Taksim baladi: Souher e Fifi.

Taksim baladi é uma modalidade de música árabe comumente utilizada por bailarinas para solos de dança. Consiste numa peça musical onde o instrumento principal é o acordeon – que sempre tem um momento de solo (taksim), seguindo pra uma aceleração rítmica acompanhada de marcações percursivas e que, ocasionalmente, se encerra com um solo de derbake. Por conta dessa construção partindo de um início lento para um final acelerado, esse estilo também é conhecido como “baladi progression“.

É muito comum vermos em vídeos, as bailarinas egípcias, principalmente as ativas nas décadas de 1970 a 1980, executando-o como um dos principais números de seus shows. Entre elas, podemos citar Nagwa Fouad, Fifi Abdo, Mona el Said e Souher Zaki.

O desafio do taksim baladi consiste na habilidade de dosar a leitura melódica, com movimentos sinuosos e arredondados com os shimmies e marcações de quadril que também dêem margem à leitura do momento percursivo da música.

No post anterior eu falei sobre a constância, nas performances de dança do ventre da atualidade, da marcação percursiva em detrimento da leitura melódica. Neste estilo, a importância da leitura melódica e da leitura percursiva, de forma equilibrada, é o diferencial para a execução de uma dança rica e de qualidade.

Para exemplificar algumas formas de leitura desse estilo, resolvi dar foco em duas bailarinas egípcias da chamada Golden Age (traduzida literalmente como Era Dourada) da dança do ventre. São elas: Souher Zaki e Fifi Abdo.

Souher Zaki, obviamente, aparece aqui de novo. Primeiro por ela ser uma das minhas maiores referências de estudo e, segundo, por ter como marca principal, ser a “Dama do Acordeon”. É, provavelmente, a bailarina que mais vamos encontrar em vídeos no youtube dançando taksins baladi.

Sua leitura do acordeon, nas partes lentas, consiste de movimentos arrendondados de quadril e de tronco, além de oitos e ondulações. Na aceleração da música, Souher usa deslocamentos com movimentos bem pequenos e precisos de quadril, mas os quebra, constantemente, com novos arredondados, oitos e ondulações.

Reparem que, no solinho de flauta do vídeo acima, utiliza básico egípcio e soldadinhos, evidenciando a leitura do ritmo base que, após nova aceleração, Souher responde com novos shimmies e novas quebras com movimentos arredondados.

Na última parte da música (2:27), repete a tendência de marcar o ritmo quando este fica na frente da melodia e de marcar o instrumento melódico quando esse se sobressai. Pra merecer eternamente o título de “Dama do Acordeon”, encerra a performance com seu giro clássico: calmo e extremamente elegante.

A segunda bailarina que eu escolhi pra gente se inspirar foi a Fifi Abdo. Enquanto a Souher fica com o título de “Dama do Acordeon”, Fifi fica com o de “Rainha do Baladi”.

Baladi, nesse momento, adquire um significado mais amplo do que simplesmente o nome antigo de um ritmo (Masmodi Saghir – geralmente encontrado em taqsins baladi). Aqui, baladi quer nomear aquele que é “da terra” e, no caso de Fifi, aquela que representa o povo egípcio, a “malleema”, a menina do povo.

O quadril de Fifi é algo surpreendente. Enquanto Souher me toma por sua delicadeza, Fifi me pega pelo poder “ninja” de seu quadril!

Se na Souher encontramos movimentos menores e delicados, em Fifi encontramos movimentos expansivos e extremamente fortes. Um quadril que dialoga com o acordeon como se esse fosse uma velha amiga com quem a gente sai pra tagarelar.

Na entrada da música, Fifi lê o acordeon diretamente. Floreia o quadril com suas características misturas de oitos com arredondados e simplesmente arrasa ao fazer aquele zerão exatamente dentro da nota mais esticada da melodia.

Quando o ritmo base surge, Fifi obviamente o marca com básico egípcio e um deslocamento utilizando marcações de quadril. Observem que ela leva mais tempo do que Souher explorando a possibilidade rítmica da música antes de voltar, mais uma vez, para a leitura da melodia.

Em 1:55 ela faz um de seus deslocamentos ninjas onde, ao mesmo tempo em que lê a melodia com um movimento aparentemente mais arredondado, consegue fazer uma marcação precisa da base percursiva.

Na aceleração da música, responde com seu tremidinho infalível, sem necessidade de giros e grandes floreios. Mas quem precisa mesmo de floreio com um quadril desse?

A Fifi tem uma característica que a gente não vê na Souher – a interação escancarada com o público. Enquanto a primeira dialoga com os espectadores de forma discreta, Fifi é a própria encarnação do mulherão que pede palmas, fala com quem a assiste, se comunica com sua banda com olhares, gestos e caretas impossíveis de passarem despercebidas e, no auge de sua ousadia, opta por não mais marcar ritmo de derbake, mas o ritmo ditado pelas palmas de seu público. Pra encerrar, nos concede a honra de assistir um grande finale de uma Rainha.

Se a música árabe é composta de melodia e percursão, que benção é conseguir lê-la integralmente, ora fazendo marcações do derbake, ora lendo o instrumento que sola!

Independente do estilo que você resolva adotar ou da forma de leitura que você resolva fazer, nunca deixe de lado sua  singularidade enquanto bailarina: o que você é na vida deve ser levado pro palco. Esse, pra mim, é o legado desses dois grandes nomes da dança do ventre.

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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5 respostas para Taksim baladi: Souher e Fifi.

  1. Lory….Amore…Só tenho uma coisa a dizer….Esse artigo está perfeito!!!!
    Adorei como vc descreveu todos os detalhes dessas 2 bailarinas maravilhosas…Mt obrigada por compartilhar essas informações valiosas!!! Bjssssssss

  2. Livia Carine disse:

    Lindo Lory!!!!! Parabéns!!!! Taksim Baladi é o desafio de todas acredito e vc escolheu ótimos exemplos para nos esclarecer! Amei seu post, me fez enxergar detalhes que ainda passam despercebidos do meu olhar de iniciante!!! Por favor, continue!!! Beijos!

  3. Lis de Castro disse:

    Amei o post, florzuda!

  4. Hanna Aisha disse:

    Achei ótimo também, Lory! Eu prefiro a leitura da Fifi para Taqsim Balady, me identifico mais.
    Beijos

    • lorymoreira disse:

      Eu seria incapaz de eleger uma favorita porque, embora ame e tenha um estilo mais similar ao da Souher, fico babando com a Fifi. Essa mulher é tudo de bom! Aff!

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