Sobre crises e identidade (ou sobre crises de identidade)

As crises fazem parte de nossa vida e assombram nosso íntimo da infância à terceira idade. Elas geralmente são marcadas por momentos de mudanças, sejam elas mínimas ou mais intensas. Cada pessoa se comporta e reage de uma forma diferente a elas. Umas deprimem, umas surtam, umas rebelam-se, outras paralisam.

A maioria de nós já viveu diversas, de formas e intensidades distintas, com temas disparadores completamente variados.

Se você é bailarina de dança do ventre, com certeza já teve alguma crise com a dança. Sinceramente, acho que não conheço nenhuma criatura “bellydancer” nesse planeta que não as tenha enfrentado, pelo menos, uma vez.

São mulheres abaladas pelas agruras do mundo da dança do ventre. Ilusão nossa achar que tudo são confetes… É a competição entre profissionais e escolas, a decepção com o meio, as fofocas, as dificuldades de evolução técnica, a falta de tempo para se dedicar, a ausência de um espaço interno ou externo onde possa construir com tempo e calma sua verdadeira bailarina interior… E é sobre esse último quesito que gostaria de discorrer esse post.

Não me recordo de ter lido, em nenhum lugar, um artigo sobre a construção da identidade da bailarina de dança do ventre. Que é mesmo isso?

Em uma rápida consulta ao Wikipédia, acho a seguinte definição para o conceito de identidade: é o conjunto de caracteres próprios e exclusivos com os quais se podem diferenciar pessoas, animais, plantas e objetos inanimados uns dos outros, quer diante do conjunto das diversidades, quer ante seus semelhantes.

Pra ser mais simplista, identidade é aquilo que define a bailarina que você é. E não adianta dizer que você é a cópia da Jade el Jabel. Cópia não é identidade – identidade é aquilo que você constrói como unicamente seu.

Agora, a pergunta que não quer calar: é realmente possível manter uma identidade singular em um meio que estimula a cópia e a padronização?

Qual a sua identidade, bailarina? Qual a sua impressão digital? Sua marca única e indelével?

Acredito sim ser possível e saudável ter uma identidade completamente singular mesmo em um meio tão propício aos clones. Acontece que sustentar essa identidade é um exercício constante de desconstrução e reconstrução porque a sua professora, as suas colegas de sala, suas rivais de palco, suas musas inspiradoras – todas elas têm uma identidade própria e é a partir delas que você deve dar espaço para a construção de sua própria identidade.

É aquele jeito só seu de começar um oito, um movimento de braço que se encaixa perfeitamente no seu corpo, um olhar único, um jeito de ajeitar o cabelo ou de sorrir. Muita gente ajuda a construir a bailarina que você será, mas somente você poderá dizer quem ela é.

Mais difícil do que ter essa identidade é, realmente, sustentá-la. Se a pessoa resolve seguir carreira profissional, então, o caminho ainda é mais árduo. Como manter-se fazendo aquilo em que acredita com as contas chegando sem parar? Como manter-se no mercado sem aderir aos apelos modernistas vindos de todo canto do mundo, inclusive do próprio Egito?

Somente as mulheres de fibra conseguem sustentar publicamente suas identidades singulares. Ainda bem, conheço diversas delas. Mas também conheço inúmeras que ou perderam de vista a bailarina que são ou estão em processo de reavaliação sobre si mesmas. Essas mulheres são ainda mais dignas de minha admiração. Mais fácil do que viver uma crise até o final é interromper o problema. Abandonar a dança é uma constante em episódios de crise. Quantas de nós já não pensou nisso? Quantas já não o fez? Quantas não precisaram fazê-lo para poder voltar mais forte?

Admiro quem enfrenta seus medos, suas dúvidas e seus quereres. Admiro quem vive suas crises até o fim e reconstrói suas expectativas, suas metas e a forma de viver e encarar a dança.

Eu tenho feito isso a 9 anos e não me arrependo nem por um segundo de cada vez em que voltei atrás, revi conceitos, mudei de ideia e construí uma nova versão de mim mesma. E é porque a gente pode voltar atrás que a gente não precisa desistir do caminho. E isso também fará parte da nossa singularidade – pra todo nosso bem e pra todo nosso mal.

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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9 respostas para Sobre crises e identidade (ou sobre crises de identidade)

  1. Janaína disse:

    Lory, lindo o seu texto!! E ele serve não apenas para a dançar, serve para a vida também. Beijos

  2. Samara Leonel disse:

    Exato. Morro de orgulho.

  3. Hanna Aisha disse:

    Baby,
    tava já rascunhando um post sobre uma vertente desse seu texto, obviamente vou citá-la.

    Acho que a construção dessa identidade é a coisa mais difícil de se obter na carreira de DV. Eu ainda não sei qual é a minha exatamente (coisa que acho que você só começa a desenvolver quando profissionaliza e busca seu próprio caminho), mas já exclui varias coisas.

    Seria interessante fazer essa reflexão. Aliás, acho que estou precisando fazê-la.
    Beijos

  4. Lindooo texto!!! perfeito em cada palavra!!! as crises são realmente o combustível para a evolução, em todos os setores, na dança não é diferente, eu também já vivi, e ainda vivo meus momentos de crise, e a cada uma delas saio mais forte, mais decidida, mais madura, mais evoluída…sabendo para onde quero ir e onde quero chegar…

  5. LuArruda disse:

    eu volta e meia penso nisso, construo e desconstruo opiniões. quando eu fazia ballet, antes de ser solista, fiquei anos no corpo de baile. meu maior sonho? era ser igual a todas elas. a perfeição da simetria, formas, expressões e movimentos que um corpo de baile de respeito pede. ponto. aí na Dv a gente – me incluo nessa – busca a individualidade, a marca especial, a identidade , o tempo todo. o destacar-se – que no ballet só me era reservado em solos – é a constante da dv. isso me acalma e enfurece, o tempo todo. pronto, desabafei. se é certo ou não, não sei, mas é como sinto. e depois de ter visto tanto show, tanto dvd, tanto estudo, tem momentos que eu j´nem sei se o ‘passinho’ tal que eu faço e fica lindo, é meu mesmo, ou copiei de alguem. triste né? 😦

    • lorymoreira disse:

      Flor, não dá pra construir uma dança sem se inspirar e até mesmo copiar passinhos de alguém. Pelo menos, eu não acredito nisso. Acredito que cada uma deve buscar o seu modo de executá-lo. Isso que torna a DV mais interessante, como vc mesma já disse – é a singularidade e a diferença de cada mulher que dança que tempera nossa arte.

  6. Maíra Magno disse:

    eita então eu fujo dessa regra nunca tive crise de identidade na minha vida de bailarina, enm tive problema algum em me encontrar qd chegou a hora certa e nem sei como seria mudar de identidade, nunca tentei, nunca troquei, qd eu estava no hezzy tentaram forçar a barra pra eu virara outra coisa, deus que me livre, por isso cai fora, antes cair fora que me perder

  7. Lucy Linck disse:

    Post lindo, Lory!
    Ando nesse clima ultimamente…fechando tanto com o meu momento!
    Botando de lado tudo que me faz mal (incluindo estresses desnecessários, picuinhas bellydance e pessoas de ego inflado) e correndo atrás do que me faz feliz. E percebi que justamente o que me faz feliz é ser eu mesma. Ando celebrando essa renovação!
    Beijos, amore!

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