A Flauta. Lições de um samurai (parte 2)

flute– Bem, toque qualquer coisa, ou melhor, toque com a intenção de expulsar pelos sete orifícios da flauta tudo o que lhe vai na alma.

– Tem razão. Creio que sentirei alívio se conseguir expulsar, através da flauta, toda tristeza, rancor e amargura da minha alma.

– Exatamente. É importante expurgar a alma. Diz-se que, com seus 40 centímetros de comprimento, a pequena flauta sintetiza um ser humano e, ao mesmo tempo, todo o universo. Kan, go, jou, saku, um, ge, ku – pelos sete orifícios, pode-se dizer, falam as cinco paixões humanas1 e respiram os dois sexos, masculino e feminino. Já teve, por acaso, a oportunidade de ler a obra Kaichikushou?

– Não me recordo.

– No começo da obra, há um trecho que diz: “a flauta é o receptáculo de cinco vozes e oito sons2, e a harmonia das quatro virtudes3 em dois timbres”

[…] Otsu levou a flauta aos lábios.

Enviesando ligeiramente o rosto de tez alva, Otsu preparou a flauta com calma. Seus gestos, umedecendo o bocal e concentrando-se, em nada se assemelhava aos habituais. A força da arte lhe conferia dignidade.

[…] O som da flauta elevou-se no ar. Os dedos de Otsu, delgados e brancos, pareciam pequenos duendes pisando e dançando sobre os orifícios da flauta.

O tom era grave – transportado pela melodia que murmurava como um regato, Takuan sentia-se fluir como águas que ora correm apressadas por vales, ora brincam travessas em remansos. Ao se elevar aguda a melodia, experimentava a alma arrebatada subir ao espaço, brincar entre nuvens; ou então, vozes da terra e eco do céu compunham novamente uma triste melodia, a canção do vento a sussurrar nos pinheiros lamentando a inconstância das coisas mundanas.

Olhos cerrados, atento, embevecido, Takuan lembrou-se de uma lenda envolvendo uma famosa flauta, esta pertencente ao lorde Sanmi Hiromasa. Certa noite de luar, Hiromasa passeava tocando flauta nos arredores do portão meridional do Palácio Imperial quando, ao passar pelo alto portal de cumeeira dupla, ouviu alguém sobre o portal acompanhando-o com outra flauta. Conversou com o desconhecido, permutaram-se os instrumentos e passaram o resto da noite em animado dueto. Mais tarde, contava a lenda, soube-se que o desconhecido era o diabo que assumira a forma humana.

Dizia-se que a música tinha o poder de comover até mesmo o diabo. Como poderia então um frágil filho de humanos, presa das cinco paixões, resistir à flauta tocada por esta beldade?

[…] Absorta, em estado de total concentração, compunha uma unidade inseparável com a flauta.

A melodia tocada por Otsu parecia pairar nas alturas e tocar o infinito, ora clamando pela mãe, ora buscando o pai desconhecido. Ou ainda parecia denunciar, ressentida, ao insensível homem que a abandonara e vivia agora em outras terras, quão feridos se achavam seus sentimentos.

[…] A flauta exprimia todo o seu desespero

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Notas:

1: cinco paixões: prazer, alegria, ódio, ira e mágoa

2:cinco vozes: as cinco notas musicais que compunham a escala das antigas músicas da corte japonesa; oito sons: oito tradicionais instrumentos musicais da antiga China.

3: quatro virtudes: quatro caminhos pelos quais a natureza promove o crescimento de todas as coisas – aprimavera (bondade), verão (correção), outono (retidão) e inverno (sabedoria)

Fonte: Musashi – de Eiji Yoshikawa

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Sobre lorymoreira

Baiana, blogueira e apaixonada por música e dança árabe!
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2 respostas para A Flauta. Lições de um samurai (parte 2)

  1. Obrigada por fazer meu dia começar tão belo!

  2. Samara Leonel disse:

    =^.^=

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