Por que escrever sobre isso?

No último sábado, dia 02 de Junho, a Globo exibiu, em sua novela das nove horas, uma cena de uma despedida de solteiro onde supostas bailarinas de dança do ventre aparecem. Na cena há um ôba-ôba, aquela famosa e patética situação que há no imaginário de 90% dos homens de que odaliscas são garotas de programa que sabem rebolar a bunda e lhes fazer gozar.

Bom, eu não ia escrever sobre isso. Me senti muito satisfeita em compartilhar um texto de Viviane Amaral sobre o episódio, mas diversas pessoas me mandaram e-mails ou mensagens via facebook me pedindo que fizesse um post sobre o tema.

Lógico que o assunto mobilizou as bailarinas de dança oriental. Foram inúmeros comentários sobre isso, trocentas atualizações por minuto no Face e até rolou uma petição pública que eu também assinei – mas sem estardalhaço.

Mas porque eu, que costumo ser a indignada-mor, não dei uma crise histérica com o assunto? Eis aqui, caras leitoras, a minha experiência: sou terapeuta ocupacional há quase 15 anos (5 anos de faculdade mais 10 de formada) e é humanamente impossível descrever a revolta que me atingiu inúmeras vezes, desde a graduação até os dias atuais, referente a maneira como a mídia, principalmente a Globo, mostra minha profissão.

Ouvir de um leigo que fazer crochê é uma terapia ocupacional é até compreensível, mas ver isso em horário nobre e em rede nacional é dose de matar elefante. E não se enganem: isso não aconteceu 1 ou 2 vezes – isso é uma constante.

Daí que a gente aprende a ficar mais atenta à maneira como a televisão manipula os clichês, reforça conceitos errados e propaga a desinformação e o desrespeito.

E a situação não fica só entre os terapeutas ocupacionais e as bailarinas de dança do ventre.

Quem se lembra daquela cena de uma novela das nove da Globo onde Helena, a personagem de Taís Araújo, apanhou, ajoelhada no chão, de Lilia Cabral em plena véspera do dia da Consciência Negra? E o recente episódio de não-ficção onde uma repórter da Band ridiculariza um rapaz acusado de assalto e estupro?

Pois bem, garotas. Não somos as únicas a reclamar. E, por experiência própria vou ser bem direta: reclamar somente, não resolve. A gente precisa é parar de ficar olhando para o próprio umbigo e refletir sobre a nossa contribuição com a manutenção disso: se a mídia manipula e exerce poder é porque demos esse poder a ela.

Aliás, refletir é uma coisa que não temos muito o hábito de fazer, né?

Quer um exemplo? Postei no meu facebook uma excelente crítica da Eliane Brum sobre o episódio da ridicularização do rapaz acusado de assalto pela repórter da Band (que já mencionei aqui). Sabe quantas bailarinas de dança do ventre curtiram ou comentaram ou compartilharam? Nenhuma. Sabe quantas eu tenho adicionadas no meu face? Pra mais de cem…

Agora, se eu postasse uma imagem bonitinha escrita “eu amo dança do ventre”? Será que eu não teria umas trocentas “curtições”? Pois é…

Li de tudo na internet sobre esse malfadado episódio das odaliscas-prostitutas da novela. Até de gente que disse que não ia falar sobre isso, mas que ia fazer uma crítica sobre profissional de dança árabe que diz que leva a dança a sério e faz curso para ensinar coreografia no dia dos namorados. Putz!

Faz isso, cara colega. Faz isso. Enquanto você crítica a dona da escola concorrente e eu crítico você, as coisas permanecem como estão.

Sabe, desses episódios que citei e de todos os outros que já vi e acompanhei, os únicos que tiveram algum tipo de posicionamento da contraparte foram aqueles onde havia organização por parte dos sujeitos que se sentiram atingidos.

O movimento negro está aí para dar o exemplo pra quem quiser seguir: persistência em suas causas, defesa de suas ideias, valorização de sua gente e organização de classe. O resto é tambor: muito barulho, mas oco por dentro.

Deveriamos é tomar esse episódio como lição para nos lembrarmos que nós, autoras de blogs, também cumprimos nossa parte na manutenção ou não desse belo quadro social. Que tipo de uso tenho feito do meu blog? E pra quem não escreve em blog, cabe o mesmo tipo de indagação para as coisas que você posta no Facebook.

Canso de ver gente compartilhando vídeo de bailarina que fez feio – só pra avacalhar a criatura. Avacalha com ela, sim, mas avacalha mesmo é com todas nós, enquanto classe.

Eu nem ia escrever sobre isso. Mas já nem estou mais achando a ideia ruim. Se é para dar alguma contribuição sobre esse assunto que seja nos fazendo refletir sobre o tema.

Um abraço!

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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13 respostas para Por que escrever sobre isso?

  1. escreva sim e faça a diferença. eu estou rascunhando a cláusula de recomendação profissional para mídia e publicidade da ANDAR , nossa tentativa de efetivar a organização e representação da nossa arte, também deixei um pedido para Lulu Brasil utilizar sua influência e lutar pela causa. É isso! é muito? não. é pouco? é o que posso fazer. Agora espero que todas nós façamos algo, se realmente queremos uma dança com caráter artístico. e adorei tua reflexão sobre o avacalhar. se for pra falar, que seja útil e para todo o segmento. torço por isso, sempre! bjos

  2. Gostei muito da forma como foi colocada, pois eu tentei olhar a questão por fora (quando estamos dentro do furacão tudo pode parecer muito pior), afinal no capítulo em questão outras “fantasias” foram colocadas como a de policial e a de noivinha, mas uma coisa é certa, a dança é vista de forma diferente – erroneamente erotizada -, o que não acontece com as outras “fantasias” mencionadas. Realmente, não dá pra analisar de fora, sendo que nós, que estamos dentro desse meio, sentimos o peso dos olhares disfarçados (algumas vezes nem disfarçados) e os comentários jocosos quando mencionamos a dança. E, claro, o estereótipo veiculado nesses meios só faz reforçar isso. Aplaudo sua opinião – que já foi divulgada!
    Ps: Eu acabo de descobrir seu blog – e ainda nem conheço seu perfil no FB – mas se tivesse visto antes teria tanto comentado quanto compartilhado seu comentário sobre o caso do acusado de furto que foi avacalhado pela repórter da Band, pois foi o que fiz daqui de meu humilde perfil – não tenho blog – quando nos perfis da rede de tevê mencionada quanto no da Defensoria do estado e do MPF. Graças à mobilização algo está sendo feito nesse caso por ambas instituições (claro que quanto à Band, não se pode esperar muito, nem a demissão da repórter vai mudar o tipo de programação por enquanto).
    Att.
    Ludmila

  3. Hanna Aisha disse:

    Eu não me manifestei com fervor por dois motivos: 1, eu conheço pessoalmente duas das meninas que dançaram a e 5a. que coordenou e não apareceu no vídeo e sei que elas são meninas estudiosas e dedicadas. Acho que elas cometeram um erro sim e houve certo exagero na acusação das mesmas. E outro, se fossem famosas, DUVIDO que as pessoas reagiriam do jeito que reagiram. 2, acho que ficar reclamando e criando fotinho no Facebook de indignação não leva à nada. O que estou valorizando sim, é o movimento da petição pública que mostra uma mobilização das profissionais.
    Beijos e sempre continue escrevendo Lory, sempre quero ouvir vc!

  4. Juliana Cruz disse:

    Penso da seguinte maneira, pouco me importa se as meninas que dançaram são ou não estudiosas, elas foram ingênuas ao não perguntar sobre o que se tratava a cena e como isso seria retratado. Regra número 1 para qualquer profissional de qualquer área: pergunte tudo sobre o trabalho que irá desempenhar…Simples.

    Dito isso, não vi nada tão absurdamente condenável. Elas eram o que nas cenas? Animadoras de festa, chacretes bonitas, o exato papel desempenhado pelas dançarinas de dança do ventre em festas árabes…Ah, mas em festa árabe não rola sanduíche? Mas rola dinheiro no corpo, na roupa, gente te chamando de charmuta e até bellydancer dançando em cima da mesa…Elas não fizeram nada além do que centenas de profissionais, algumas BEM famosas, já fizeram… O triste é que estudamos a vida inteira pra chacoalhar peitinho e fazer básico egípcio simplesmente porque não existe espaço, interesse e talvez vontade para fazer outra coisa…

    A dança do ventre tem vários problemas, mas acho que dois são mais urgentes: primeiro, as dançarinas precisam descobrir o que dançam e o que isso significa, não dá pra chamar dança do ventre, dança oriental e danças árabes de sinônimos, nunca foram, nunca serão. Ou somos uma dança performática ou somos folclore, sendo assim, a asneira máxima da dança que representa essa tal cultura árabe unificada precisa parar de ser dita aos sete ventos…

    Segundo, recriamos a orientalizada dança do ventre cabaret desde a golden age e somos incapazes de mostrar outras configurações possíveis. Não temos companhia, não temos palco, não temos um estudo que vá além da estética da dançarina sensual e cheia de técnica…Nada disso é errado ou ultrapassado, mas porque outras danças conseguem ir além do que já foi criado e nós não? Essa é a pergunta que não quer calar…

    Enfim, aproveitei e desabafei!rs

    bjs
    juliana

    • Carla disse:

      Olá Juliana Cruz, como sempre digo, sou completamente ignorante do mundo da Dança do Ventre, mas, quando exercia esta atividade lúdica em Sampa, sempre ouvi dizer que estas práticas de receber dinheiro no “corpo” e subir na mesa eram próprias da cultura árabe e que não eram nenhuma ofensa para a bailarina. Lembrei mesmo de… como é mesmo o nome… Fifi (lembrei, rs) dançar em cima de uma mesa, em um vídeo publicado no youtube, se minha memória não falha foi ela mesma.
      O problema não seria a festa árabe entre os árabes, mas com o olhar ocidental sobre isso. e talvez com o contexto ocidental de uma possível festa assim.
      Gostaria de saber se a minha informação está tão equivocada assim.

      • Carla, td bem? Apesar de dançar e pesquisar um pouco dança do ventre, esse não é o meu tema de estudos e por isso não acho que posso te afirmar nada…No entanto, eu não sei até onde é uma colocação equivocada dizer que aceitar dinheiro ou dançar sobre a mesa quando se está de uma cultuar machista em que o papel da mulher é fortemente definido especialmente na vida pública, como é o caso da maior parte dos países do OM, seria visto com bons olhos…É um costume machista, assim como vários outros costumes brasileiros, machismo não é uma exclusividade árabe, pelo contrário… Dançarinas e “prostitutas” – acabam ocupando o mesmo espaço no imaginário coletivo da maior parte desses países, dadas as devidas ressalvas que as generalizações implicam. Aliás, não só lá….aqui no Brasil dança do ventre tbm não é vista como arte…Aqui tbm fica uma dúvida não sei até onde o conceito de dança enquanto linguagem artística é comum no OM…

        Não acho que o problema seja dançar ou não na mesa, dançar ou não numa despedida de solteiro. Acho preocupante mesmo é com o fato de sermos um meio que não conhece a própria história, que insiste num elemento oriental que muitas vezes falta a dança, que precisa justificar a sua arte definindo ela como representante de uma cultura..será mesmo que a dança do ventre por si mesma não consegue se justificar?

        Felizmente cada vez mais as pessoas estão pesquisando dança do ventre e danças orientais no meio acadêmico e, com certeza, quanto mais formos conhecendo esses trabalhos, refletindo e estudando, mais vamos ganhar…

        PS: não teno ideia se existe um levantamento de profissionais de dança do ventre no Brasil, mas é uma boa pergunta. Acho que qualquer grupo organizado consegue visibilidade!:)

  5. Carla disse:

    Ah Lory, se alguém quer mesmo ouvir alguma coisa séria na televisão, recomendo um programa da Tv Brasil:

    VER TV. Horário:
    Nacional
    Domingo às 17h00
    WebTV
    Domingo às 08h00
    Domingo às 17h00

    O programa é “realização da TV Brasil e da Tv Câmara com apoio da Comissão de Dreito Humanos da Câmara dos Deputados”. O último foi “A polícia na Tv”. Veja no site.

    Agora, essa novela aí me dá náusea, toda ela e literalmente. Só se indignaram com esta cena? Desde ontem, resolvi achar que aquilo tudo é um teste de moralidade para as pessoas.

    Beijos.
    PS: minha mãe me chamou para ver a tal cena, mas cheguei tarde.

  6. Carla disse:

    Só mais uma questão, alguém já fez um levantamento de quantas professoras de dança do ventre temos no Brasil? É porque me pergunto se não seria o caso de inserir esta questão num contexto mais amplo. Acho que a sociedade não vizualiza a irritação de um grupo de dançarinas como um problema a ser levado em conta. Digo isso por conta da comparação com o movimento negro. Bem, estamos ficando para trás, se só nos indignamos quando uma mulher está vestida de “odalisca”.

    Dia 14 de junho, no Centro Cultural da Câmara Municipal de Salvador, haverá uma sessão especial com tema A mulher e o poder político”. Antes um pouco, no mesmo dia: a mulher e a reforma política. Procurem saber os horários direitinho, é só olhar no site ou telefornar, se interessar, é claro.

  7. Carla disse:

    Pena que não dá para responder diretamente lá no texto de Juliana. Em todo caso…

    Oá Juliana, quanto às questões do OM, eu só sei o que a mídia diz e eu não confio muito nela. Quando sou ignorante, prefiro calar. Desculpe-me não poder conversar com você. Aliás, tem um livro que quero muito, acho que Lory já leu: Orientalismo.

    “Acho preocupante mesmo é com o fato de sermos um meio que não conhece a própria história, que insiste num elemento oriental que muitas vezes falta a dança, que precisa justificar a sua arte definindo ela como representante de uma cultura..será mesmo que a dança do ventre por si mesma não consegue se justificar? ”

    Eu não entendi bem, o que é DV sem uma cultura que a justifique?

    Abraço e obrigada pela atenção.

  8. Juliana Cruz disse:

    Carla, me passa seu e-mail ou me adiciona no facebook. Não quero causar na caixa de comentários aqui…rs… É complicado usar a mídia tradicional como única fonte de informação, mas cada vez mais existem outras opções! A dança do ventre sempre é vendida como algo atrelado a “cultura árabe” como se de fato a representasse e não é por aí. Aguardo seu contato!

  9. Samara Leonel disse:

    Não comentei você sabe bem porque. Mas queria deixar bem claro que foi o melhor texto que eu li a respeito. Admiro-te toneladas.

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