linhas gerais, mas curti a perfeita harmonia que ela empregou entre Om e pandeirão.
    Ah, sobre a Nájua, nunca fui muito fã dela, hoje até curto um pouco mais, mas na época que comecei a estudá-la não era grande fã, preferia a Gi Bomentre.
    Isso me fez lembrar uma peculiaridade da Nájua: é fato comum em seus vídeos vê-la contorcendo os lábios, pois ela, frequentemente, “comia” o cabelo (ou ele grudava no batom). Eu ria muito vendo isso pq tirava meu foco da dança dela e me deixava agoniada até “aquilo sair” da boa.

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