Souher Zaki & Oum Khalsoum

Souher Zaki, umas das maiores bailarinas de dança do ventre de todos os tempos, foi também a primeira a se atrever a dançar as músicas de Oum Khalsoum – maior e mais importante cantora da música árabe, também conhecida como “A Voz do Egito”.

Até então, ninguém havia se arriscado a tamanha façanha – porque as músicas da Oum Khalsoum eram (e, de alguma forma continuam sendo) consideradas intocáveis devido à grandiosidade de sua orquestra e da profundidade dos sentimentos contidos em sua letra.

Li em algum lugar (desculpem não mencionar a fonte, mas realmente não me lembro onde foi) que Souher estava à espera do início de sua performance em algum cabaret, quando tocou “Inta Omri” e ela pensou “porque não dançar essa música?”. Segundo esse relato, ela se encantou com a possibilidade de ler com o corpo tamanha riqueza melódica e resolveu se arriscar. Após ter ensaiado com a banda por um dia, dançou Inta Omri. Sem que ela soubesse, a própria Oum Khalsoum estava ali presente e levantou-se para elogiar a banda pela excelente execução e, em seguida, elogiar Souher, lhe dizendo que ela conseguiu traduzir com a dança tudo aquilo que a música trazia de sentimento.

Após isso, Souher passou a ser conhecida como a “Oum Khalsoum da dança” e, para o bem de nossos olhos e alma, passou a dançar algumas das grandes obras dessa grande intérprete da música árabe.

Atualmente dançar músicas de Oum Khalsoum não somente é corriqueiro, como tornou-se um dos grandes momentos de um show de qualquer bailarina.

Dina e Soraia Zaied, duas atuais estrelas da dança no Egito, tornaram o momento do tarab (estilo musical no qual se insere as músicas de Oum Khalsoum) um dos ápices de seus shows.

De lá pra cá é óbvio que muita coisa se modificou – pro bem e pro mal. Se antes, dançar Oum Khalsoum era um momento de extremo sentimento para a bailarina, hoje vemos inúmeras moças dançando músicas da diva sem levar pro palco a grandiosidade da peça musical que interpretam. Lógico, muito se perdeu com a constante modernização da música árabe e a inserção de instrumentos eletrônicos – que definem um outro tom para peças imortalizadas como Hayarti Albi Maak, Alf Leyla Wa Leyla e Sirt el Hob.

Outra coisa que mudou de forma visível foi a predominância de marcações percursivas na leitura musical das bailarinas. Antes dos adventos Dina e Randa Kamel, bailarinas como Souher Zaki e Nagwa Fouad davam prioridade aos instrumentos melódicos – que hoje são praticamente relegados a segundo plano.

Muita coisa se transformou, novas maneiras de ler as músicas de Oum Khalsoum vieram, mas, pra mim, a maneira da Souher Zaki se relacionar com cada música da Oum ainda é extremamente rica e digna de minha admiração, além de ser a minha maior referência de estudo.

A gente aprendeu (refiro-me às bailarinas que estudam aqui no Brasil) que o tarab é puro sentimento e que precisamos traduzir a letra e a melodia de uma maneira visceral. E isso também é lindo, é verdade. Mas, observando a dança de Souher não noto nenhum traço desse sentimento profundo de dor. O que noto é a mesma expressão diáfana de sempre, além de um envolvimento delicado e comprometido com cada nota musical – sem o apelo da expressão e de movimentos de grande impacto e dos trancos que sacodem até a alma, tão usuais atualmente nas interpretações das músicas de Oum Khalsoum.

Me encanto com essa possibilidade de dançar Oum Khalsoum que a Souher resgata. De alguma forma, ela me desperta para o potencial que a dança do ventre nos traz de sermos exatamente aquilo que somos – sem a necessidade de copiar os passinhos da moda inventados pela Soraia, as paradas bruscas da Randa e a cara de dor da Dina.

A Souher me encanta, me fascina e me faz querer continuar dançando, mas, quando ela dança Oum Khalsoum, ela me devolve de volta para mim.

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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7 respostas para Souher Zaki & Oum Khalsoum

  1. Luísa Ruas disse:

    Adorei ler a matéria, foi muito construtiva. Não tinha feito a reflexão sobre a interpretação do Tarab ainda. É interessante que a gente precisa aprender algumas coisas e, conforme nos aprofundamos nos estudos, “desaprendê-las”. Hehe. Mas na verdade é tudo uma construção, acredito. Ficaria difícil entender o que é o tarab sem passar pelo processo. Quando ao sentir-se eu mesma, me sinto assim também, ao ver a Sohair. Ela e outras nós conhecemos. Quando tudo me desanima, seja na dança, seja na vida, essas bailarinas seguem a me transferir um pouquinho da alegria delas através dos vídeos. =)

  2. Lucy Linck disse:

    Lory querida, que perfeição esse texto! Me fez pensar…
    Beijo!

  3. lauradacunha disse:

    Adorei o seu texto! Extremamente pertinente! Acho que às vezes a gente acaba por forçar uma expressão mais “forte” só por ser tarab, mas como isso não é puramente verdadeiro acaba por ficar esquisito, com jeito de dor de barriga mesmo. A Dina é linda com aquela cara de dor porque aquela cara é a Dina. A Souheir é linda com sua expressão diáfana porque aquilo é ela, sabe? Falta às bailarinas encontrarem a si mesmas na dança, não só no Tarab. E isso é mesmo complicado, porque estamos dançando uma música de uma cultura que não é a nossa e na maioria das vezes não entendemos a letra (procurar a tradução e ficar estudando o que é dito em cada parte da música não é a mesma coisa que saber árabe). Difícil “se achar” assim, não é mesmo? Vou pensar mais sobre isso 🙂

    • lorymoreira disse:

      A Dina é linda com aquela cara de dor porque aquela cara é a Dina. A Souheir é linda com sua expressão diáfana porque aquilo é ela, sabe? Falta às bailarinas encontrarem a si mesmas na dança, não só no Tarab.
      É exatamente isso! Obrigada!

  4. Cláudia Glass Bloedorn disse:

    Obrigada pelo texto! Esta perfeito e concordo plenamente com vc! Abraços

  5. Livia Carine disse:

    Lory, seus textos estão demais! Que beleza, parabéns de novo.

    A Soheir é sem palavras, de longe minha preferida, logo dps dela eu tenho a Nagwa Fouad mas confesso q a Nagwa está BEM longe da Souheir, pq ela é algo assim quase inatingível mesmo. Souheir no coração, e Nagwa no meu cérebro (confesso). A Souheir é sublime. Não entendo quem não consegue gostar dela, pq ela pra mim, das antigas é a q melhor expressa a música. Dá gosto de assistir e eu nunca vi nenhum vídeo dela que não tenha gostado de qualquer detalhezinho.

    Sobre o Tarab, não poderia ser mais perfeito e eu já havia pensado mt nisso inclusive com a própria Souheir, mas pensava “Ela é ela né, pode tudo” rs mas faz sentido sua reflexão. Não é “ela é ela” no sentido de pode tudo, mas no sentido ser ela mesma, e como devemos ser tbm: Ela é ela, faz do jeito q ela qr, do jeito q ela é, e nós tbm, fazemos do jeito q somos. De fato nunca gostei dessa coisa de ficar sofrendo em tarab, ou taqsim, não que fique feio sempre, mas como bem apontado: qnd não é algo da pessoa fica na cara e destrói tudo (ao menos pra mim). E o mesmo vale pros sorrisos forçados, as palminhas a todo instante (sério tem umas q qnd pedem eu já paro vídeo, é tipo um passo delas: começou tal instante, pára tudo e pede palmas), a conversa com o público, às vezes dá até aquela insegurança de “será q o que estou fazendo é meu mesmo? Ou eu estou copiando sem saber? De tanto q vejo, interiorizei a expressão alheia – mas será q não sou eu tbm?” rs Complicado… ao menos a cara de dor eu nunca gostei msm então de fato jamais irei repetir. Até pq eu gosto é da Souheir e dessa expressão dela de “estou nas nuvens”, com um toque de malícia Nagwa Fouad e uns braços espetaculosos rs! É a minha combinação das antigas q mais gosto. E elas eram “rivais”…vai entender!

    Escreve mais! Tá lindo!!!!!!!!! Quero ir em Salvador te dar um abraço de carinho por este blog!

  6. Hanna Aisha disse:

    Ela é minha preferida das antigas, sem dúvida. Acho que por conta da sua expressão meiga e natural, delicadeza e graça.

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