Os braços nas dançarinas da Golden Age

Motivada por um post da Hanna Aisha, resolvi escrever um post que pretende servir como guia para estudos de movimentação de braços utilizando como referência as dançarinas da Golden Age.

No post em questão, a Hanna menciona que em workshop, Gamal Seif – coreógrafo e professor egípcio de danças árabes, afirmou que as dançarinas desse periódo não trabalhavam braços em suas performances.

Obviamente eu discordo do Gamal. Pura ousadia minha! Eu, uma Maria ninguém, discordar de uma referência egípcia no estudo da dança, não?

Pois bem… ousadia não me falta, mas pesquisa também não. Então, vamos lá?

Taheya Carioca: na maior parte do tempo, utiliza os braços mais altos. Às vezes, os dois juntos acima da cabeça, às vezes, abaixo da linha dos olhos. Em outros momentos, usa-os em formato de L (um mais acima na linha da cabeça e outro na linha do quadril).

Sempre trabalha com formato mais de molduras. Ela, pra mim, é o melhor exemplo de como fazer seus braços valorizarem o que você quer mostrar. Reparem no vídeo abaixo, as poses do 1:46 e na entrada linda do 3:01.

Observem também que ela dançava tocando snjus com frequência e, mesmo quando não estava com eles em mãos, permanecia com o hábito de deixar os membros superiores mais elevados – o que chamamos de bracinhos de snujs.

Há um certo trejeito de flamenco em algumas viradas que ela faz nos braços. Bem sutil, mas há. Não sei se ela estudou alguma coisa de dança espanhola, mas percebo uma certa proximidade na sua proposta.

Samia Gamal: contam as más línguas que a professora de dança dela sugeriu que utilizasse véus para disfarçar os braços desajeitados. Se essa história é verídica, não sei afirmar. Mas, em sendo, já demonstra a preocupação que havia naquela época com o assunto.

Eu, particularmente, gosto muito de alguns posicionamentos de braços da Samia. São charmosos e bem estruturados, embora às vezes, pareçam sujos – porque os estudo com os olhos de hoje e hoje tudo é bem mais limpo e estruturado.

Nesse vídeo dá para perceber como elas os usa com inteligência, valorizando o drama da música e do contexto. Em alguns momentos, usa-os esticadinhos para valorizar os movimentos de ombros. Por vezes, cruza-os na frente do rosto ou os coloca como moldura em L, tal como Taheya Carioca.

Eu descreveria a Samia como hiperbólica – todo seu excesso a gente vê crescendo em seus braços e se encerrando nas ondulações de suas mãos. Eu gosto de gente hiperbólica, logo gosto da Samia.

Nagwa Fouad: minha favorita neste quesito. Um repertório maior, braços mais ativos, que mudam de posicionamento com mais frequência. No vídeo abaixo vocês podem visualizar aquele princípio que a Mahaila el Helwa usa em seus workshops: “mudou o passo, mudou o braço”.

O que mais gosto dessa performance são as posturas bem marcadas de braço. Aqueles famosos braços em moldura faraônica – bem posicionados e delimitados. Na Nagwa, enquanto seu quadril flui, seu braço dá o contorno.

O momento do 2:12 é o mais sensual – aquele famoso e marcante momento em que a dançarina joga os cabelos e os tira do rosto e que, até hoje, todo mundo copia achando que é coisa nova, moderna… Em seguida vem um movimento de braços bem característico dela (e que a Nadia Gamal também usa), que chamamos de polvo – enquanto faz oitos egípcios, os braços se cruzam na frente do corpo com agilidade. Adoro esse movimento e feito de forma mais lenta, é bem bonito. Nos giros, a Nagwa posiciona os braços de forma bem estruturada e finaliza sua dança com marcações perfeitas e precisas.

Naima Akef: na Naima vamos ver braços mais delicados, sem tanto impacto como vimos na Nagwa Fouad. Os posicionamentos são evidentemente inspirados no ballet clássico. Por causa disso, de todas as dançarinas que vimos até agora, é a que tem movimentos mais limpos e, obviamente, mais facéis de estudar (o que não é necessariamente a mesma coisa que “mais fácil de aprender”). Suas linhas são fluídas e passeiam em várias direções. Para a Naima, recomendo o estudo de vários vídeos porque ela tem muito conteúdo pra ser estudado. Por ora, deixo esses dois de indicação.

Souher Zaki: nossa, eu faria um post apenas sobre os bracinhos e mãos da Souher! Mas vou me conter a resumir o meu olhar sobre a movimentação de membros superiores dela.

Os bracinhos arredondados não dançam, regem a orquestra enquanto a música toca. Observem como eles acompanham cada nota delicadamente… E o que dizer dessas mãos de boneca? Um formato copiado e ensinado exaustivamente nas salas de aula de qualquer canto do mundo.

A Souher usa marcações de braços bem mais suaves que suas antecessoras. No 03:02, a gente pode vê aquele seu famoso bracinho arredondado elevado acima da cabeça, com a palma das mãos pra fora. E os bracinhos que mais uma vez descem, acompanhando a música. Puro charme.

Não escondo de ninguém: apesar de ser não ter os movimentos tão elaborados como a Naima Akef, por exemplo, é minha preferida. Pelo simples fato de ter o par de mãos mais delicados de todo universo bellydance.

Se formos comparar a movimentação de braços das bailarinas da Golden Age com as dançarinas atuais, vamos sentir uma enorme diferença. Hoje utilizamos movimentos de braços bem mais elaborados e em repertório maior – passamos a beber de outras fontes e isso acrescentou novas linhas e traçados à nossa dança. O que não é diferente também se pensarmos em termos de utilização espacial e até da própria movimentação do quadril. Mas, em contrapartida, também vamos perceber o quanto nossas fontes atuais bebem dessas dançarinas e quantas coisas que pensamos ser novas já foram feitas há décadas atrás pelas dançarinas da Golden Age.

O que acontece é que a dança sempre se renova e é preciso estar atento a isso, se reciclando e estudando novas maneiras que caibam em você. No entanto, acredito que não devemos perder de vista que as dançarinas antigas tiveram uma grande contribuição para o estudo que fazemos hoje. Porque evoluir é olhar pra frente e, também, não ter medo de olhar pra o que já passou.

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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9 respostas para Os braços nas dançarinas da Golden Age

  1. Daiane disse:

    Muito legal este post, Lory. Também concordo sobre o trabalho de braços. Talvez o que o Gamal tentou dizer, era em relação ao movimento ser mais espontâneo e original do que “trabalhado”, tipo, aquela era a maneira que elas viam e escolhiam fazer por si mesmas, “sem pedir permissão” e sem o refinamento técnico proposto hoje, aquela coisa de repetição e consciência corporal e tal: era simplesmente dança. Por isso cada uma com um estilo diferente, cada uma dançava conforme sua própria visão artística. E cada uma com um talento nato.

    • lorymoreira disse:

      Não sei, não, fia… Assisto a Nájua e não vejo nada que não seja milimetricamente consciente. Vejo a Taheya e observo uso e trocas que me parecem extremamente intencionais.
      Sabe o que eu queria? Sentar e bater um longo papo com a Souher. Uma das perguntas que faria a ela seria essa: você estudou a si mesma e os movimentos que mais lhe cabiam ou você já nasceu sabendo tudo isso?
      Porque, na moral, vá ser linda assim no Egito, viu?
      Aff! Morro de amores!

  2. Luísa Ruas disse:

    Para mim a única imperfeição com o trabalho de membros superiores da Samia é que o braço direito é bem mais ativo do que o esquerdo. Acho que ela trabalha de maneira elegante, precisa e apurada a divisão entre: pulso, cotovelo – que poucas bailarinas exploram – e ombros. Os braços dela tem uma importância tremenda na composição e expressividade da dança dela, inclusive marcando a respiração do ritmo com uma maestria ímpar!
    Os braços da Taheya são mais contidos, mas também trabalham em conexão com a música. Nota-se que as molduras não são mero acaso, estética ou comodidade. A troca entre as molduras é realizadas com fluidez e indica os momentos expressivos para a bailarina, dando vivacidade ao corpo como um tudo.
    Bah! Eu noto uma presença e consciência constante dos braços na dança dessas bailarinas. Estou cansada desse constante julgamento de Dança Oriental a partir dos conceitos do Ballet.
    Eu vejo uma sensibilidade que explode no corpo dessas mulheres ao transcorrer da música. Essa sensibilidade me toca e me transforma. Me anima, me encanta, me envolve de emoções!
    E vejo o profissionalismo e a perfeição humana e especial de cada uma delas. Às vezes me sinto a única! :/
    (Momento desabafo, e não momento discórdia, lenha na fogueira, etc)

    • lorymoreira disse:

      Oi Luísa! Obrigada pela visita e pelo comentário.
      Então, concordo com você em relação ao uso intencional e consciente dos movimentos das dançarinas da Golden Age.
      Também sinto a música nos braços da Samya. Mas isso foi uma conquista que me permitir ter, sabe?
      Das primeiras vezes que a vi, só enxergava sujeira. Achava tudo em excesso.
      Foi necessário tempo para que eu a entendesse e passasse a enxergar a maneira como ela escolheu ler a música.
      O problema é quem nem todo mundo vai ter paciência pra se dedicar tanto a estudar uma dançarina que não está na moda.
      Daí é natural que a rotulemos de “braços sujos” e pronto.
      Porque o ser humano sempre parte para aquilo que lhe é mais fácil de entender à primeira vista.
      Na maioria, não somos pessoas que vivem apenas da dança. Temos nossas outras profissões, outra vida pra dar conta.
      Nosso tempo é curto para nos dedicarmos e debruçarmos sobre a dança como deveríamos. Por isso partimos pra o que nos é mais confortável.
      Não vejo problemas nisso. É a realidade. Taí mesmo – a gente gostando ou não do resultado, né?
      Faz parte…
      Beijos e volte sempre!

  3. Hanna Aisha disse:

    Oi, Lory

    Obrigada pela referência!

    Tendo a concordar com a Daiane. Tenho a impressão de que os movimentos delas em geral, eram mais intuitivos, com exceção da Naima, que me parece mais “disciplinada”.

    Quando escrevi o post e comentei sobre os braços, nem pensei exatamente nas bailarinas famosas da Golden Age, mas em várias outras menos famosas e que possuem varios vídeos. Eu interpretei o que o Gamal disse como algo menos disciplinado e mais intuitivo.

    Beijos

    • lorymoreira disse:

      Hanna, não compreendo essa leitura de braços da maioria das dançarinas da Golden Age como intuitiva. Se você observar bem a Nájua Fouad, por exemplo, vai reparar que há uso intencional de cada movimentação de braços com marcações muito precisas e que, ao meu olhar, foram estudadas. Até a própria Taheya, que o faz de forma menos impactante, tem molduras estruturadas e posicionamento de braços bem típicos de quem parece ter estudado alguma coisa de flamenco.
      Acho que é ingenuidade nossa pensarmos que essas dançarinas antigas eram tão empíricas assim em relação à dança.
      Há uma outra compreensão da música e do corpo, uma outra forma de movimentação, mas não menos requintada… é que assim, somos ocidentais e por mais que apuremos o nosso olhar, sempre a veremos a partir desse referencial. E isso me parece inevitável.

  4. Adorei tanto o seu post, quanto o da Hanna, me fizeram prestar mais atenção aos detalhes. Antes eu assistia as antigas e achava pouco “requintadas”, mas como você mencionou acima é o nosso olhar que é diferente, e no meu caso ainda pouco apurado.

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