Afinal, pra que serve a arte?

Quantas vezes já não vimos discussões sobre isso? Quantas reflexões, teorias e abstrações?

Pois bem, dessa vez, vamos usar palavras mais simples, caras leitoras. Simples, tranquilas, sábias e que comungam exatamente com tudo que já foi dito sobre esse tema, mas de uma maneira que, até então, eu nunca tinha imaginado.

Deleitem-se com a crônica da Martha e, em seguida, permitam-se fugir de casa.

Abraços,

Lory

***

Fugir de Casa

Qual é a criança que nunca sonhou em fugir de casa? Todo mundo tem uma experiência pra contar. A minha aconteceu quando eu tinha uns sete anos de idade. Depois de ter minhas reivindicações não aceitas – provavelmente eu queria um quarto só pra mim e não precisar mais escovar os dentes – preparei uma mochila e disse “vou-me embora”. Tchau, me responderam.

O quê??? Então é assim? Abri a porta do apartamento, desci um lance de escada e ganhei a rua. Fingi que não vi minha mãe me espiando lá da sacada. Fui caminhando em direção à esquina, torcendo para que viessem me resgatar, mas nada. Olhei para trás. Minha mãe deu um abaninho. Grrrr, ela vai ver só. Apressei o passo. Dobrei a esquina, sumi de vista, e claro, entrei em pânico. Pra onde ir? Antes de resolver entre pedir asilo numa embaixada ou tentar a vida numa casa de tolerância, minha mãe já estava me pegando pelo braço e dizendo que a brincadeira havida acabado. Fiquei aliviada, por um lado, mas a ideia de fugir ainda me ocorreria muitas vezes.

O desafio agora seria elaborar um plano mais realizável, pois estava aprovado que , sim, eu queria escapar, mas ao mesmo tempo queria ficar. O mundo lá fora era libertador, mas também apavorante. Eu estava numa encruzilhada : queria ser quem eu era, e ser quem eu não era. Qual saída? Ora, escrever.

Um plano perfeito. De banho tomado, camisola quentinha e com os dentes escovados, eu pegava papel e caneta antes de dormir e inventava uma garota totalmente diferente de mim, e que não deixava de ser eu. Fugia todas as noites sem que ninguém corresse atrás de mim pra me trazer de volta. Ia para onde bem queria sem sair do lugar.

Viva as válvulas de escape, que lamentavelmente não gozavam de boa reputação. Não sei quem inventou que é preciso ser a gente mesmo o tempo todo, que não se pode diversificar. Se fosse assim, não existiria o teatro, o cinema, a música, a escultura, a pintura, tudo o que possibilita novas formas de expressão além do script que a sociedade nos intimida a seguir: nascer – estudar – casar – ter filhos – trabalhar – e – morrer. Esse enredo até que tem partes boas, mas o final é dramático demais.

Overdose de realidade é a ruína do ser humano. Há que se ter uma janela, uma porta, uma escada para o imaginário, para o idílico – ou para o tormento, que seja. Ninguém é uma coisa só, ninguém é tão único, tão encerrado em si próprio, tão refém do que lhe foi ensinado. Desde cedo fica evidente que nosso potencial é múltiplo. Como segurar a onda? Fugindo de casa, mas fugindo com sabedoria, sem droga, através do espetáculo da criação, mesmo que sejamos nossa única plateia. Cada um de nós tem obrigação de buscar uma maneira menos burocrática de existir.

– Extraído do livro “Coisas da Vida” de Martha Medeiros

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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5 respostas para Afinal, pra que serve a arte?

  1. Muito legal Lory. Gostei muito pq sintetiza de fato o que eu, pelo menos, busco na dança. Acho que agora é até mais fácil de explicar porque a pratico para as pessoas que sempre perguntam me questionando “Se não é pra se profissionalizar/apresentar/dar aulas, então é pra que?”.

    Obrigada! Vou compartilhar esses pequeno momento de sabedoria! Beijos

  2. Gostei mt tbm….Realmente a arte existe como uma válvula de escape…bjs

  3. Marta Cardim disse:

    “Cada um de nós tem obrigação de buscar uma maneira menos burocrática de existir.”
    Fantástico!! Como não gostar de Martha Medeiros?

  4. Hanna Aisha disse:

    Amei. A Martha é a nova Lya Luft. Vou compartilhar.
    Beijos

  5. Adorei o texto… ainda bem que a arte imita a vida. Ou vice-versa?

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