Dançando com os elementos: tradição, ousadia e inovação VI

Hoje vamos conversar sobre os snujs – um instrumento da música árabe que pode ser utilizado pela bailarina enquanto ela dança. É um dos poucos elementos que vemos realmente as egípcias usando – as de hoje e as bailarinas da época de ouro como a Taheya Carioca e a Souher Zaki.

Mas, pelas bandas de cá, usa-se muito – muito pouco (ah… enganei você!).

É fato que tocar e dançar ao mesmo tempo é um exercício refinado e que exige bem mais da bailarina do que dançar sem se preocupar em bater os pratinhos.

Mas, pensa bem: as bailarinas não dançam com snjus por medo de desafios? Combinemos que essa onda balética cheia de pliês e chasês é muito mais difícil do que fazer uns shimmies tocando snjus… Vai entender cabeça de odalisca…

Tudo me parece ser uma questão de escolha. E dançar com os snjus não é a escolha da maior parte das bailarinas de dança do ventre que conheço. Para ser bem otimista, não é a escolhe nem de 90% delas.

Snujs não está na moda, neste momento, no mundo bellydance, embora seja um elemento extremamente tradicional e divertido.

Quem tem feito bom uso dele, e nos feito babar, são as meninas do tribal. Aliás, elas sabem aproveitar bem tudo que parecemos rejeitar: criatividade, performances de grupo e excelente utilização dos snujs.

Uma pena que enquanto bailarinas do ventre temos deixado esse elemento de lado. É muito bom (mesmo!) ver uma performance onde a bailarina além de dançar bem, domina os snjus. No outro extremo, é uma catástrofe ver uma bailarina matando os snjus e a música.

Pra dançar com ele, a gente precisa ter muita segurança do que faz. É fato.

Como todo elemento, exige um bocadinho mais da bailarina e é preciso investir tempo e esforço para fazer bonito.

Eu particularmente gosto muito deles! Tenho estudado há alguns meses, após um periódo em que me distanciei completamente dos bichinhos. E um aviso para às mederosas de plantão: é bem mais fácil do que parece. Basta a gente pegar o jeito, apurar nossos ouvidinhos e não desistir nas primeiras tentativas.

Nós somos bailarinas. Não precisamos tocar a música inteira. Mas também, logicamente, não podemos neglicenciar que temos um instrumento nas mãos e usá-lo apenas como enfeite de odalisca. Snujs definitivamente não é enfeite de odalisca.

Como exemplos de boa utilização dos snjus, trouxe algumas performances bem bacanas pra gente se inspirar, discutir, opinar e estudar.

Pra começar esse grupo que simplesmente arrasa: Arabesque Dance Company.

O Arabesque Dance Company é a maior referência para trabalhos de grupo em dança do ventre do mundo, na minha humilde opinião. Esse vídeo apresenta uma coreografia bem simples para os padrões de desenhos coreográficos deles, mas não menos requintada e classuda.

A coreógrafa, Yasmin Ramzy, escolheu usar os snujs apenas na segunda parte da música (após o terceiro minuto) e fazê-lo de forma simples. As bailarinas executam os snjus em resposta ao som dos músicos em cena. Elas fazem marcações sutis sem necessariamente ler uma frase inteira ininterruptamente. Essa é uma boa saída para quem ainda não domina completamente o instrumento. Marcar alguns ta-ka-táh´s é divertido, quebra a dinâmica da apresentação e não é tão complexo do ponto de vista técnico.

Mas, combinemos, que a cereja do bolo dessa performance é fazer tantas mulheres tocarem harmoniosamente os snjus! E o detalhe: com música ao vivo! Mandaram muito bem, non?

Agora, dá uma olhada nessa moça aqui:

Então! A Autumn é, pra mim, a maior referência em dança com snjus. Por que? Simples: porque ela usa o elemento como se fosse uma parte do corpo dela. Percebe como ela toca continuamente com ele? Faz algumas pausas necessárias e pronto. Manda ver no snjus com uma competência que poucas têm.

Sei que a maioria das bellydancers de plantão deve estar se perguntando porque eu não falei ainda da Ansuya, bailarina norte-americana que é referência para muitas na utilização dos snjus. Vou explicar: o problema é que não acho a Ansuya uma bailarina-suspiro.

Bailarinas suspiros são essas que emocionam o coração da gente, que fazem a gente suspirar quando a vemos dançando. Lógico, isso é muitooooooooooo pessoal. E eu não suspiro nadinha com a Ansuya…

Já essa moça do vídeo aí em cima tem toda a faceirice que admiro aliada à competência técnica e a quilos carisma – suficientes pra dar e vender. E sim, é uma bailarina-suspiro.

Agora, falemos de coisas mais ousadas.

Quel tal esse vídeo aqui?

Fala sério se a Luana não faz uma baita falta no mundo bellydance?

Considero essa apresentação de uma qualidade artística impecável: tocar snjus apenas em cima de uma voz é um risco grande porque não há outro som que disfarce um erro – toda a atenção, naquele momento, está apenas ali na bailarina, na voz da cantora e no toque dos snjus.

E a escolha da música foi surpreendente! Eu nunca teria imaginado dançar dança do ventre com essa música, mas a Luana o fez e de forma muito bonita, criativa e sensual.

Por motivos semelhantes, esse outro vídeo também merece meu destaque:

Eu vi essa apresentação do Grupo Kairós sendo gestada e, depois, executada. Acompanhei o passo-a-passo e posso dizer que essa performance foi uma loucura que deu certo – como tantas loucuras vindas da cabecinha de Bela Saffe.

Essa dança foi um número de um espetáculo todo feito com música ao vivo, mas que, para esse momento, os músicos sairam de cena. Ficaram as três bailarinas que tinham o desafio de tocar harmonicamente seus snjus e executar de forma igualmente harmônica a coreografia de ATS (american tribal style).

Notem que nesse vídeo as meninas utilizam maneiras diferentes de bater os snjus. Sim. Isso pode ser feito: bater os snjus da mão direita com a esquerda, bater os snjus de forma mais ôca pra intercalar com a batida mais comum – aquela bem agudinha. Isso não é blefe: aprendemos com o músico Douglas Felis.

Até então a gente tinha uma visão bem limitada do uso dos snjus, mas o workshop com ele abriu um leque de possibilidades infinitas. Podemos ser mais criativas no uso dos snjus, caras bellydancers.

A gente não apenas pode escolher uma maneira mais criativa para fazer uma apresentação com esse elemento como a Luana, por exemplo, como também pode experimentar outras formas de tocá-lo.

Mas, pra isso, é preciso estudar. Se puderem, façam uma aula com um músico que domine o instrumento e possa te ajudar com a parte musical. Depois parta para aulas de dança com o toque de snjus com uma boa professora. Se você não tiver acesso a um músico, escolhe uma professora que já tenha tido e possa te ajudar nessa caminhada. É sério: faz toda diferença!

Depois é só treino, treino e treino!

Snjus é um elemento que, quando bem executado, levanta o astral de qualquer evento de dança do ventre. Vamos recuperá-lo ou eles continuarão esquecidos dentro de sua gavetinha?

Quer ver mais vídeos? Clica aqui.
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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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10 respostas para Dançando com os elementos: tradição, ousadia e inovação VI

  1. Amei o teu blog, Lory! E amo snujs também, apesar de não dançar e ser apenas uma apaixonada pela dança do ventre e autodidata há uns bons anos hahahaha. Vou continuar te fuçando, agora, e visitando sempre!

    Abraço!

    http://pardeolheiras.blogspot.com

  2. Ju Sobral disse:

    Lory arrasou! É matéria de estudos para minhas alunas no próximo semestre, vou compartilhar seu blog com elas, djá! Mais uma vez obrigada por iluminar minhas idéias, um beijo

  3. Olá Lory!
    Adorei o seu post e principalmente seu blog, que por sinal já acompanhava antes de criar o meu e agora está nos meus links!
    Caracas, ñ é nada fácil dançar com snujs! Falo por mim que até conseguia me movimentar bem tocando os pratinhos, mas fiquei uns 6 meses afastada e acabei enferrujando. Sinceramente, snujs é muito estudo mesmo, pois pra fazer seu corpo esquecer o que seus dedos estão fazendo não é nada fácil… agora estou ralando para recuperar a sincronia…
    Beijos!!!!!!!
    Até mais!!!!!

  4. Maíra Magno disse:

    adoro snujj monto uma coreografia pras meninas pelo menos uma vez a cada 2 anos, a ultima vez que elas dançaram em salvador dançaram um snujj. Bella tb apresentou um numero de snujj lindissimo aqui em aracaju em 2008, não sei pq o povo nao dança com snujj, na boa eu nao acho tão dificil assim, derbak é 10X mas dificil e o povo dança o tempo todo

  5. Só vc msm pra escrever um texto com tantos argumentos seríssimos e certíssimos…Bjsssss

  6. Adriana disse:

    Olá, Lory! Sou aluna da Ju Sobral. Como é o nosso desafio dos próximos meses ela nos passou a “lição de casa” de ler o seu post e eu AMEI!!
    Obrigada pelas dicas e pelos vídeos. Serão muito úteis nos nossos estudos. =)
    Beijo

  7. Elaine disse:

    Flor, eu amo snujs, nunca parei de dançar com ele!
    Eu considero um elemento tão descontraído e “brincalhão” quanto a dança baladi, aliás, eles se casam perfeitamente.
    O Arabesque arrebenta em qualquer dança que apresenta, impressionante…
    Só com muito ensaio é possível se apresentar com música ao vivo.
    A Autumn mandou bem no toque “cavalgada”, na velocidade que ela executou exige bastante treino para agilizar os dedinhos.
    Quando assisti ao “Dançando à meia noite” esta performance da Luana com os snujs ainda não tinha sido inserida, uma pensa, queria ter visto ao vivo. Quando ela criou o Eksotik já estava se desprendendo da dança do ventre.
    Eu não gostei dessa performance nas primeiras vezes que vi. Hoje, revendo, ela me caiu melhor… curioso!
    A Luana me deu uma das melhores aulas de snujs que já tive, aliás, são seus conselhos que eu sigo até hoje.
    Para começar, percebe que ela usa apenas um toque e vai nele até o fim? Pois bem, esse foi um dos conselhos dela. Perceba as antigas tocando, é a mesma coisa.
    Trabalhamos no curso 3 toques.Um deles era esse conhecido como “baladi” (ritmo), o 2° era a “cavalgada” que foi o que a Autumn usou em grande parte da música e o 3° não me recordo ao certo, mas acho que era uma espéci de cavalgada curta com 3 toques. Tenho anotado em algum caderno…
    Ah, a Luana também fazia aula com o Maurício Mouzayek, então aí vai a presença novamente de um músico em cena.
    Quando eu estudo snujs, encontro o momento da música em que ele se encaixa sem tirar o brilho de outros detalhes como a voz do cantor, o solo de um outro instrumento etc. Depois penso em como ele ficaria bonito complementando aquele som (veja bem, complementando, não imitando) e toco como se aquilo fosse uma brincadeira, uma improvisação.
    Não gosto de ficar seguindo o derbaque como a maioria das minhas professoras insinou, acho isso tão pobre e previsível. Um saco ficar executando ritmozinho com os címbalos…

  8. Hanna Aisha disse:

    Lory, acho que temos mais em comum que eu imaginava!
    AMO SNUJS e danço com frequência!
    Snujs deve ser dado, para mim, com um ano de dança para já introduzir ritmos e desenvolver habilidade.
    Minhas meninas têm uma coreografia de shaabi com snujs, só não coloquei na net ainda. E eu tenho um video, só que o cara da edição colocou o audio (com delay) por cima… http://www.youtube.com/watch?v=ZCA8BTUyHeA

    Logo, me incluo nos 10% restantes! heheheheheh

  9. Carla disse:

    Pena que nunca tive paciência para o som do snuj, que é lindo, mas me dá uma dor de cabeça, rs. Hj, lendo seu artigo, deu vontade…

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