Tão longe, tão perto.

Jade el Jabel. Tão longe e tão perto do que almejo como aprendiz de dança.

Como ser indiferente a essa criatura? Muita gente ama. Muita gente odeia. Eu, presto minha reverência – porque ela dá um banho de autenticidade, manda padrões pro espaço, tem um baita compromisso com a cultura da dança que escolheu e diz o que pensa sem melindres e com muita elegância.

Eu não tenho sua escuta. Percebo que escutamos coisas diferentes na música e isso me enriquece – porque aprendo sempre vendo-a dançar. Também não tenho, nem de longe, sua competência técnica. Mas, ainda que tivesse, jamais faria uma leitura assim – ela faz escolhas tão singulares, tão próprias, mas tão diferentes das que eu gostaria de poder fazer! E, ainda assim, que coisa linda de viver! Quanta poesia, quanta entrega, quanta verdade!

Essa é a maior riqueza de nossa arte. Para cada alma, uma possibilidade de encontro singular com uma mesma música, numa mesma modalidade de dança.

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Duas coisas que vocês precisam ver

1. Ler, com urgência, o trecho da entrevista com a Randa que a Daiane disponibilizou no blog dela. Não tem nenhum novidade, só afirmações daquilo que a gente fala sempre: dança sem emoção não é dança do vente.

“Eu vejo as pessoas que pensam que são dançarinas do ventre, mas elas não são. Eles estão longe de serem dançarinas do ventre, porque não têm sentimentos em sua dança. Dança do ventre é muito mais do que isso, você como um dançarino precisa apresentar tudo o que você tem. Se você tem apenas a técnica, o público vai ficar entediado dentro de 5 minutos de olho em você. Você deve ter sentimento, técnica e expressão, você deve ter o pacote inteiro para executar a verdadeira dança Oriental.”

2. E pra mostrar que, sim, existem verdadeiras dançarinas do ventre fora do Egito: assistir, estudar e se emocionar com essa dançarina aqui, a Marwa, do Chile.

Observem como ela destrincha a música com o quadril, lendo cada nota de forma preciosa e emocionada. Os braços também são um show à parte – sem aqueles movimentos pra lá de exagerados e cheios de jazz ou ballet.

Braços harmônicos, quadril fantástico, leitura linda (e bem melódica, do jeito que eu gosto), dança emocionada, figurino perfeito e a melhor música árabe de todos os tempos.

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Excesso de Publicidade e Publicidade Ineficaz

Essa semana passei por uma situação extremamente desagradável que acho que serve de alerta para todas nós.

Há alguns longos meses, venho recebendo constantemente e-mails de divulgação de aulas, cursos e shows de uma determinada dançarina/professora de tribal.

Durante algum tempo, bloqueei as mensagens dela. No entanto, passei a notar que as recebia de endereços de e-mails diferenciados e, não tendo como contê-las longe da minha caixa de e-mails, enviei um e-mail para a tal moça solicitando minha desvinculação (que nunca solicitei, a propósito) da sua mala direta. A moça respondeu que o faria, mas em menos de 15 dias os e-mails voltaram a ocupar espaço precioso na minha caixa de entrada. Tornei a lhe pedir que me retirasse daquela lista. Mas, desta vez, ela me escreveu dizendo que se eu estava tão incomodada, que a bloqueasse. Expliquei a ela que já tinha feito, mas que meu serviço de bloqueio não era tão eficaz quanto a sua capacidade de me atormentar com divulgação de cursos que nunca tive o menor interesse em fazer! Pronto, ela ganhou minha antipatia e minha publicidade negativa a seu respeito.

É inacreditável como algumas dançarinas se comportam em relação ao seu portfólio de trabalhos!

Eu nunca fiz aula com essa moça, nunca tive a menor intenção de fazer, nunca me inscrevi em nenhuma página para receber atualizações dela. No entanto, ela se acha no direito de me enviar e-mails quase semanais com seu material de trabalho e ainda se mostra extremamente infeliz em sua conduta quando solicito o meu descredenciamento.

Isso lhe parece familiar, não é?

Pois é… em dança do ventre e dança tribal, aqui no Brasil, isso é uma constante. Infelizmente.

Pecamos por excesso de divulgação? Não. Mas estamos nos promovendo de uma maneira infantil, pouco eficaz e extremamente deselegante.

Esse é um dos casos que estou contando aqui, mas existem muitos outros! Você mesma, leitora, não seria capaz de me relatar vários?

Entendam uma coisa: quanto mais publicidade não solicitada vocês mandam, mais se distanciam de achar uma parceira de divulgação e/ou potencial cliente.

Que tal aprender a fazer divulgação de seu trabalho de uma forma mais elegante? Não sabe como? Contrata um profissional pra te orientar!

E aqui aproveito o momento também para falar dos cartazes de divulgação dos cursos que vejo por aí! Nossa!!!!!! Total falta de noção estética e da clareza do objetivo de um cartaz de divulgação. São tantas fotos, tantos efeitos, tanta poluição visual que nem sempre consigo entender de primeira qual é mesmo o propósito daquilo.

Brega! Somos bregas, amadoras, auto-centradas, com o ego do tamanho do mundo e estamos fazendo um papelão – porque artista bom não ganha espaço assim. Pra ser honesta, nem creio que uma pessoa que se comporta de tal forma pode ser chamada de artista.

Ah, Lory, mas a gente não tem dinheiro para pagar alguém pra fazer”.

Sinceramente? Então não espere bom resultado de sua propaganda. Já diz uma amiga minha “para ganhar você primeiro precisa investir”. E investir em qualidade, bom gosto e sofisticação, baby, nunca é demais!

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A expressão na dança

Não vou escrever nada. Quero apenas que vocês assistam isso aqui.

Melhor do que escrever um tratado à respeito do assunto, é vê-lo na prática.

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A Flauta. Lições de um samurai (parte 2)

flute– Bem, toque qualquer coisa, ou melhor, toque com a intenção de expulsar pelos sete orifícios da flauta tudo o que lhe vai na alma.

– Tem razão. Creio que sentirei alívio se conseguir expulsar, através da flauta, toda tristeza, rancor e amargura da minha alma.

– Exatamente. É importante expurgar a alma. Diz-se que, com seus 40 centímetros de comprimento, a pequena flauta sintetiza um ser humano e, ao mesmo tempo, todo o universo. Kan, go, jou, saku, um, ge, ku – pelos sete orifícios, pode-se dizer, falam as cinco paixões humanas1 e respiram os dois sexos, masculino e feminino. Já teve, por acaso, a oportunidade de ler a obra Kaichikushou?

– Não me recordo.

– No começo da obra, há um trecho que diz: “a flauta é o receptáculo de cinco vozes e oito sons2, e a harmonia das quatro virtudes3 em dois timbres”

[…] Otsu levou a flauta aos lábios.

Enviesando ligeiramente o rosto de tez alva, Otsu preparou a flauta com calma. Seus gestos, umedecendo o bocal e concentrando-se, em nada se assemelhava aos habituais. A força da arte lhe conferia dignidade.

[…] O som da flauta elevou-se no ar. Os dedos de Otsu, delgados e brancos, pareciam pequenos duendes pisando e dançando sobre os orifícios da flauta.

O tom era grave – transportado pela melodia que murmurava como um regato, Takuan sentia-se fluir como águas que ora correm apressadas por vales, ora brincam travessas em remansos. Ao se elevar aguda a melodia, experimentava a alma arrebatada subir ao espaço, brincar entre nuvens; ou então, vozes da terra e eco do céu compunham novamente uma triste melodia, a canção do vento a sussurrar nos pinheiros lamentando a inconstância das coisas mundanas.

Olhos cerrados, atento, embevecido, Takuan lembrou-se de uma lenda envolvendo uma famosa flauta, esta pertencente ao lorde Sanmi Hiromasa. Certa noite de luar, Hiromasa passeava tocando flauta nos arredores do portão meridional do Palácio Imperial quando, ao passar pelo alto portal de cumeeira dupla, ouviu alguém sobre o portal acompanhando-o com outra flauta. Conversou com o desconhecido, permutaram-se os instrumentos e passaram o resto da noite em animado dueto. Mais tarde, contava a lenda, soube-se que o desconhecido era o diabo que assumira a forma humana.

Dizia-se que a música tinha o poder de comover até mesmo o diabo. Como poderia então um frágil filho de humanos, presa das cinco paixões, resistir à flauta tocada por esta beldade?

[…] Absorta, em estado de total concentração, compunha uma unidade inseparável com a flauta.

A melodia tocada por Otsu parecia pairar nas alturas e tocar o infinito, ora clamando pela mãe, ora buscando o pai desconhecido. Ou ainda parecia denunciar, ressentida, ao insensível homem que a abandonara e vivia agora em outras terras, quão feridos se achavam seus sentimentos.

[…] A flauta exprimia todo o seu desespero

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Notas:

1: cinco paixões: prazer, alegria, ódio, ira e mágoa

2:cinco vozes: as cinco notas musicais que compunham a escala das antigas músicas da corte japonesa; oito sons: oito tradicionais instrumentos musicais da antiga China.

3: quatro virtudes: quatro caminhos pelos quais a natureza promove o crescimento de todas as coisas – aprimavera (bondade), verão (correção), outono (retidão) e inverno (sabedoria)

Fonte: Musashi – de Eiji Yoshikawa

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Gostou? Quer viajar mais com o nay? Então, vê isso aqui.

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Onde foi parar o folclore?

Entro e saio de eventos de dança árabe e sempre me faço a mesma pergunta: por que cargas d´água o povo não dança folclore?

Vejam bem: são dezenas de apresentações com grandes clássicas, solos de derbake, românticas (hoje, super na moda), às vezes, bem de vez em quando mesmo, um taksim. Com menos frequência, um baladizinho… Mas, e a raíz da dança que a gente faz? A batida forte de um quadril marcando o saidi, de uma bengala girando? A alegria sapeca dos cabelos que voam no khaliji? A brejeirice do melea-laf? Nem vou mencionar o hagallah, o falahi e a dança núbia, né? Esses, coitados, às vezes acho que o povo que faz dança nem sabe mesmo direito o que é…

Mas, voltando: por que o folclore passa tão longe dos grandes palcos e espetáculos de dança árabe?

Existem hipóteses. Muitas. Uma delas é que não há muito glamour numa galabia. A moça quer mostrar seu figurinho novo de duas peças, seu braço entupido de strass e isso não combina com uma dancinha pé no chão, né?

Mas, meninas, escutem só: nada anima mais uma platéia que uma apresentação folclórica! Pra mim é o auge de qualquer show. Se for em grupo, então, e for bem feito, aff! É de arrepiar os cabelinhos do braço!

Tudo bem que não dá para fazer tudo que a gente gostaria no palco, visto que a grande maioria de nós não o frequenta tantas vezes assim… mas, pra não deixar o folclore morrer na gente, por que não se propor a estudar uma única peça anual? Um único estilo, uma única música… mas estudá-lo, sim!? E, quem sabe, se arriscar a dançá-lo? E não é porque a Lory está sugerindo: é porque a platéia vibra, você dá um plus no seu quadril (nada é tão bom para o quadril que estudar folclore) e a gente resgata a parte mais divertida da dança árabe: àquela que nos aproxima ainda mais da cultura e do povo de onde vem a nossa amada dança do ventre.

Inspire-se!

Gawazee Soumbati – Aysha Almée

Saidi (snujs e bengala) – Autumn Ward

Dança Beduína – Rakaça

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Lições de um samurai (parte 01)

A literatura e a dança se complementam, assim como a música, a escultura, os perfumes, os sabores…!

Se esse mundo é uma unidade, a manifestação dessa unidade é a prova da existência de algo que é superior.

Sim, estou filosofando e divagando graças a leitura de “Musashi”, obra épica do escritor Yoshikawa que gira em torno da história de um samurai e de sua preparação para a jornada de aprendizagem na vida que escolheu ter.

Nós, de alguma forma, também somos samurais. Só que ao invés de armas, escolhemos a dança e é por ela que podemos nos conhecer melhor, saber das nossas fraquezas e onde se esconde nossa fortaleza interior.

Diversas passagens são merecedoras de destaques e analogias com o mundo da dança. Algumas, de forma mais óbvia, outras, fruto das viagens de uma geminiana. Mas eis que um trecho captura totalmente minha atenção:

“A complexidade oculta na aparente simplicidade”.

Só me veio uma imagem na cabeça: a dança da Souher Zaki.

Sim. Sou uma admiradora apaixonada: das artes, dos livros e de gente esperta, inteligente, que sabe usar a seu favor tudo que tem de melhor. Que sabe encantar como poucas – que é a manifestação da própria dança árabe, sem necessidade de legendas, de enfeites, de excessos. Souher. Linda, poética, inteira, suave.

Como pode, meu Deus, uma dança tão simples conter tamanha complexidade?

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Sadaqah: ainda há o que agradecer. Sempre!

Bela, Cris e Lis.

…essas 03 lindezas se tornaram não apenas professoras de dança, mas minhas orientadoras, amigas, companheiras de jornada na arte, de risos e alegrias, choros, desabafos,  frustrações…

Com elas, aprendi a me tornar, a cada dia, uma pessoa melhor – porque elas não formam apenas dançarinas, elas ajudam a formar artistas e pessoas íntegras.

Com elas aprendi que a dança pode ajudar a moldar o caráter, contornar o ego para o alcance real da expressão subjetiva de amor pelo que se é e pelo que se faz.

Com elas, não há lugar de mestre e discípulo. O processo de aprendizado é mútuo, a troca é fundamental, o respeito se faz presente integralmente.

Com elas, não preciso de máscaras. Sempre falei aquilo que ia no meu coração, sempre reclamei quando achava que devia, torcia o nariz pro que não gostava, apoiava incondicionalmente…

Quando indico alguém pra fazer aulas de dança, penso em tudo que já passei, em tudo que já experimentei e no que vivi. E se indico Lis de Castro, Cris Azevêdo e Bela Saffe é porque confio nelas três de olhos fechados. Como dançarinas e professoras, mas, sobretudo, como seres humanos.

Isso não é um post puxação de saco. É um agradecimento – porque é uma honra ter o apoio dessas três mulheres fantásticas e de todas as outras que estão no meu entorno: minhas colegas, parceiras e amigas. Pessoas que EU ESCOLHI ter ao meu lado.

Eu sou feliz pra caramba. 🙂

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Girls Just Want To Have Fun

Tem muita discussão sobre shaabi por aí. Informações divergentes, discordâncias, se se dança, ou não, no palco, se é folclore ou não, se tem que ser escrachado ou não… Aff! É nisso que dar inventar de dançar uma dança que faz parte de outra cultura!

De tudo que já li, pra mim ficou a ideia de que shaabi é, acima de tudo, diversão e bom humor – e foi nessa onda que preparei um improviso de shaabi para encerrar o meu evento de Janeiro deste ano.

Dancei de galabia porque é o figurino com o qual me sinto melhor, me sinto mais eu. Não é porque acredito que ideologicamente shaabi precisa ser dançado de galabia!

Escolhi uma música que fala de flerte, super animada e que dá uma vontade doida de sair dançando, que me faz rir e tem um ritmo envolvente e delicioso.

Aproveitei o ensejo para homenagear a amiga que me apresentou ao universo baladesco pelo qual me apaixonei e viciei, Viviane Amaral. Me inspirei nela mesmo porque, depois de Fifi Abdo, ela é, pra mim, a personificação de como se divertir dançando um baladi.

O resultado foi uma dança muito engraçada, descompromissada com rigores técnicos, com certo ou errado, com “será que o povo vai gostar?”. Dane-se!

Eu, em plena lucidez, não teria feito metade das coisas que fiz nessa performance, mas que rolaram porque acabei entrando no espírito “se diverte e deixa pra se preocupar com a técnica na hora da aula”.

Me experimentar livre de amarras foi um presente que me dei. E não me venham com esse papo de que shaabi é isso ou assado. Shaabi é o corpo e a alma da gente brincando e, dentro de mim, também mora uma garota que só quer se divertir!

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Baladi Assaya

Uma das vertentes da dança baladi é a performance com a bengala – que pouco vemos sendo executada pelas bandas de cá.

É fato que a grande maioria das pessoas só compreende performances com bengala ou bastão num contexto de saidi. Mas, sim, podemos dançar um taksim acordeon com bengala – só que numa proposta de dança baladi. Nesse contexto, a dança recebe o nome de Baladi Assaya.

Algumas fontes que pesquisei afirmam que esse estilo de dança foi criado pela Fifi Abdo na década de 1970, mas isso não me parece correto porque em trechos de vídeos antigos, encontramos dançarinas da década de 1950 fazendo a performance do baladi com bastão.

Nesse estilo de dança, a prioridade não são as marcações de passinhos de folclore, nem a demonstração de habilidade no manuseio do elemento, mas o charme e a diversão, característicos da dança baladi.

A diferença aqui não se refere apenas à música utilizada, mas a interpretação e a textura que a dançarina dará à sua performance.

O figurino deve evidenciar que é uma dança baladi, portanto galabias e lencinhos amarrados na cintura e nos cabelos são sempre uma boa pedida!

Inspire-se!

Zeinat Olwi (Egito)

Fifi Abdo (Egito)

Orit Matsfir (Israel)

Samya-Jú (Brasil)

Fontes:

Shems Dance e Zahra Li

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