Metamorfose ambulante

Enquanto bailarinas de dança do ventre temos um medo mortal de reconhecer publicamente que, sim, a dança que a gente faz é extremamente sensual.

A maior parte desse medo tem explicação histórica e relação direta com a forma do Ocidente compreender a dança árabe. Isso não começou nem hoje, nem ontem e muito menos há alguns anos. É fruto da própria história do Egito e dá pano pra mais de cem posts, bate-papos e troca de figurinhas.

A questão evidenciada aqui é que, ao negar a sensualidade da dança do ventre, estamos negando sua característica fundamental e, sem dúvida,  o motivo que mobilizou 8 em cada 10 mulheres a procurarem um curso regular.

Então é óbvio que muita coisa estranha acontece entre ser despertada pela sensualidade da dança a tornar-se aluna. Lógico, a gente passa a entender que a dança do ventre não é só sensualidade. Tem técnica, estudo, dedicação e mais esse punhado de coisas que a gente já cansou de discutir, de debater e de falar. Mas o medo de assumir o potencial sensual da dança do ventre como sua característica fundamental é constante e, de alguma forma, castrador.

Não diferente da maioria das estudantes e/ou bailarinas profissionais que conheço, também sou da ala que tem seus receios do estigma de “dança da sensualidade” que a nossa dança do ventre carrega e, creio eu, que foram esses medos que me fizeram, há alguns anos atrás, torcer o nariz pra a dança da Nagwa Fouad.

A Nagwa tem como uma de suas principais características uma dança extremamente sensual. Mas tão sensual, tão sensual que, se a gente não está muito segura do que é a dança árabe e de todo protocolo técnico por trás daquela carinha de safada, corre o sério risco de reduzí-la a isso – o que provavelmente aconteceu comigo da primeira vez que vi um vídeo da moça dançando!

Mas, ser em constante transformação que sou, me dei o direito de mudar de opinião: há alguns meses, assisti um vídeo da Nagwa e a vi, então, completamente diferente.

Vi que, em suas performances, além de sensualidade e extroversão havia um compromisso muito profundo com a dança e a música árabe. Um tipo de compromisso raro: de quem lê as variações musicais com extrema elegância, fluidez e coerência. Foi justamente esse compromisso que me deu o incentivo para iniciar a reconstrução da imagem que tinha da Nagwa.

Logicamente isso só foi possível porque eu mudei e porque o meu envolvimento com a dança amadureceu, me permitindo lançar novos olhares e percepções.

Hoje tenho procurado estudar mais os vídeos da Nagwa. Não apenas em busca de novas formas de leituras e possibilidades técnicas, mas principalmente para adicionar um pouco mais de exuberância à minha própria dança.

É evidente que o meu jeito de ser não se aproxima em nada do estilo da Nagwa, mas, por que não se beneficiar de uma bailarina que pode, por exemplo, me ajudar a tornar minha entrada no palco mais forte?

É o tempo provando que é o Senhor e que, pra quem se mantem em constante tentativa de evolução, desconstruir formas de pensar e reconstruí-las é possível e pode ser benéfico.

A Nagwa Fouda é sim, extremamente sensual – talvez uma das mais sensuais bailarinas da Golden Age, mas hoje a vejo também como uma grande estrela, merecedora de horas de estudos, admiração e dedicação. E talvez a bailarina que nos tire da hipocrisia: porque dá pra ser tudo isso – muito boa tecnicamente e extremamente gostosona!

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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12 respostas para Metamorfose ambulante

  1. Luísa Ruas disse:

    Linda! Exuberante! Adorei o artigo. O título é muito apropriado.

  2. Super bacana o texto. Não acho que dança do ventre e dança oriental sejam a mesma coisa, mas você tem razão o orientalismo contribuiu muito para essa visão e a dv é uma das maiores representações do orientalismo…mas, também acho que tem outro componente puritano que tenta distanciar a sensualidade da arte e, talvez, na dança isso fique mais gritante já que a nas variantes mais respeitadas (balé, moderno e algumas linhas do contemporâneo) o quadril não fica em evidência…Esses dias vi um documentário horroroso chamado Passistas: furacão dos quadris (algo assim) e dadas as devidas proporções ficou bem evidente o qnt ocupamos (nós dançarinas de dança do ventre) um espaço semelhante no imaginário…Creio que essa negação seja, talvez até inconsciente, uma negação desse imaginário em que sensualidade e arte não podem caminhar juntas…Não sou psicanalista, mas acho que essa negação da sensualidade que algumas dançarinas bravejam deve dar bastante pano pra manga em em sessões de análise…rs…

    • lorymoreira disse:

      Oi Juliana. Vc sempre traz esse incômodo diante da diferença dos conceitos de dança do ventre e dança oriental. Traga aqui sua ideia sobre isso e pq lhe incomoda tanto eles serem utulizados como sinônimos. Seria um bom pretexto pra gente refletir mais sobre a terminologia da dança que a gente pratica, hein? Beijocas e obrigada por participar!

  3. Livia Carine disse:

    Aff Lory! Estou cada vez mais fã daqui! Nagwa Fouad é minha preferida!
    Na verdade é a Souheir, mas eu considero a Souheir uma espécie de Deusa mesmo, uma coisa assim “Hour concours” Sabe? Ela tá fora.. rs É muito “the best” pra entrar na briga, é mt diferente das outras (meu olhar). Então, das antigas mais conhecidas, eu amo a Nagwa Fouad de todo meu coração, e considero minha preferida, já que excluo a Souheir da briga! E, engraçado, tlvz tenha relação com o q vc disse no seu post: Eu nunca vi a dança do ventre como algo sensual, e até hoje não vejo isso nas dançarinas que mais gosto. É difícil eu explicar isso… e talvez por isso eu não tenha tido seu estranhamento com a Nagwa (e o de muitas que acham a Nagwa forçada, por exemplo).
    Eu não considero MESMO (não é coisa de pudica não ou repressão rs) que a sensualidade seja a característica fundamental da DV. Não consigo MESMO enxergar assim. Mas a dança é extremamente feminina e talvez aí a confusão, a meu ver, com a sensualidade. Mulher, sedução, beleza, essas coisas são definidas na cabeça de cada um de modos diferentes, né? Acho que é aí…
    Prefiro utilizar o que você mesma escreveu “o potencial sensual da dança do ventre” (sem o resto da frase…). Potencial combina mais com o meu ponto de vista. Eu acho que a música árabe é TÃO envolvente, que quando dançamos ela de verdade, com nosso sentimento, com nosso eu ali, naquela movimentação de sons e transparecendo aquilo com o corpo é que as inibições de quem assiste isso é que surgem e aí os conceitos de sensualidade, erótico, que são misturados com o que é ser mulher, o que a mulher pode ser, o que somos… Pra mim é tão complexo isso e tão profundo que me desanimo em escrever, pq não fica tão bem explicado como é na minha cabeça e tbm pq não qro q seja algo místico, ou engrandecedor do ego feminino, jamais. É outra parada mesmo. Séria, real.

    Vou parar de escrever, esse aqui não é o meu blog né? Sorry! Mas é que vc tocou nos meus dois assuntos preferidos rs Nagwa e a (não) sensualidade latente da DV.
    Um super abraço, bela escolha de vídeos da Nagwa, ela é lindíssima e merece muito!

  4. Maíra Magno disse:

    engraçado nunca tinha visto da najua com esses olhos, pra mim ela era a elegancia em pessoa, apimentada pra mim sempre foi a fifi

    • lorymoreira disse:

      Pra mim, há 3 pimentas na dança do ventre: a nº1 é a Nadia Gamal, a nº2 a Nagwa Fouad e só em 3º lugar que vem a Fifi. Risos!

      • lorymoreira disse:

        Isso pensando na Goldan Age pq se a gente for pensar na Dina, todas as outras deixam de ser pimentas e passam a ser moranguinhos. Rs!

  5. Carol Murad disse:

    Pois eu achei o máximo as caras “orgásmicas” que ela fez no último vídeo! Tipo, sem medo de ser mulherão mesmo! hahahaha!

  6. Carla disse:

    Finalmente. Vou ver os vídeos agora!

  7. Hanna Aisha disse:

    Lory,a Nagwa não é minha preferida e não consigo enxergar técnica para ser aprendida, mas engraçado que não há um vídeo que eu não veja dela. Estamos em sintonia, eu estava preparando um post sobre ela!!!
    Beijos

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